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Desafio Time In: curso de música clássica em micro-doses diárias

O isolamento implica a subtracção de muitos hábitos e actividades, mas há algo que se multiplica em confinamento: o tempo. Aproveite-o para aprender. Um dia ainda ganha uma partida de Trivial Pursuit à custa destas histórias da música.

Por José Carlos Fernandes
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Há quem veja a música clássica como um bicho-de-sete-cabeças, ou uma “ganda seca” ou uma área acessível apenas a quem passe por uma prova de iniciação, que inclui compor uma fuga a quatro vozes e saber de cor o nome de todas as valquírias de O Anel do Nibelungo, de Richard Wagner. Pois bem: nenhum destes mitos tem fundamento e, para o provarmos, a Time Out fornece-lhe respostas, ao ritmo de uma por dia, que elucidam tudo o que queria saber sobre o assunto mas tinha receio de perguntar.

Veja aqui todos os Desafios Time In

Desafio Time In: curso de música clássica em micro-doses diárias

1. Quem foi o primeiro maestro?

O maestro como o conhecemos hoje só surgiu no século XIX. Até aí o maestro, que era muitas vezes também o compositor, dirigia as orquestras, geralmente de dimensão modesta, a partir do teclado (cravo ou órgão) ou do violino. Quando as orquestras cresceram é que surgiu a necessidade de haver alguém inteiramente devotado à direcção.

[O violinista Fabio Biondi dirige, com os olhos, inclinações do corpo, acenos da cabeça e ocasionais gestos com as mãos, a mezzo-soprano Vivica Genaux e a Europa Galante, na ária “Qual Guerrier in Campo Armato”, da ópera Bajazet, de Vivaldi]

Valery Gergiev
Valery Gergiev
©DR

2. Quem inventou a batuta?

A batuta terá surgido ainda durante o século XVIII e não tem patente registada. Na primeira metade do século XIX ainda era comum ver um maestro dirigindo a orquestra com um arco de violino ou uma partitura ou um jornal enrolado – não tem pois que ficar envergonhado por dirigir orquestras imaginárias agitando uma Time Out.

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3. É preciso ser virgem para tocar virginal?

Não, até Mick Jagger pode tocar virginal, desde que receba umas lições. O virginal é um pequeno instrumento de tecla aparentado ao cravo, com 32 cordas dispostas paralelamente ao teclado e som delicado. Há quem sugira que o seu nome derivou de ter conhecido o período de maior popularidade durante o reinado (1558-1603) de Isabel I, a Rainha Virgem, mas o instrumento existia pelo menos desde 1460.

[Aymeric Duprè la Tour toca “The Bells”, de William Byrd, do Fitzwilliam Virginal Book, uma compilação de peças para virginal composta nas Ilhas Britânicas entre 1562 e 1612]

4. Quem é o pai do psicadelismo?

Salvo reclamação de algum outro pioneiro, foi o compositor russo Aleksandr Scriabin (1872-1915), cujo poema sinfónico Prometeu: O Poema do Fogo inclui uma parte destinada a órgão de cores. Isto em 1910, bem antes de Timothy Leary, do Summer of Love e dos Pink Floyd. A obra estreou em Moscovo, a 2 de Março de 1910, mas só na estreia americana, a 21 de Março, no Carnegie Hall, em Nova Iorque, a música foi acompanhada por um órgão de cores, ou Chromola, concebido por Preston S. Millar.

[Quase um século após a estreia de Prometeu: O Poema do Fogo, a obra voltou a ser apresentada com a sua componente luminosa em 2010, numa interpretação da Orquestra Sinfónica de Yale, com direcção de Toshiyuki Shimada. Mini-documentário, seguido da obra, a partir dos 9’50]

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5. O que é o ouvido absoluto?

É a capacidade de identificar uma nota isolada, fora do contexto de outras notas. A capacidade não se limita a notas produzidas por instrumentos ou pela voz humana – pode incluir ruídos produzidos por animais ou objectos. Diz-se que aos dois anos de idade Wolfgang Amadeus Mozart, ao ouvir um porco grunhir, terá declarado que se tratava de um sol sustenido.

