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Dez canções pop com penas

Neste fio poisaram melros, gaivotas, estorninhos, mochos, pombos, cisnes e beija-flores.

Por José Carlos Fernandes
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As aves têm nas artes & letras uma simbologia ainda mais vasta e complexa que a das flores e têm sido fonte de inspiração recorrente para músicos das mais diversas áreas, uns conhecidos e outros obscuros. O canto das aves levou mestres setecentistas como Handel e Vivaldi a compor acrobáticas árias de ópera e os songwriters do início do século XX usaram as aves como metáfora em canções que se tornaram jazz standards – como “Skylark” ou “Bye Bye Blackbird” – e a sua abundância justificou que, em 1958, a cantora Carmen McRae gravasse Birds of a Feather, em que todas as canções aludem a aves. A ornitologia tem também inspirado os compositores da área do pop-rock, do tempo dos Beatles até aos nossos dias.

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Dez canções pop com penas

“Blackbird”, dos Beatles

Ano: 1968

“Blackbird” designa a família de aves a que em português chamamos melros e cujo representante mais comum pela Europa fora é o Turdus merula. Porém, segundo Paul McCartney, que compôs esta canção (e a gravou, em guitarra acústica, sem o resto da banda), incluída no álbum The Beatles (mais conhecido como White Album), a inspiração proveio do movimento dos direitos cívicos dos afro-americanos, que, à data, travavam uma acesa luta nos EUA (Martin Luther King seria assassinado nesse mesmo ano). A canção desafia o “blackbird” a lançar-se no voo apesar das suas asas quebradas: “só aguardavas  por este momento para te ergueres”.

Devido à remoção do YouTube da esmagadora maioria das canções dos Beatles, por imposição dos detentores dos seus direitos de autor, apresenta-se “Blackbird” num registo feito em ensaios.

“Bird on a Wire”, de Leonard Cohen

Ano: 1969

Em meados da década de 1960, Leonard Cohen viveu em semi-reclusão na ilha grega de Hydra, no Mar Egeu, onde escreveu vários livros de poemas. A ilha conservava-se, à data, pouco tocada pelo progresso e desprovida de muitos confortos modernos (ainda hoje a circulação de automóveis é interdita, restando recorrer ao burro ou à bicicleta) e só depois de Cohen lá se ter instalado foram colocados os primeiros postes telefónicos – e foi a visão de uma ave pousada num fio telefónico que levou Cohen a escrever o poema “Bird on a Wire”. Esta expressão pode significar, para lá de de uma ave pousada num fio telefónico ou eléctrico ou no arame de uma vedação, o de uma ave presa por um fio ou um arame. A inspiração poderá ter nascido da primeira situação, mas a letra sugere a segunda, uma vez que declara que “Like a bird on a wire [...] I have tried my way to be free”. Quase 40 anos depois da composição, Cohen compararia a canção a uma versão boémia de “My Way”.

A versão gravada por Judy Collins, incluída no álbum Who Knows Where the Time Goes (1968), acabou por sair alguns meses antes da versão de Cohen, incluída no seu segundo álbum, Songs from a Room.

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“Owls”, de Leo Kottke

Ano: 1972

“Owls” não é uma canção, mas o imperativo de representar também as aves nocturnas (neste caso, os mochos) justifica a sua inclusão na lista – isso e o facto de ser uma peça fascinante. Faz parte de Greenhouse, um álbum gravado em apenas três dias por Leo Kottke, só com guitarras acústicas de 6 e 12 cordas e voz (em quatro faixas).

“The Seabirds”, de The Triffids

Ano: 1985

A relação amorosa acabou muito mal e a tentativa dele de afogar as mágoas em álcool não produziu grande resultado. Parece-lhe que não resta outra saída senão afogar-se literalmente: nada para longe, passa para lá do recife. Ali só há aves marinhas descrevendo círculos no céu ou debicando nas carcaças de peixes, “Não há ninguém que o detenha/ Que chame o seu nome/ Que o vista, lhe dê comida e o leve para casa/ Que lhe diga ‘Miúdo, isto não tem de acabar assim’”. Ele grita para as aves marinhas que voam em círculos e guincham sobre a sua cabeça: “Levem-me, já não tenho medo de morrer”. “Mas elas fingem não o ouvir/ E limitam-se a observá-lo com os seus olhos duros, negros e brilhantes/ Elas não hesitam em arrancar os olhos a qualquer ser moribundo/ Que esteja ao seu alcance/ Mas não irão tocar na figura solitária/ Que o mar atirou à praia”.

Esta micro-tragédia num acto, iluminada por uma luz ofuscante e ensopada de água salgada, faz parte do esplêndido álbum Born Sandy Devotional, o segundo dos Triffids.

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“Swan, Swan, H”, dos REM

O simbologista Robert Langdon (a personagem dos romances de Dan Brown) e o seu homólogo luso, o criptanalista Tomás de Noronha (criado por José Rodrigues dos Santos), podem ser uns trutas a decifrar todas as charadas dos templários e a descobrir as mensagens escritas a sumo de limão em vetustos papiros egípcios, mas partiriam os seus dentes a tentar penetrar na maior parte das letras de Michael Stipe.

