Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Dez óperas inspiradas nas "Metamorfoses" de Ovídio
Arte, Pintura, Apollo persegue Daphne, Giovanni Battista Tiepolo
©National Gallery of Art Apollo persegue Daphne por Giovanni Battista Tiepolo (1755-60)

Dez óperas inspiradas nas "Metamorfoses" de Ovídio

As "Metamorfoses" de Ovídio inspiraram gerações de compositores e libretistas

Por José Carlos Fernandes
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Ovídio (Publius Ovidius Nasus) foi um dos mais importantes poetas de Roma Antiga e entre as suas obras mais afamadas estão as Metamorfoses, um longo poema narrativo publicado no ano 8 d.C., que se estende por 15 livros (embora os “livros” dos romanos fossem volumes menos espessos do que os do nosso tempo) e aborda 250 episódios da mitologia greco-romana. O tema mais comum destes episódios é, como o título indica, a metamorfose – Ovídio elucida-o logo na abertura: “Pretendo falar de formas que assumem novas entidades”. Muitas destas metamorfoses envolvem uma perseguição (quase sempre com motivação amorosa) e/ou um evento violento (acidental ou premeditado), acabando a vítima, por acção de poderes divinos, por ser transformada num elemento da paisagem (fontes, rios, árvores) ou do cosmos (constelações).

Muitos foram os compositores que aí foram beber inspiração para as suas óperas, mas os temas mitológicos tenham ficado fora de moda com o fim da opera seria, a partir do terceiro quartel do século XVIII, só ganhando novamente alguma popularidade no século XX.

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Dez óperas inspiradas nas "Metamorfoses" de Ovídio

1. La Dafne, de Marco da Gagliano

Ano: 1608
Metamorfose: Náiade em loureiro

Mito: Dafne era uma náiade, uma variedade de ninfa adstrita a fontes, riachos e outros pequenos cursos de água (portanto sem relação com o elenco de Baywatch, que é de água salgada). A sua beleza atraiu a atenção de Apolo, mas Dafne recusou os avanços do deus e pôs-se em fuga (uma situação recorrente nas Metamorfoses). Quando Apolo estava quase a alcançá-la, Dafne invocou o auxílio do seu pai, Ladon, um deus fluvial, que a converteu num loureiro. Apolo ficou desolado por ver Dafne escapar-se assim, mas acabou por conceder-lhe uma grande honra: as suas folhas seriam usadas para coroar os heróis.

Obra: Dafne foi o tema da primeira ópera de que há registo, composta por Jacopo Peri sobre libreto de Ottavio Rinuccini. A ópera estreou no Carnaval de 1598, no Palácio Corsi, em Florença, e o mecenas, Jacopo Corsi, que tinha também dotes musicais, compôs alguns dos números. Infelizmente a música perdeu-se, salvo alguns fragmentos, pelo que a primeira Dafne que chegou aos nossos dias foi a composta por Marco da Gagliano, sobre o mesmo libreto de Rinuccini, que estreou no palácio ducal de Mântua em Fevereiro de 1608. Foi planeada para abrilhantar as bodas de Francesco Gonzaga, príncipe de Mântua, com Margarida de Sabóia, mas a noiva demorou-se tanto no caminho que o espectáculo começou sem ela. Vale a pena notar que Francesco já tinha sido dedicatário, no ano anterior, de L’Orfeo, a primeira ópera de Monteverdi. Com a morte do pai, a 18 de Fevereiro de 1612, Francesco tornou-se duque de Mântua, mas pouco gozou o título, já que faleceu a 22 de Dezembro. As voltas e reviravoltas do destino fizeram com que, em 1635, a viúva (que era neta de Filipe II de Espanha) acabasse por vir parar a Lisboa, na qualidade de vice-rainha, por nomeação de Filipe IV de Espanha, seu primo. Ficou por cá conhecida como “Duquesa de Mântua”, uma vez que manteve o título que obtivera pelo casamento com Francesco Gonzaga.

[“Piangete, O Ninfe”, de La Dafne, ao vivo na Trinity Church de Nova Iorque, 2008, pelo ensemble Fuoco e Cenere (em instrumentos de época), dirigido por Jay Bernfeld, que gravou a ópera para a editora Arion, em 2007]

2. Actéon, de Charpentier

Ano: 1684
Metamorfose: Caçador em cervo

Mito: Acteon andava a caçar quando, acidentalmente se deparou com uma beldade que tomava banho nua: era Diana, a deusa da caça e da virgindade, que, agastada com a intrusão, transformou Acteon num cervo. A punição poderá parecer excessiva para uma infracção inadvertida, mas o pior estava para vir: os cães de caça de Acteon não reconheceram o seu dono sob a nova aparência e fizeram-no em bocados (“justiça poética”, dirão muitos amigos dos animais e opositores da caça).

