Dez canções para dias de chuva

Aproxima-se uma depressão cavada? O céu tolda-se com nuvens carregadas? Previna-se com guarda-chuva, impermeável, galochas e uma mão cheia de canções à prova de água.
Chuva
©DR
Por José Carlos Fernandes |
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Porque ficar em casa com a chuva lá fora a cair é uma das melhores coisas que pode fazer, pelo menos de vez em quando, damos-lhe a banda sonora perfeita. 

10 canções para dias de chuva

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“Ballet For a Rainy Day”, dos XTC

Quem diria que o punk irónico dos primeiros álbuns dos britânicos XTC acabaria por aproximar-se do opulento som dos Beatles por alturas de Abbey Road? É o que acontece neste “Ballet for a Rainy Day”, do seu nono álbum, o luxuriante e orquestral Skylarking (1986). A aguarela deste dia chuvoso é colorida e vívida: contra um fundo cinzento que desce lentamente, há um bailado de gabardinas laranja e limão a drapejar, maçãs e cerejas que a água faz brilhar como se estivessem envernizadas, penteados elaborados que se desfazem sob a carga de água, todo um mundo que a água arrasta para longe. Os Beatles têm poucas canções do quilate de “Ballet for a Rainy Day” e Skylarking contém mais jóias como esta.

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“Meet You in the Rain”, dos The Cavalcade

Os The Cavalcade formaram-se em Preston, Lancashire, em 2009, e tiveram vida breve – após um EP e um álbum entraram em hibernação e regressaram como The Castle Forever (não pode dizer-se que tenha havido progresso no que respeita ao nome da banda). Os The Cavalcade passaram bastante tempo a ouvir The Clientele e isso é bem audível nesta canção agridoce do EP de estreia Meet You in the Rain (2009), que começa com a esperança de um recomeço – “Que dizes se fugíssemos?/ Deixar para trás a pia da cozinha/ Os dias silenciosos” – e desemboca em desilusão: “Eu queria um encontro à chuva/ Mas tu nunca apareceste/ Esperei o dia quase todo/ Quero que o saibas”.

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“It’s Gonna Rain”, dos Violent Femmes

Esta não é uma chuva qualquer: é a chuva de quarenta dias e quarenta noites que deixou toda a Terra sob uns metros de água, deixando como únicos sobreviventes os humanos e as bestas que Noé diligentemente reuniu na sua arca. Como a voz de Gordon Gano tem quase sempre um leve toque sardónico, pode ser-se levado a pensar que há aqui uma intenção de satirizar a história de Noé ou a religião em geral, mas Gano era e é um cristão devoto e “It’s Gonna Rain” é, à sua maneira enviesada, uma canção religiosa. Faz parte de Hallowed Ground (1984), o segundo álbum da banda.

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“In the City in the Rain”, dos The 6ths

É num estado meio narcoléptico que se desliza por esta cidade à chuva. Há luzes reflectidas no pavimento molhado, o chiar dos pneus no pavimento olhado, um encontro num café fumarento, um belo rosto que que desaparece sem deixar rasto. A canção faz parte de Wasp’s Nest (1995), o álbum de estreia de The 6ths, um dos projectos do prolífico Stephen Merritt (The Magnetic Fields, The Gothic Archies, Future Bible Heroes), que tem a particularidade de cada canção ser cantada por um convidado diferente, quase todos estrelas da indie pop americana – “In the City in the Rain” está entregue a Low Barlow (Sebadoh, Dinosaur Jr.).

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“City Rain, City Streets”, de Ryan Adams

Em Janeiro de 2002, Carrie Hamilton, a namorada de Ryan Adams, morreu com cancro e em Setembro o músico entrou em estúdio para registar o disco que tentava exorcizar essa perda, Love Is Hell – Adams descrevê-lo-ia depois como o “diário de um suicida”, cheio de “ira e ressentimento”. A sua editora, a Lost Highway, achou o disco demasiado cru e sombrio e recusou-o e Adams acabou por gravar o álbum Rock’n’Roll, que saiu em 2003 como o seu quarto álbum; Love Is Hell acabaria por só sair no ano seguinte. Quem só ouça a música terá dificuldade em adivinhar a tristeza inconsolável que corre no fundo esta canção que evoca explicitamente a agonia de Hamilton numa cama de hospital e o espaço vazio que a sua partida deixou em Adams.

