Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Sete concertos para solistas invulgares

Sete concertos para solistas invulgares

Cansado de violinos, pianos e violoncelos? Nestes concertos, o solista é um instrumento que costuma ser um mero figurante.

Didgeridoo
©DR Didgeridoo
Por José Carlos Fernandes |
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Lisboa recebeu recentemente um dos grandes virtuosos do bayan, Geir Draugsvoll, interpretando um concerto para o seu instrumento que a russa Sofia Gubaidulina compôs para ele. Nem o bayan nem o seu primo acordeão costumam merecer a atenção dos compositores “eruditos”, mas a verdade é que, como mostra a lista abaixo, não há instrumentos menores, apenas compositores e intérpretes menores. Para quem está cansado de ver violinos, pianos e violoncelos a monopolizar as luzes da ribalta, eis uma lista de concertos em que o solista é um instrumento que costuma ser um mero figurante

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Sete concertos para solistas invulgares

Gaspard de Gueidan
©Hyacinthe Rigaud

Gaita-de-foles

Obra: Concerto op.4 n.º 3, de Michel Corrette
Ano: 1728

Dando razão ao provérbio “filho de peixe sabe nadar”, Michel Corrette (1707-1795), filho do organista Gaspard Corrette, aos 20 anos publicou a sua primeira colecção de sonatas e um ano depois, seguindo as pisadas de Vivaldi, foi um dos primeiros compositores franceses a publicar uma colecção de concertos. Na verdade, em 1728 publicou duas colecções – op.3 e op. 4 – destinadas a violino, flauta, oboé ou qualquer outro instrumento agudo, pois quer o compositor quer o editor pretendiam chegar ao mais vasto público possível. Embora, como o pai, tenha desempenhado funções de organista, Michel Corrette também produziu apreciável número de obras orquestrais e de câmara e tratados pedagógicos, alguns deles visando instrumentos usualmente negligenciados (no meio “erudito” de então), como a gaita-de-foles (musette), a sanfona (vielle à roue), a guitarra e a harpa.

[Gavotte do op.4 n.º 3, por J.C. Maillard (gaita-de-foles) e o Ensemble Stradivaria, em instrumentos de época, com direcção de Daniel Cuiller (Adès/Accord Baroque)]

Trompa alpina
©DR

Trompa alpina

Obra: Sinfonia Pastorella, de Leopold Mozart
Ano: c.1755

Este também é um caso de transmissão hereditária de talento musical, com a diferença de o filho se ter tornado muito mais famoso do que o pai. Leopold Mozart, pai de Wolfgang Amadeus, foi um notável violinista e autor do mais prestigiado tratado sobre o instrumento do seu tempo, Tratado sobre os fundamentos da aprendizagem do violino (Versuch einer gründlichen Violinschule, de 1756), mas isso não o impediu de dar relevo solista à trompa alpina, na Sinfonia Pastorella, uma obra concebida para ser executada na quadra natalícia. Era frequente que as obras de temática natalícia incorporassem instrumentos “rústicos”, evocando os pastores que tinham adorado o Menino Jesus. Ora, no sopé dos Alpes – Leopold Mozart trabalhava para a corte de Salzburg – o instrumento típico dos pastores era a trompa alpina (Alphorn ou corno pastoricio) e Mozart pai não foi o único a dar-lhe relevo, pois sobreviveram até aos nossos dias uma centena de pastorellas em que ele é solista.

[III andamento (Presto) da Sinfonia Pastorella, de Leopold Mozart, por Matthias Kofmehle e o Ensemble de Câmara Arco Musicale, do álbum Virtuoses Alphorn (CMD Records)]

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Ondes Martenot
©DR

Ondes Martenot

Obra: Concerto para Ondes Martenot, de André Jolivet
Ano: 1947

O Ondes Martenot foi inventado em 1928 por Maurice Martenot e é uma espécie de avô dos modernos sintetizadores. Apesar de hoje poucos compositores lhe darem atenção – dado ter sido superado por instrumentos electrónicos bem mais sofisticados e versáteis – gozou de uma modesta voga entre os compositores franceses (e francófonos) de meados do século XX, como Charles Koechlin, Arthur Honneger, Darius Milhaud, Edgard Varèse, Olivier Messiaen e André Jolivet. Jolivet começou por, em 1943, compor uma Suite Delphique para cordas, harpa, Ondes Martenot e percussão e, quatro anos depois, compôs o primeiro concerto da história para Ondes Martenot, que foi também o primeiro de uma longa e variada série de obras concertantes deste compositor.

[I andamento (Allegro moderato), do Concerto para Ondes Martenot, de Jolivet, por Jeanne Loriod (Ondes Martenot) e Orquestra Filarmónica da ORTF, com direcção de André Jolivet (Erato)]

Tuba Baixo
©DR

Tuba baixo

Obra: Concerto para tuba baixo, de Ralph Vaughan Williams
Ano: 1954

Quando estreou o seu Concerto para Tuba, o britânico Ralph Vaughan Williams (1872-1958) tinha 82 anos, o que levou que alguns maledicentes vissem no facto de um compositor de primeiro plano compor um concerto para um instrumento tão humilde e desgracioso um sinal de senilidade. A obra, tanto mais invulgar por Vaughan Williams não ter dado grande atenção ao género concerto, foi estreada por Philip Catelinet, com a Orquestra Sinfónica de Londres, sob a direcção de John Barbiroli, equipa que foi também a que realizou a primeira gravação, nesse mesmo ano. A verdade é que o concerto, longe de ser uma extravagância de um octogenário meio tonto, é inventivo e pleno de vitalidade e humor.