Obra: À data da composição, Marc-Antoine Charpentier (1643-1704) trabalhava para Maria da Lorena, Duquesa de Guise, mas alguns musicólogos acham improvável que Actéon tenha sido representada no palácio da duquesa e sugerem uma encomenda para outro mecenas, com a finalidade de abrilhantar uma caçada.

[Ária de Diana, “Nymphes, Retirons-nous”, pela soprano Elodie Fonnard e Les Arts Florissants (em instrumentos de época), com direcção de William Christie, ao vivo no Palácio de Versailles, 2013. Les Arts Florissants gravaram esta obra para a Harmonia Mundi]
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3. Acis et Galatée, de Lully

Ano: 1686
Metamorfose: Pastor em rio

Mito: O pastor Acis está apaixonado pela ninfa Galateia, mas esta é também cobiçada pelo gigante Polifemo. Polifemo é um ciclope e é sabido que os rapazes com um olho no meio da testa têm dificuldade em cativar raparigas giras, pelo que não é inesperado que Galateia tenha rejeitado as suas propostas. Roído pelo ciúme, Polifemo ameaça Acis, mas, como este não se deixa intimidar Polifemo, recorre aos grandes meios: quando Acis e Galateia trocam juras de amor eterno, o ciclope esborracha o pastor com um pedregulho. Galateia lamenta a perda do seu amado e apela às divindades, que, embora não tendo poder para o devolver à vida, transformam o sangue de Acis num rio, conferindo-lhe assim a eternidade.

Obra: A ópera, com libreto de Jean Galbert de Campistron, foi encomendada pelo duque de Vendôme para abrilhantar uma caçada em homenagem ao delfim Luís, filho de Luís XIV. Após a estreia, numa encenação simplificada, no palácio ducal, foi apresentada, poucos dias depois, agora já com toda a maquinaria de palco e “efeitos especiais”, no Théâtre du Palais Royal, em Paris.

[Cenas 6 e 7, de Acis et Galatée, com a primeira aparição de Polifemo, por Les Musiciens du Louvre (em instrumentos de época), dirigidos por Marc Minkowski (Archiv)]

4. Acis and Galatea, de Handel

Ano: 1718, conhecendo sucessivas versões até 1739
Metamorfose: Pastor em rio

Mito: ver Acis et Galatée de Lully

Obra: Handel já abordara este episódio das Metamorfoses na serenata Aci, Galatea e Polifemo, composta em 1708, durante a sua estadia em Itália. Embora Handel tivesse o hábito de reciclar as suas obras (e em particular as do período italiano), a Acis and Galatea que compôs em 1718 para o Duque de Chandos e que estreou no palácio deste, em Cannons, no Middlesex, foi composta de raiz e nada tem a ver musicalmente com a serenata de 1708. Só mais tarde, quando Acis and Galatea foi reposta em Londres é que Handel tomou emprestados trechos de Aci, Galatea e Polifemo e os incorporou numa nova versão em três actos. Handel foi fazendo revisões para as sucessivas reposições, mas a versão corrente hoje em dia é a de 1739, em dois actos.

[Excerto de Acis and Galatea, por Danielle De Niese (Galatea), Royal Opera Extra Chorus e Orchestra of the Age of Enlightenment (em instrumentos de época), direcção de Christopher Hogwood e encenação de Wayne McGregor, na Royal Opera House Covent Garden, Londres, 2009 (DVD Opus Arte)]

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5. Piramo e Tisbe, de Hasse

Ano: 1768
Metamorfose: Amantes em amoras

Mito: Píramo ama Tisbe, mas as respectivas famílias, que eram vizinhas, não aprovavam o namoro e os jovens encontravam-se à socapa num muro que separava as duas casas. Um dia, os jovens amantes combinaram encontro no exterior da cidade, junto a uma fonte, à sombra de uma amoreira. Tisbe chegou primeiro, mas, ao ver aproximar-se um leão que vem dessedentar-se à fonte, fugiu precipitadamente, deixando para trás o véu. O leão, que acabara de matar uma presa, despedaçou o véu com as suas mandíbulas ensanguentadas e depois partiu. Quando Píramo chegou e viu o véu rasgado e manchado de sangue, presumiu que Tisbe fora trucidada por uma fera e, entendendo que não valia a pena viver sem ela, matou-se com a sua espada. Tisbe regressou pouco depois e, ao ver o agonizante Tisbe, decidiu juntar-se a ele na morte. O sangue dos amantes tingiu os frutos da amoreira, que até então tinham sido brancos (sim, esta história faz lembrar – leão e amoras à parte – a de Romeu e Julieta e não é por acaso).