[Uma breve demonstração do ouvido absoluto de Dylan Beato]

6. Quantos filhos teve Johann Sebastian Bach?

20, dos quais sete da primeira mulher, Maria Barbara, e 13 da segunda, Anna Magdalena. Quatro deles foram músicos reputados: Wilhelm Friedemann (1710-84), Carl Philipp Emmanuel (1714-88), Johann Christoph Friedrich (1732-95) e Johann Christian (1735-82). É certo que na época não existia televisão, mas o catálogo das obras sobreviventes do Pai Bach vai até ao número 1080.

[Gustav Leonhardt toca um prelúdio para cravo de Johann Christoph Friedrich, o mais obscuro os filhos de Bach que seguiram carreira musical]

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7. A viola da gamba serve para abrilhantar concertos nas marisqueiras?

As violas da gamba são uma família de instrumentos de cordas friccionadas semelhantes à família dos violinos, e cujos membros vão do soprano ao contrabaixo. Distinguem-se da família dos violinos pela sua sonoridade doce e nasalada, por terem seis cordas (ou sete) em vez de quatro, por possuírem trastos e por serem tocadas (mesmo a pequena viola soprano) com o corpo do instrumento preso entre as pernas (gamba, em italiano). A viola da gamba teve o seu apogeu entre 1550 e 1750.

[Jordi Savall toca “Harke, Harke”, uma peça para viola da gamba solo do gambista e compositor britânico Tobias Hume (c.1570-1645)]

8. Quem inventou o piano?

O italiano Bartolomeo Cristofori (1655-1731), por volta de 1700. Os exemplares mais antigos que nos chegaram datam de c.1720. Os primeiros protótipos devem ter sido pouco convincentes, pois nenhum compositor barroco relevante lhes prestou atenção. As primeiras peças para o novo instrumento foram publicadas em 1732 pelo obscuro Lodovico Giustini, com o título “12 Sonate da cimbalo da piano e forte detto volgarmente di marteletti”. Mas se os primeiros pianos pouco se diferenciavam em termos sonoros do cravo, foram sendo aperfeiçoados por diferentes fabricantes e em 1768 teve lugar em Dublin o primeiro recital para piano solo – foi o princípio do fim do cravo.

[“Giga” da Sonata para pianoforte n.º 6 de Lodovico Giustini, tocada por Dongsok Shin, num piano construído por Bartolomeo Cristofori]

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9. Quantos músicos tem uma orquestra sinfónica?

Cerca de uma centena, assim distribuídos: Cordas: 32 violinos, 12 violas, 12 violoncelos, 8 contrabaixos. Madeiras: flauta, oboé, clarinete, fagote, 4 de cada. Metais: 8 trompas, 4 trompetes, 3 trombones, tuba. Adicione-se percussão e harpa quando necessário. Com estes efectivos podem tocar-se praticamente todas as peças do repertório sinfónico. Assegure-se de que dispõe de uma sala espaçosa se quiser uma orquestra sinfónica a abrilhantar o seu aniversário.

[Final da Sinfonia n.º 8 de Mahler. A Sinfonia n.º 8 (conhecida como “Sinfonia dos Mil”) requer efectivos orquestrais e corais extraordinários e algumas interpretações – como é o caso desta, com direcção de Simon Rattle – reforçam generosamente os efectivos mínimos determinados pelo compositor]

10. Quem é o campeão de longevidade entre os compositores clássicos?

O norte-americano Elliott Carter, que nasceu em 1908, dois anos antes da estreia de O Pássaro de Fogo, de Stravinsky, compôs a sua primeira obra – a canção para voz e piano “My Love Is in a Light Attire”) em 1928 e no ano da sua morte, em 2012, com 103 anos, terminou “Instances”, “Dialogues” e “Epigrams”. O organista alemão Johann Adam Reincken, falecido em 1722 com 99 anos, foi durante muito tempo considerado como um campeão de longevidade, mas descobriu-se que a data de nascimento de 1623 indicada por Johann Mattheson era incorrecta e que 1643 era mais provável.