O primeiro verso desta canção – “Swan, swan, humming bird” – menciona duas aves que são as mais diferentes que é possível imaginar: cisnes e beija-flores. O resto da impenetrável letra não parece ter qualquer conexão com cisnes e beija-flores, embora não faltem na World Wide Web dezenas de exegeses rebuscadas a tentar extrair sentido de tudo isto, fundadas na declaração de Michael Stipe de que a canção era sobre a Guerra Civil Americana. O verso “hurrah, agora somos todos livres” é cantado com um tom tão pouco jubilatório que é aplicável aos afro-americanos do Sul dos EUA, que a Guerra Civil libertou formalmente da escravidão formal, mas cuja vida poucas melhorias sofreu.

“Seagull” dos Ride

Ano: 1990

A gaivota funciona aqui como metáfora de liberdade, pela parte de alguém que estava preso numa relação que começou de forma arrebatadora mas se foi tornando tóxica: da garganta seca saem palavras mortas que tombam como penas, mas a canção acaba por erguer-se nos ares: “vê como voo acima da tua cabeça”.

“Seagull” é uma das mais fortes canções de Nowhere, o álbum de estreia deste quarteto de Oxford, e soa ainda melhor na versão abaixo, extra-longa, extra-psicadélica e extra-intensa, captada ao vivo em estúdio, pouco depois do regresso da banda à actividade em 2014, após um interregno de 18 anos.

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“Beautiful Pigeon”, dos Moonshake

Ano: 1992

Os Moonshake foram uma das mais originais e inspiradas bandas a emergir na Grã-Bretanha nos anos 90, mas, infelizmente para eles, o mundo só tinha ouvidos para o grunge, o shoegaze e o britpop e a banda de David Callahan e Margaret Fiedler não se enquadravam nestes modelos (nem em nenhum outro), pelo que passaram despercebidos (Fiedler e o baixista John Frenett, que saíram da banda em 1993, lograriam obter um pouco mais de sucesso com os Laika).

“Beautiful Pigeon” faz parte do álbum de estreia, Eva Luna, e a letra – enigmática, como usual na banda – parece usar o pombo como símbolo do amor, mas Fiedler, que canta a canção, parece não ter confiança na proverbial fidelidade dos pombos e diz que vai prender-lhe a pata com uma corda/cordel.

[Versão gravada nas John Peel Sessions, em Novembro de 1992; a canção termina aos 3’16]

“Bird on a Wire”, de Sarah Blasko

Ano: 2009

Este “pássaro no fio” não é o de Leonard Cohen. A canção, que combina a descontracção do groove jazzístico com uma atmosfera dramática, é da lavra da australiana Sarah Blasko e faz parte do seu terceiro álbum, As Day Follows Night. Também para Blasko, “bird on a wire” parece ser expressão com conotações negativas, pois a letra fala de maldições, ferimentos e queimaduras, de alguém que partiu as asas, se esqueceu de como cantar e foi “apanhado na armadilha do desejo e foi atingido no coração por uma flecha”.

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“Starling”, dos La Strada

Ano: 2009

Esta banda de nome felliniano, sonoridade folk-pop colorida e meticulosamente orquestrada, onde convivem a festividade e a melancolia, e instrumentário predominantemente acústico – violino, violoncelo, acordeão, trompa, xiolofone, glockenspiel, guitarras – é de Brooklyn e “Starling” faz parte do seu EP de estreia, homónimo. James Craft, o seu frontman, viveu um pouco por todo o mundo, pelo que fica por saber a que geografia pertence este estorninho (“starling”) para quem “O céu deixou/ De fazer sentido/ E tu vais/ Caindo, caindo, caindo/ Pela porta do céu”. Resta a certeza de que “Há uma cidade de pássaros/ Não muito longe daqui, / Para lá da tua dor,/ Acima da estrela negra”.

“Bird in Your House”, dos Elysian Fields

Ano: 2016

“Alguém me disse uma vez qual o significado/ De um pássaro entrar-te em casa/ É um prenúncio/ É uma maldição/ Oh, não consigo lembrar-me, não consigo lembrar-me/ Mas foi que aconteceu/ nesta pequena história”. As canções dos Elysian Fields movem-se num mundo de penumbra e ambiguidade e esta não revelará os seus segredos: a ave esvoaça, desorientada, enreda-se nos cortinados, tenta subir pela chaminé, o batimento das suas asas é aflitivo... Exausta e desorientada, acabará por empoleirar-se na mão da narradora: “Alguém me disse uma vez o que vale/ Teres um pássaro na mão/ Mas não consigo lembrar-me, não consigo lembrar-me”.

A canção faz parte de Ghosts of No (2016), o oitavo álbum da banda.

[Versão ao vivo na Künstlerhaus de Nuremberga, 19.05.16]

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