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“Naked in the Rain”, dos Red Hot Chili Peppers

Muitas canções sobre chuva têm um travo melancólico, mas os Red Hot Chili Peppers não são banda muito dada à melancolia: andar nu à chuva é para eles o símbolo da rejeição do mundo civilizado (com a sua “gente fria e malévola que causa arrepios”) e do regresso á natureza e às coisas essenciais – “nunca encontrei um animal de que não tivesse gostado”, “estou apaixonado pelo mundo selvagem”. Claro que as letras de Anthony Kiedis não são para levar muito a sério e o que importa é a mistura altamente inflamável de funk, metal, rap, exuberância e insanidade de que os Red Hot Chili Peppers levaram à perfeição no álbum Blood Sugar Sex Magik (1991). Muitas canções dos Red Hot Chili Peppers estão construídas em torno do irrequieto baixo de Flea, mas poucas têm uma linha de baixo tão azougada como “Naked in the Rain” (e o solo de guitarra de John Frusciante a partir de 3’47 é também um dos melhores que ele gravou).

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“Tinseltown in the Rain”, de The Blue Nile

Uma metrópole de luzes brilhantes e ritmos vibrantes, de paixões breves e superficiais, de dissimulação e de bravatas sobre conquistas amorosas, com uma chuva persistente em fundo. Há quem sugira que a cidade em questão é Glasgow, que é a cidade dos Blue Nile e onde a chuva é omnipresente, mas a canção pode ser transferida para outras cidades. A canção combina uma estrutura simples e despojada com arranjos orquestrais opulentos e faz parte de A Walk Across the Rooftops (1984), o álbum de estreia da banda e o primeiro disco editado pela Linn Records, um fabricante de aparelhagens hi-fi que ficou seduzido pelas demos dos Blue Nile.

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“After the Rain”, dos Soha

“After the Rain” é um título que sugere placidez e melancolia, mas em vez disso os Soha oferecem agitação incessante e interacções à velocidade da luz. Os math rockers Soha são de Tóquio e começaram por chamar-se 44º + e o mini-LP The Structure of the Moment (2016), que inclui “After the Rain”, foi o seu primeiro disco da nova encarnação e teve mistura e mastering de Mino Takaaki, dos Toe, banda com forte influência na sonoridade dos Soha.

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“I Feel the Rain Fall”, dos Red House Painters

Esta canção de Songs For a Blue Guitar (1996) é uma verdadeira raridade na carreira de Mark Kozelek: uma canção folk-country num tempo despachado e num tom jovial num songbook – sob o nome de Red House Painters, Sun Kil Moon ou em nome próprio – dominado por canções lentas e macambúzias sobre relações amorosas estraçalhadas e perdas de amigos e familiares, ensopadas em azedume e recriminações. Kozelek sente a chuva a cair-lhe em cima, admite que passou o último ano deprimido e sabe que apesar do seu empenho em que tudo corra bem desta vez, ele acabará por fazer asneira, como sempre – e, apesar disso, está bem disposto...

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“More Than Rain”, de Tom Waits

Nas canções de Tom Waits, a melancolia costuma ser temperada com ironia, mas nesta canção do álbum Franks Wild Years (1987) a chuva parece ter arrastado consigo toda a esperança e lixiviado toda a cor, deixando “nada mais do que um tempo triste”: “Os nossos bolsos não estão forrados a ouro/ [...] Nada corre a nosso favor/ [...] A dança acabou, a dança acabou”. “More Than Rain” é a banda sonora para uma dolorosa separação sob um céu de um cinzento sem réstia de esperança, embalada por um acordeão de infinita tristeza e uma secção de metais decrépita e desconjuntada.

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@Jesse Dylan
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