[Elliott Carter aos 103 anos: o compositor discute a interpretação do seu Concerto para violoncelo (estreado em 2000 por Yo-Yo Ma) com a violoncelista Alisa Weilerstein, pouco antes da gravação da obra com a Staatskaeppelle Berlin, dirigida por Daniel Barenboim (Decca)]

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11. É verdade que Mozart foi envenenado por Salieri?

É uma lenda que o filme Amadeus, de Milos Forman, explorou magistralmente, mas que tem escassa fundamentação. Antonio Salieri (1750-1825) era o compositor mais popular em Viena no tempo de Mozart e é natural que existisse alguma rivalidade entre ambos, mas não mais do que isso. Foi Aleksandr Pushkin quem impulsionou a lenda, com a sua peça Mozart e Salieri (1825), que foi transformada numa ópera por Rimsky-Korsakov (1898) e inspirou Peter Schafer a escrever a peça Amadeus (1979), que por sua vez foi adaptada por Forman.

[Cena de Amadeus – inteiramente fantasiosa – em que Mozart toma uma insulsa e soporífera marcha composta por Salieri e a converte numa peça viva e irónica (que prefigura a ária “Non Più Andrai Farfallone Amoroso”, de Le Nozze di Figaro), humilhando Salieri perante o imperador e a corte]

12. Porque têm os Stradivarius tanta fama?

Os violinos saídos do atelier de Antonio Stradivari (1644-1737) em Cremona são afamados pela sua sonoridade. O fabrico dos violinos envolvia uma rigorosa selecção de madeiras, tratamentos químicos sucessivos, corte e moldagem de alta precisão e a aplicação de sucessivas camadas de verniz – e é claro que as fórmulas dos reagentes, colas e vernizes eram segredos bem guardados. Embora os violinos estejam na origem da fama do nome Stradivarius, este produziu também violas e violoncelos e até harpas, guitarras e bandolins.

[Fabio Biondi toca uma Fantasia para violino solo de Telemann no violino Stradivarius “Toscano”, construído em 1690]

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13. Nos concertos de música clássica só podem tocar-se obras de compositores mortos?

Até ao fim do barroco o que era usual era tocar peças de compositores vivos. Um estudo da evolução dos repertórios no tempo revela que em Leipzig em 1782 a percentagem de “defuntos” nos concertos era de 11%, em 1830 a média europeia era de 50% (mas atingia 74% em Viena) e nas décadas de 1860-70 era de 94% em Paris. Hoje a percentagem de “defuntos” continua elevada. Mas se aprecia a obra de um compositor vivo escusa de assassiná-lo – não é por isso que será programado com maior frequência.

[“De Profundis”, do estónio Arvo Pärt, pelo Coro de Câmara Filarmónico Estónio e Christopher Bowers-Broadbent (órgão), com direcção de Tonu Kaljuste. Pärt, o compositor vivo mais tocado em 2017, ocupa um modestíssimo 49.º lugar no ranking de compositores mais tocados]

14. O que são “instrumentos da época”?

No sentido restrito, o termo designa instrumentos contemporâneos das obras que são tocadas ou cópias modernas desses instrumentos. A expressão designa, em sentido lato, uma abordagem às obras que visa reconstituir a sonoridade aproximada que o compositor terá tido em mente e envolve não só o uso de instrumentos adequados como o estudo aturado das partituras originais e a recuperação das técnicas instrumentais e vocais e das práticas de ornamentação usadas na época – o que pode ser mais rigorosamente designado como “interpretação historicamente informada” (ou HIP, do inglês “Historically informed performance”).

[Garry Clarke explica a diferença entre um violino barroco e um violino moderno]

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15. Porque é que nas orquestras existem dois tamanhos de violinos?

Os violinos mais encorpados não são violinos, são violas (também chamadas violetas). Têm uma sonoridade mais grave que o violino e são o segundo degrau numa escada que tem abaixo os violoncelos e os contrabaixos. O som da viola não é muito penetrante nem potente, pelo que raramente lhe é atribuído um papel solista – mas há excepções em Berlioz, Hindemith e Bartók.