Obra: O episódio mitológico já fora abordado por Michel Pignolet de Montéclair, na cantata Pyrame et Thisbée (c.1716), por Giuseppe Brescianello, na ópera La Tisbe (1718) e pela dupla François Francoeur & François Rebel, na ópera Pirame et Thisbée (1726). O assunto era tão popular nos meios letrados que suscitara algumas paródias no teatro e na ópera (ver abaixo), mas Johann Adolf Hasse (1699-1783), o mais popular, prolífico e bem remunerado compositor de opera seria do seu tempo, tratou o tema com seriedade. Foi no intermezzo tragico Piramo e Tisbe, sobre libreto de Marco Coltellini, que intensifica a tragédia (ou o ridículo) do enredo original, ao fazer surgir junto aos cadáveres dos dois suicidas o pai de Tisbe, que, desgostoso, também põe termo à vida.

[Ária de Tisbe “Fuggiam Dove Sicura”, pela mezzo-soprano Vivica Genaux, com o ensemble Europa Galante (em instrumentos de época), dirigido por Fabio Biondi, ao vivo em Salzburgo, 2010]

6. Pyramus and Thisbe, de Lampe

Ano: 1745
Metamorfose: Amantes em amoras

Mito: ver Piramo e Tisbe, de Hasse

Obra: Johann Friedrich Lampe (1703-1751) nasceu na Alemanha e instalou-se em Londres aos 19 anos, adoptando o nome de John Frederick Lampe. Compôs sobretudo óperas em inglês (contrariando a voga que Handel tentou impor da ópera italiana), algumas delas em registo de paródia à opera seria italiana, como foi o caso de Pyramus and Thisbe. O libreto (de autor anónimo) deve menos à versão de Ovídio do que à paródia ao mito que Shakespeare incluiu em Sonho de uma Noite de Verão (como “peça dentro da peça”).

[Excertos de Pyramus and Thisbe, por Mark Padmore (Pyramus), Susan Bisatt (Thisbe) e Andrew Knight (Leão) e pelo ensemble Opera Restor’d (em instrumentos de época), dirigido por Jack Edwards & Peter Holman, 1994 (primeira gravação da obra, realizada para a editora Hyperion)]
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7. Scylla et Glaucus, de Leclair

Ano: 1746
Metamorfose: pescador em criatura anfíbia

Mito: Glauco era um simples e mortal pescador, até que a ingestão de uma erva mágica lhe conferiu imortalidade e o converteu num deus marinho – porém, fez também com que a metade inferior do seu corpo assumisse a forma de um peixe (poderá ver-se aqui uma advertência contra a automedicação?), obrigando-o a passar a viver no mar. Glauco até já se conformara com esta condição quando se apaixonou pela jovem Cila; esta, porém, achou a cauda de peixe e as barbatanas repugnantes (as barbatanas são tão pouco populares entre as miúdas como olhos no meio da testa) e fugiu para terra, onde sabia que ele não a poderia seguir. Glauco foi pedir ajuda à feiticeira Circe, mas esta, revelando escassa deontologia profissional, apaixonou-se por ele e quando Glauco, que estava mesmo embeiçado por Cila, rejeitou o seu amor, vingou-se adicionando umas ervas mágicas (outra vez!) às águas da fonte onde Cila costumava banhar-se. As versões do mito divergem quanto ao efeito da mistela preparada por Circe: no libreto da ópera de Leclair, da autoria de um certo d’Albaret, Cila desfalece e depois, quando Glauco lamenta a sua morte, reergue-se e foge, transformando-se depois num rochedo (que algumas fontes identificam com um rochedo no Estreito de Messina, entre a Itália e a Sicília, que terá feito naufragar muitas embarcações). Noutra versão, as ervas fazem nascer das virilhas de Cila seis cães danados (é pouco provável que tenha continuado a ser convidada para festas).

Obra: Jean-Marie Leclair (1697-1764) distinguiu-se sobretudo como violinista e compositor de música de câmara e orquestral e Scylla et Glaucus é a sua única (e inesperada) incursão na ópera, mas nem por isso é inferior ao que faziam os seus colegas rodados em compor para o palco.

