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Dez canções indie pop ao vivo em estúdio: vol. 2

Na atmosfera controlada do live in studio, as canções ganham novas matizes. É o melhor de dois mundos

The National
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Por José Carlos Fernandes |
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Por vezes os discos de estúdio soam demasiado polidos e assépticos – está tudo perfeito, mas, durante o longo processo de gravação e mistura, o feeling e a excitação ficaram de fora – e, por outro lado, os concertos ao vivo têm noites más, porque o vocalista não consegue ouvir-se e desafina, ou a acústica da sala é bera, ou o volume está demasiado alto, ou os volumes dos instrumentos estão desequilibrados, ou a escala do concerto torna a experiência impessoal. As actuações “ao vivo em estúdio” (com ou sem público) conseguem, por vezes, reunir o melhor dos dois mundos: a espontaneidade, vibração e urgência do live e o rigor, detalhe, subtileza e intimismo das gravações de estúdio. Não é por acaso que cada vez mais músicos exploram este formato, quer num verdadeiro estúdio de gravação quer num local que proporcione condições similares.

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Dez canções indie pop ao vivo em estúdio: vol. 2

“Yellow”, dos Coldplay

Local e data: algures na Holanda, 2000

Aos olhos das tribos indie, os Coldplay desempenharam no século XXI o papel que coubera aos U2 na década de 1990: a banda indie que se tornou alvo de desprezo (ou até de ódio) por ter atraiçoado os seus princípios, vendendo-se à indústria musical, passando a actuar em estádios com encenações aparatosas e afastando-se dos seus fãs. Tocar em estádios não é, por si só, um pecado capital, os problema começam quando se começa a criar música para estádios – pomposa, grandiloquente, empolada e calibrada para o mínimo denominador comum – e foi para aí que U2 e Coldplay começaram a deslizar a partir de certo ponto das suas carreiras.

Esta sessão de estúdio no ano 2000 teve lugar muito antes da “traição”: a banda existia há apenas quatro anos (há apenas dois como Coldplay) e acabara de editar o seu primeiro álbum, Parachutes, onde se incluía este “Yellow” (que lhes valeria uma nomeação para um Grammy e seria o seu primeiro grande êxito) e Chris Martin ainda tinha ar de adolescente. Que os “pecados” posteriores não turvem a visão do passado: Parachutes é um excelente álbum (tal como o seguinte, A Rush of Blood to the Head), “Yellow” é uma grande canção e esta versão é portentosa.

“Think”, dos Sui Sui Duck

Local e data: desconhecido, c. 2017

De uma banda que vendeu 90 milhões de discos em todo o mundo para uns miúdos japoneses que nem os vizinhos da sua sala de ensaio saberão quem são. Os Sui Sui Duck são liderados pelo vocalista/guitarrista Yuta Shibuya e estrearam-se mesmo no fecho de 2016 com a edição simultânea de dois EPs Walk e Run. Em Julho de 2017 surgiu um mini-álbum, Think, com seis canções pop-funk oníricas e envolventes, a que os falsetes de Shibuya, os inventivos teclados de Ami Kato e a guitarra distorcida de Takumi Horiuchi dão um colorido peculiar.

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“Doing the Right Thing”, dos Daughter

Local e data: KEXP Studio, Seattle, 2016

Os Daughter são emblemáticos do caldeirão cosmopolita londrino – que tantos britânicos parecem ver como uma ameaça à identidade nacional – e juntam a britânica Elena Tonra (voz, guitarra) ao suíço Igor Haefeli (guitarra) e ao francês Remi Aguilella (bateria). Esta canção surgiu como single no final de 2015, promovendo o segundo álbum, Not To Disappear, lançado em Janeiro de 2016. Nesta sessão (como nas tournées mais recentes) o trio é reforçado por Lucy Parnell em guitarra e teclados.

“Don’t Swallow the Cap”, de The National

Local e data: The Current, Minneapolis, EUA, 2013

A canção faz parte de Trouble Will Find Me (2013), o sexto álbum da banda, que, embora sendo estimável, é prejudicado por alguma frieza e assepsia, que podem ser atribuídas à sobre-produção (uma maleita que por vezes ataca as bandas chegadas à meia-idade). De qualquer modo, “Don’t Swallow the Cap” é um dos melhores momentos do álbum e esta versão ao vivo em estúdio tem mais calor e espontaneidade do que a versão do disco.