[Não se menospreze a viola: IV andamento da Sonata para viola solo op.25 n.º 1 de Hindemith, por Antoine Tamestit, ao vivo na Alte Oper de Frankfurt, 2012]

16. As mulheres não podem dirigir orquestras?

Não, as mulheres devem cingir-se à harpa, ao piano e ao canto. E à cozinha. Agora a sério: o cargo de maestro tem sido uma coutada exclusivamente masculina, mas nos últimos anos têm surgido excelentes maestrinas (é este o feminino de maestro) que não devem nada aos homens. Entre elas conta-se a portuguesa Joana Carneiro, que após dirigir a Berkeley Symphony, é a maestrina titular da Orquestra Sinfónica Portuguesa; a americana Marin Alsop, que está à frente da Sinfónica de Baltimore e da Sinfónica do Estado de São Paulo; a finlandesa Susanna Mälkki, que já foi maestrina convidada da Orquestra Gulbenkian e dirige a Filarmónica de Helsínquia; ou a lituana Mirga Grazinyte-Tyla, que dirige a City of Birmingham Symphony Orchestra.

[Mirga Grazinyte-Tyla dirige a City of Birmingham Symphony Orchestra na abertura Leonore n.º 3, de Beethoven, nos BBC Proms, no Royal Albert Hall, 2017]

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17. Quantos compositores com o nome Bach há afinal?

Algumas dezenas e com nomes idênticos (quase sempre Johann seguido de Bernhard, Christoph, Friedrich, Jacob ou Michael). Johann Sebastian Bach, o mais famoso, fazia parte de uma longa linhagem de músicos, embora nenhum dos seus antecessores tivesse logrado mais do que lugares modestos como organista ou Kantor (mestre de capela) em cidades de província do sudeste da Alemanha. Dos seis filhos de J.S. Bach que chegaram a adultos, quatro foram músicos conceituados. A frondosa árvore Bach extinguiu-se com Wilhelm Friedrich Ernst (1759-1845), neto de Johann Sebastian.

[Toccata para órgão de Wilhelm Friedrich Ernst Bach, por Roberto Stirone, na igreja de San Domenico, Casale Monferrato, Itália, 2015]

18. Um cravo é um piano light?

O cravo difere substancialmente do piano, sobretudo por as suas cordas serem beliscadas por um plectro e não percutidas por um martelo – o que explica o seu fraco volume sonoro e a ausência de dinâmica. A primeira referência a um cravo (clavicymbalum, ou seja um címbalo accionado por tecla) data de 1397 em Parma. O cravo foi sofisticando-se e ganhou dois teclados e até quatro ou cinco conjuntos de cordas, que permitiam sonoridades variadas. Reinou durante o barroco e foi deposto pelo piano a partir de 1770-80.

[Cópia de 2016, por Matthias Griewisch, de um cravo Ruckers de dois teclados, de 1638. Demonstrações dos seus vários registos com excertos de peças do compositor holandês Jan Pieterszoon Sweelinck (1562-1621), por Johannes Keller]
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19. Porque razão não se deve aplaudir entre os andamentos de uma peça clássica?

Não só não há nenhuma razão para tal como essa “regra” só se impôs no início do século XX, provavelmente por influência dos hábitos de escuta de música gravada. Dantes aplaudia-se entre andamentos e faziam-se até coisas menos próprias durante os andamentos, como conversar em voz alta, sacar do farnel, acenar aos conhecidos e namorar na penumbra (os camarotes dispunham de cortinas que podiam ser corridas se se desejasse privacidade). A burguesia foi progressivamente dominando o público dos concertos ao longo do século XIX e instaurou regras de comportamento como sinal de pertença a uma elite.

[Os aplausos entre andamentos são considerados uma perturbação suficientemente grave da etiqueta dos concertos para que haja vídeos que explicam aos intérpretes como advertir o público de que a peça ainda não terminou através da linguagem corporal e como reagir a aplausos intempestivos]

20. Qual a diferença entre uma ópera e uma opereta?

A opereta é geralmente de carácter cómico e despretensioso e desenvolveu-se em França a partir de meados do século XIX. Os seus expoentes foram Jacques Offenbach, Charles Lecoq, Hervé e muitos outros nomes hoje misericordiosamente esquecidos. Depois a mania alastrou a Viena, com Johann Strauss, Franz von Suppé, Franz Lehár, e a Inglaterra, com Arthur Sullivan. Hoje temos Lady Gaga, Ariana Grande e Bruno Mars e já não há necessidade de operetas.