[Excerto de Scylla et Glaucus, por The Monteverdi Choir e English Baroque Soloists (em instrumentos de época), dirigidos por John Eliot Gardiner (Erato)]

8. Pigmalion, de Rameau

Ano: 1748
Metamorfose: estátua em mulher de carne e osso

Mito: O escultor Pigmalião criou uma estátua feminina tão perfeita e encantadora que ficou apaixonado por ela (embora um episódio anterior o tivesse feito “perder o interesse por mulheres”). Vénus apiedou-se de Pigmalião e converteu a estátua numa mulher verdadeira, que logo se apaixonou pelo seu criador. Viveram felizes e tiveram uma filha chamada Paphos (um filho, segunda outra versão).

Obra: Entre 1748 e 1754, Jean Philippe Rameau (1683-1764), o mais importante e talentoso compositor de ópera francês da sua geração, produziu oito óperas em um acto, a que deu a designação de “actes de ballet”. Consta que Pigmalion terá sido composta em apenas oito dias. O libreto, de Ballot de Sauvot, adiciona ao elenco a personagem de Céphise, que está apaixonada por Pigmalião e acha que aquilo de ele estar apaixonado por uma estátua é uma treta destinada a encobrir um caso com uma mulher verdadeira. Para já, ainda ninguém compôs uma ópera sobre o robô Sophia.

[Ária de Pigmalião “Fatal Amour”, pelo contratenor Anders Dahlin e Les Ambassadeurs, com direcção de Alexis Kossenko, no festival Poznan Baroque 2013]

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9. Apollo et Hyacinthus, de Mozart

Ano: 1767
Metamorfose: Rapaz em flor

Mito: Jacinto (Hyacinthos) era filho de reis (da Macedónia ou de Esparta, consoante as fontes) e era um adolescente tão deslumbrantemente belo que dois deuses ficaram apaixonados por ele: Zéfiro (deus do vento de Oeste) e Apolo. Zéfiro, num acesso de ciúme, por suspeitar que o rapaz tivesse preferência por Apolo, ao ver os dois divertirem-se a lançar o disco, fez o vento desviar um lançamento de Apolo e o disco atingiu a cabeça de Jacinto, matando-o (não era um frisbee de plástico, está visto). Apolo, desolado, transformou o sangue do jovem na flor com o seu nome.

Obra: Apollo et Hyacinthus foi a primeira ópera composta por Wolfgang Amadeus Mozart, com apenas 11 anos, e fez parte de um espectáculo musical bem mais longo que assinalava o fim do ano escolar na Universidade Beneditina de Salzburgo. O entendimento do que são comportamentos sexuais aceitáveis em sociedade mudou muito entre a Grécia Clássica e a Áustria do século XVIII, o que fez com que o libreto (em latim) de Rufinus Widl, monge beneditino e professor de dicção na dita universidade, escamoteasse completamente a embaraçosa componente homossexual (para não dizer pedófila) do enredo. Widl teve de fazer brotar do nada uma irmã de Jacinto que substitui este como alvo da paixão assolapada de Apolo e Zéfiro e remeteu Jacinto ao papel de vítima colateral do ciúme de Zéfiro.

[Excerto de uma produção de 2006, em Salzburg, com a Orquestra Sinfónica do Mozarteum Universitário de Salzburgo, dirigida por Josef Wallnig e encenada por John Dew]

10. Daphne, de Strauss

Ano: 1938
Metamorfose: Náiade em loureiro

Mito: ver La Dafne, de Gagliano

Obra: Esta “tragédia bucólica em um acto” é uma das menos conhecidas óperas de Richard Strauss (1864-1949), mas a música que, na derradeira cena, retrata a metamorfose de Dafne e a sua exultação na comunhão com a natureza, é tão sumptuosa que só ela justificaria que a ópera fosse encenada mais amiúde. O libreto de Joseph Gregor foi profundamente revisto por Stefan Zweig e o coro feminino que Gregor tinha previsto para o final foi suprimido; em seu lugar, ouve-se apenas a voz de Dafne que se converte num vocalizo que se funde com a orquestra, simbolizando a perda da natureza humana e a união com o mundo natural.

[“Ich Komme Grünende Brüder”, a cena final de Dafne, pela soprano Lucia Popp (Daphne) e a Orquestra Sinfónica da Rádio Bávara, dirigida por Bernard Haitink, 1992]

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