Charles Bradley (1948-2017): História de Um Patinho Feio

Foi ignorado e viveu de expedientes. Depois dos 60 anos tornou-se a voz obrigatória da música soul contemporânea. Sábado morreu. Já era um ícone.
Charles Bradley
Photograph: Kisha Bari Charles Bradley
Por Rui Monteiro |
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"Why Is It So Hard." Austin, Texas, Março 2011

Há músicos, outros artistas também, os quais, apesar do seu talento, são pura e simplesmente ignorados. Charles Bradley, que morreu sábado, dia 23 de Setembro, aos 68 anos, esteve nessa categoria durante décadas. Até há 15 anos ter um momento de ousadia que valeu três álbuns, uma reputação de compositor inspiradamente dorido e de intérprete capaz de injectar energia em plateias de mortos-vivos.

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"Confusion", 2013

Quer dizer: demos por ele quando já era tarde. Mesmo que não demais, tarde bastante para se lamentarem os anos de talento desperdiçado em imitações de James Brown, enquanto, como qualquer outro peão, fazia pela vida. Contudo, demos por ele ainda a tempo de reconhecer e modestamente celebrar um grande criador de música soul crua e autêntica, pois radicada numa vida de pobreza e desenrascanço, e usufruir de uns pares de singles, desde 2002, e de uma trilogia de álbuns iniciada apenas em 2011 com o apropriado título No Time for Dreaming. Antes, porém, e sem que o rei do funk tenha qualquer responsabilidade, bem se pode dizer que a nuvem negra que acompanhou a vida de Charles Bradley foi a de James Brown. Isso, e a pobreza.

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"Strictly Reserved for You", 2013

Brown é a sua inspiração e a sua, por assim dizer, cruz. O exemplo que quis seguir desde o dia, em 1962, era ele um fedelho de 14 anos prestes a fugir de casa com medo da mãe; o dia – escrevi – em que a irmã o levou até ao Teatro Apollo, no bairro nova-iorquino de Harlem, para ver o frenético intérprete contaminar a audiência de ritmo e siderar o rapaz. “A primeira vez que o vi, foi como uma ressurreição”, disse Bradley, muitos anos depois, acrescentando: “Já tinha visto espectáculos, mas nada como James Brown em palco.” Ora, se James Brown foi inspiração e sombra, Gabe Roth, co-fundador da Daptone Records, e o documentalista Poull Brien foram os seus anjos da guarda. O primeiro por ter compreendido a pérola escondida na voz daquele cota à beira de se candidatar à reforma e ter direito ao passe social para a terceira idade; o cineasta por realizar, em 2012, Charles Bradley: Soul of América e, assim, contar a história toda. E que história.

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"The World (Is Going Up In Flames)", 2011

Criado pela avó até aos oito anos, sem nunca ter conhecido o pai, antes ou depois de a mãe dar às de Vila Diogo lá de Gainesville, na Florida, onde viviam, e assentar em Brooklin, Nova Iorque; cidade onde, depois de um acesso de culpa maternal ou coisa parecida, se juntou aos irmãos, por pouco tempo, pois aos 14 anos foge do lado da mãe, que temia, e foi à sua vida. Viveu na rua algum tempo, vagueou pelos mais diversos trabalhos, de alguma maneira continuando a viver a sua fascinação pela música e a forma de interpretação de Brown treinando a voz e os movimentos do corpo do seu ídolo usando uma vassoura como microfone. E, aos 18 anos, incentivado pelos colegas de emprego no Jobs Corp., um centro de formação profissional no estado do Maine, e a contribuição de uns goles de gin, fez uma imitação do seu involuntário mentor que arrebatou. Estava encontrado o seu talento, ou melhor, uma forma de, se não ganhar a vida, pelo menos inflacionar um pouco os seus parcos salários de trabalhador braçal. Em 1977, depois de 10 anos a trabalhar como cozinheiro num hospital do estado, Bradley resolveu viajar através da América e, ao fim de um tempo, via Canadá, Alasca e a cidade de Seattle, chegou à Califórnia para duas décadas em que fez de tudo e mais alguma coisa e teve as mais variadas profissões, sempre arredondando o ordenado com actuações onde, a bem dizer, mimava o seu santo padroeiro sob designações como Screaming Eagle of Soul, Black Velvet e, até, James Brown Jr.

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"This Love Ain't Big Enough", Paris, 2011

Regressar a Brooklyn a pedido da mãe doente, em 1994, quase morrer por alergia à penicilina com que tratava uma infecção, ver o irmão roubado e assassinado por um dos sobrinhos, enfim, foram acontecimentos que afastariam qualquer um. Dessa vez, porém, o imitador de cantor famoso, animado pela memória das palavras do irmão, que sempre o incentivara a seguir o seu sonho de uma carreira musical, meteu mãos à obra. Do primeiro esforço sairia, entre outras, veio-se a saber depois, a canção Heartaches and Pain (que viria a ser parte de No Time for Dreaming), uma vívida e comovente narrativa da morte do irmão. Ainda levou o seu tempo entre trabalhos menores e espectáculos como Black Velvet, mas a oportunidade chegou, finalmente, quando se decidiu a abordar Gabe Roth e este (surpreendentemente, e contra as suas próprias expectativas, como conta no documentário de Poull Brien) não lhe deu com os pés.

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Changes, 2016

A partir daqui é mais ou menos história. A história da gravação de um par de singles; a história da sua colaboração com o produtor – que se tornaria líder do seu grupo, The Menahan Street Band, mais tarde His Extraordinaires – Tom Brenneck, com quem construiria um poderoso corpo de canções espalhadas por No Time for Dreaming e, nos anos seguintes, por Victim of Love (2013) e Changes (2016); a história de compararem a sua música e a sua interpretação à rudeza de Sam Cooke e, claro, à energia sexualizada de James Brown, quando ele já era Charles Bradley – o artista que não precisava de comparações para nada.

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"Charles Bradley & His Extraordinaires", Bruxelas, 2016

 

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