[“All I Want Is More Champagne” da opereta Die Fledermaus (1874), de Johann Strauss (em versão inglesa), num ensaio geral da temporada 2013-14 da Metropolitan Opera de Nova Iorque, com direcção de Adam Fischer]
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21. O Grupo dos Cinco tem alguma coisa a ver com o Bando dos Quatro?

Não. O Grupo dos Cinco era russo e não chinês e não mandou prender nem fuzilar ninguém – foi um grupo informal de compositores que advogavam uma música com características nacionais, sem subserviência para com as correntes da Europa Ocidental e inspirada na tradição folclórica russa. Era formado por Mily Balakirev (1837-1910), Cesar Cui (1835-1918), Modest Mussorgski (1839-1881), Nikolay Rimsky-Korsakov (1844-1908) e Aleksandr Borodin (1833-87) e tendia a embirrar com Tchaikovsky, que era visto como demasiado “europeizado”.

[Islamey (1869), uma peça de sabor oriental, foi inspirada a Balakirev por danças populares durante uma visita à região do Cáucaso. Interpretação de Boris Berezovsky]

22. O que é um castrato?

Nos séculos XVII e XVIII os rapazinhos com vozes promissoras eram submetidas, no limiar da puberdade, a uma operação que os privava de uma parte pequena mas decisiva da sua anatomia, de forma a impedir a voz de mudar. Da combinação das cordas vocais de criança com uma caixa torácica de adulto, resultava uma voz muito peculiar, que fazia as delícias dos melómanos da época. Os castrati (plural de castrato) dominavam os palcos de ópera, mas a Capela Sistina também se orgulhava dos seus eunucos – apesar de a Igreja reprovar a prática oficialmente.

[“Lascia ch’io Pianga”, da ópera Rinaldo, de Handel, no filme Farinelli, de Gérard Corbiau, um biopic sobre Carlo Broschi (1705-1782), que, sob o nome de Farinelli, se tornou no mais famoso castrato de todos os tempos. Uma vez que no nosso tempo não há castrati, a voz que se ouve no filme resultou da síntese das vozes da soprano Ewa Malas-Godlewska e do contratenor Derek Lee Ragin]
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23. Porque é que a seguir ao nome das obras de Mozart aparece um K?

O nobre e musicógrafo austríaco Ludwig Alois Fiedrich von Köchel (1800-77) interessou-se particularmente pela obra de Wolfgang Amadeus Mozart e foi ele que elaborou um catálogo cronológico das suas obras, que hoje se sabe ter imprecisões, mas que continua a ser a referência. O K é de Köchel – por vezes utiliza-se a designação KV (Köchel-Verzeichnis, i.e., Catálogo Köchel).

[As peças K.1a, K.1b e K.1c, as primeiras compostas por Mozart, quando tinha 4-5 anos. Interpretação do cravista Guy Penson]

24. O Cravo Bem Temperado é um livro de receitas escrito por Johann Sebastian Bach?

Mestre Bach apreciava a boa mesa e não desdenharia o tempero com cravinho e outras especiarias, mas O Cravo Bem Temperado (Das Wohltemperiert Clavier) não tem a ver com os prazeres do palato mas sim com os do ouvido. São dois livros, concluídos em 1722 e 1744, cada um deles com 24 prelúdios e fugas para cravo, explorando todos os tons e meios-tons da escala. O título vem do “método de temperamento [afinação] igual” proposto pelo teórico Andreas Werckmeister para os instrumentos de tecla.

[Prelúdio & Fuga n.º 1 BWV 846 de O Cravo Bem Temperado, por Kenneth Gilbert (Archiv)]
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25. O que é a música concreta?

Não tem que ver necessariamente com Concertos para quinteto de betoneiras ou Sinfonias para fornos de cimenteira. Designa a criação de música a partir de sons “concretos” produzidos pela natureza (vento, ondas, animais) ou pelo meio humano (uma porta a fechar-se, o roncar de um motor), registados em banda magnética e manipulados. Surgiu em finais da década de 1940, em Paris, e os seus principais cultores foram Pierre Henry e Pierre Schaeffer. Há quem advogue que Henry e Schaeffer deveriam ter sido atirados ao Sena com os pés metidos num balde de cimento.