[Concerto para tuba baixo, por JáTkik Clark e Corvallis-OSU Symphony, ao vivo em 2014]

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Sheng
©DR

Sheng

Obra: Shu, Concerto para sheng, de Unsuk Chin
Ano: 2009

O sheng é um instrumento de sopro chinês, com mais de 3000 anos, que é formado por vários tubos (até 32) de diferentes comprimentos e soa como um híbrido de harmónica e acordeão. O instrumento tem tido uso corrente na música tradicional chinesa e, nas últimas décadas, sofreu vários desenvolvimentos, que levaram ao aparecimento de sheng de 36 tubos e com capacidades acrescidas (ainda que continue a ser um instrumento “difícil”, uma vez que o executante tem de alternar muito rapidamente entre aspiração e expiração). Parte do desenvolvimento e do ganho de “respeitabilidade” do sheng resultou de uma nova geração de solistas, como o chinês Wu Wei. A compositora sul-coreana Unsuk Chin (n.1961) conhecia o instrumento – ou melhor, a sua variante coreana, o saenghwang – mas nunca lhe deu atenção até ouvir Wu Wei. Foi para ele que Unsuk Chin compôs o concerto a que deu o título de Shu e que estreou em 2009 em Tóquio, com Wu Wei como solista e a Orquestra Sinfónica de Tóquio. Seria também Wu Wei a realizar a primeira gravação, lançada pela Deutsche Grammophon em 2014, com a Orquestra Filarmónica de Seul e o maestro Myung Whu-Chung.

[Excerto de Shu, por Wu Wei (sheng) e a Orquestra Filarmónica de Seul, com direcção de Roland Kluttig , ao vivo em Seul, 2010]
Didgeridoo
©DR

Didgeridoo

Obra: Concerto para didgeridoo, de Sean O’Boyle
Ano: 2009

Sendo o didgeridoo um instrumento tradicional australiano, era quase inevitável que fossem compositores australianos, como Peter Sculthorpe, Ross Edwards e Sean O’Boyle, a trazê-lo do outback (a expressão com que os australianos designam o vasto interior semi-desértico da sua ilha-continente) para as salas de concerto do mundo “erudito”. Sculthorpe foi dos primeiros a atribuir-lhe partes solistas, em Earth Cry (1986) e Requiem (2004). EM 2009 foi a vez de Sean O’Boyle (n. 1963) compor um Concerto para didgeridoo de 2009. Sculthorpe, Edwards e O’Boyle foram motivados a compor para o instrumento ao descobrirem as extraordinárias capacidades de William Barton, um tocador de didgeridoo de ascendência aborígene. Tem sido Barton a estrear estas obras em sala e em disco.

[I andamento (Earth) do concerto de O’Boyle, por William Barton (didgeridoo) e a Orquestra Sinfónica de Queensland, com direcção de Sean O’Boyle (2007, ABC Classics)]
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Bayan
©DR

Bayan

Obra: Fachwerk, de Sofia Gubaidulina
Ano: 2017

O bayan, uma variante russa do acordeão cromático comum no Ocidente, foi baptizado com o nome de um bardo russo do século XI, mas é uma criação do século XX. Embora tenha começado por estar associado à música popular, tem vindo progressivamente a entrar nas salas de concerto, transição em que desempenhou papel decisivo o compositor russo Vladislav Zolotaryov (1942-1975), ele mesmo um notável executante do instrumento (poderá dizer-se “bayanista”?).

A compositora russa (tártara, para ser mais preciso) Sofia Gubaidulina (n. 1931), que tem vindo a mesclar na sua música instrumentos da tradição popular e electrónica, é das que tem dado mais relevo ao bayan, em obras como De Profundis, Silenzio, Et Expecto, Under the Sign of Scorpio, In Croce e um triplo concerto para violino, violoncelo e bayan (2017). Fachwek (2009) é, em termos práticos, um concerto para bayan e orquestra e foi dedicado ao “bayanista” Geir Draugsvoll, que estreou a obra.

[Fachwerk, por Geir Draugsvoll e a Orquestra de Câmara Norueguesa, com direcção de Hans Kristian Kjos Sorensen, ao vivo, 2013]

Mais música clássica

András Schiff
©Birgitta Kowsky
Música, Clássica e ópera

Dez concertos para piano que precisa de ouvir

Desde Mozart até aos nossos dias, o concerto para piano é um dos géneros mais apreciados, ao equilibrar a imponência e colorido orquestral com o brilho e virtuosismo do solista, e muitos foram os compositores que nele investiram a sua melhor inspiração.

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