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“Serpents”, de Sharon van Etten

Local e data: Jim and Kay Mabie Performance Studio, Chicago, c. 2012, para o programa Sound Opinions, da rádio WBEZ

“Serpents” foi o single do álbum Tramp (2012), o terceiro álbum de Sharon Van Etten, produzido por Aaron Dessner, dos The National, e que contou com músicos como Bruce Dessner (The National), Zach Condon (Beirut) e Julianna Barwick. Requintes instrumentais e de produção à parte, o combustível do disco são as feridas em carne viva deixadas por uma relação amorosa tóxica. Não é de estranhar que, como Van Etten canta no refrão, haja “Serpentes na minha mente/ Tentando esquecer os teus crimes/ Todas as pessoas mudam com o tempo/ Espero que ele mude desta vez”.

“So”, dos Built To Spill

Local e data: KEXP Studio, Seattle, 2015

Os Built To Spill – ou seja, o guitarrista/vocalista Doug Martsch e uma equipa rotativa de parceiros – vivem há um quarto de século na semi-penumbra: têm um círculo de fiéis e são reconhecidos por outras bandas – Ben Gibbard, dos Death Cab For Cutie, aponta-os como influência maior – mas não pelo público ou pelos media. Os Built To Spill citam os Dinosaur Jr. e Neil Young como referência para as suas canções de frágeis e melancólicas linhas vocais e imponentes massas de guitarra distorcida, uma filiação que é particularmente patente nesta “So”, que  faz parte do seu oitavo álbum, Untethered Moon (2015).

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“For 12”, dos Other Lives

Local e data: KEXP Studio, Seattle, 2011

Embora já tenham assegurado primeiras partes de concertos dos Radiohead, os Other Lives estão ainda longe de ter obtido o reconhecimento que merecem. “For 12” faz parte do seu segundo álbum, Tamer Animals (2011), que conta com sumptuosos arranjos de cordas, madeiras e metais – nesta sessão para a KEXP, um violino e um violoncelo bastam para conferir à canção uma atmosfera extra-terrena.

“Beginning to Fade”, dos Django Django

Local e data: RAK Studios, Londres, c. 2015

A canção faz parte de Born Under Saturn (2015, Rough Trade), o segundo álbum dos britânicos Django Django. A electrónica e os ritmos dançáveis costumam ter papel preponderante no som da banda, mas em “Beginning to Fade” a atmosfera é pastoril, onírica e psicadélica, remetendo para os XTC de Skylarking ou para os momentos mais calmos dos Pink Floyd do tempo de Syd Barrett.

Acaso o nome o intrigue, caro/a leitor/a, a banda esclarece que não é uma homenagem ou referência a Django Reinhardt, o guitarrista do jazz manouche. Talvez tenha antes a ver com os Talk Talk. Mas não com os Duran Duran.

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“South”, dos Hippo Campus

Local e data: The Current, Minneapolis, EUA, 2016

Os Hippo Campus têm nome de cavalo-marinho, mas nasceram longe do mar, em St. Paul, no Minnesota, bem no centro da América do Norte. “South” faz parte do seu segundo EP, South (2015), que está esgotado mas pode ser obtido, em conjunto com o primeiro, Bashful Creatures (2014), na reedição conjunta The Halocline EPs.

“Dadager Dandant”, dos Pelican Fanclub

Local e data: desconhecido, 2017; YouTube Music Sessions

A canção faz parte de Home Electronics (2017), o primeiro álbum desta banda japonesa formada em 2012 e que já antes editara três mini-álbuns: Analog (2015), Pelican Fanclub (2015) e OK Ballade (2016). Em disco e em concertos “convencionais” a banda pratica uma fusão electrizante de dream pop e shoegaze, mas nestas YouTube Music Sessions adoptam um perfil sereno e rendilhado, com o baixista a transitar para os teclados, o guitarrista a desligar a electricidade e os pedais de efeitos e o baterista a trocar a energia pela subtileza.

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