[“Symphonie pour un Homme Seul” (1950), de Pierre Henry e Pierre Schaeffer, é uma das obras pioneiras da música concreta]

26. Um andamento com a indicação Allegro é sempre alegre?

Allegro é, tal como Largo, Adagio ou Presto (tudo termos de origem italiana), uma indicação que diz respeito apenas ao tempo (corresponde aproximadamente a 120-156 batidas por minuto) do andamento e nada tem a ver com o seu carácter. O que quer dizer que um Allegro pode ser descontraído ou sinistro, elegante ou demolidor, irónico ou seriíssimo.

[O II andamento da Sinfonia n.º 10 de Shostakovich é um exemplo de um Allegro nada alegre: é violento, angustiante e tenebroso e, segundo o compositor escreveria anos mais tarde, é um retrato musical de Stalin. Interpretação pela Royal Liverpool Philharmonic Orchestra, com direcção de Vasily Petrenko]
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27. A ópera parece ter sempre assuntos afastados do mundo actual. Tem mesmo de ser assim?

Não e no século XX a ópera virou-se decididamente para a actualidade. O compositor norte-americano John Adams tem sido um dos campeões dessa tendência, com óperas sobre a visita de Nixon a Mao Tse-Tung (Nixon in China, de 1987), o sequestro do paquete Achille Lauro por terroristas palestinianos (The Death of Klinghoffer, de 1991), ou os cientistas que conceberam e construíram a primeira bomba atómica (Doctor Atomic, de 2005). É possível que venham a surgir óperas sobre a queda do Muro de Berlim, o Brexit, Silvio Berlusconi ou Vladimir Putin e é certo que, mais tarde ou mais cedo, aparecerá uma sobre Donald Trump – se o mundo sobreviver à sua presidência.

[“I Am the Wife of Mao-Tse Tung”, de Nixon em China, por Kathleen Kim e a Orquestra da Metropolitan Opera, com direcção de John Adams e encenação de Peter Sellars, ao vivo na Metropolitan Opera de Nova Iorque, 2011]

28. O que vem a ser um piano preparado?

É um piano cuja sonoridade foi modificada pela introdução de objectos (rolhas, folhas de papel, elásticos, borrachas, talheres) entre as cordas. Consta que a ideia partiu de John Cage e que a sua Bacchanale (1938) terá sido a primeira peça concebida para este instrumento. Geralmente as partituras especificam minuciosamente os objectos a inserir e a sua disposição. Mas mesmo após 80 anos de piano preparado, o público nem sempre está preparado para o ouvir.

[“Bacchanale”, por Margaret Leng Tan]
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29. O Grupo dos Seis foi o precursor do G7, G8 e G20?

Não, o Grupo dos Seis teve escassa influência nos destinos do Mundo. A designação, cunhada pelo crítico Henri Collet em 1920, agrega compositores de inclinações estéticas diversas e valor musical díspar, unidos pela amizade: Georges Auric (1899-1983), Louis Durey (1888-1979), Arthur Honegger (1892-1955), Darius Milhaud (1892-1974), Francis Poulenc (1899-1963) e Germaine Tailleferre (1892-1983). O grupo tinha por padrinho Erik Satie e por ideólogo e manager Jean Cocteau.

[“Mélancolie” (1940), de Poulenc, por Gabriel Tachino]

30. O que é a tessitura?

É o intervalo de alturas de som em que uma voz ou um instrumento soam bem. A tessitura de Bob Dylan é, portanto, um intervalo nulo. Já a mezzo-soprano Cecilia Bartoli ou a “princesa” peruana Yma Sumac têm tessituras invulgarmente largas (a voz de Sumac abrangia quatro oitavas e meia, quando a maioria dos cantores clássicos têm três). Há quem distinga “tessitura” – que delimita uma zona óptima – de “extensão” – intervalo absoluto das notas extremas que podem ser emitidas pela voz ou instrumento. Dylan também não vai longe em termos de extensão.

[“Chuncho”, por Yma Sumac]

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