Oito concertos duplos que precisa de ouvir

Uma rara oportunidade de ouvir o Concerto para dois pianos de Bruch – com as irmãs Labèque, a Royal Concertgebouw e Semyon Bychkov, na Fundação Gulbenkian – é um bom pretexto para recordar outros concertos para dois solistas

Katia & Marielle Labèque

Quarta-feira, dia 21, às 21.00, há Bruch, Shostakovich e Wagner pela Royal Concertgebouw Orchestra. Os bilhetes custam entre 30 e 80 euros.

Oito concertos duplos que precisa de ouvir

Concerto para dois violinos RV 527, de Vivaldi

Ano: c.1720-30

Entre os 500 concertos de Antonio Vivaldi (1678-1756) conta-se meia centena de concertos duplos, explorando as mais variadas combinações: dois violinos, violino e violoncelo, dois violoncelos, duas flautas, duas trompetes, duas trompas, dois oboés e até – caso sem par – dois bandolins. Os mais numerosos são os destinados a dois violinos e são dominados pelo despique entre os dois solistas.

[Por Giuliano Carmignola e Amandine Beyer (violinos) e Gli Incogniti, em instrumentos de época (Harmonia Mundi)]

Concerto para dois violinos BWV 1043, de Bach

Ano: c.1717-23

O concerto foi composto por Johann Sebastian Bach /1685-1750) quando era director musical da corte de Anhalt-Köthen e, ao contrário dos concertos para dois violinos de Vivaldi, a ênfase está no íntimo entrelaçamento e complementaridade entre os dois solistas; também em oposição ao estilo dos seus homólogos vivaldianos, os dois solistas têm um recorte menos destacado e surgem mais imbricados no elaborado tecido orquestral, havendo quem veja nisso uma aproximação ao concerto grosso, em que só momentaneamente se permite que os solistas se ergam acima do tutti.

Em 1739, Bach faria uma transcrição do concerto BWV 1043 para dois cravos (BWV 1062), para as sessões musicais no Café Zimmermann, em Leipzig.

[II andamento (Largo ma non tanto), por Rachel Podger e Elizabeth Blumenstock (violinos) e o ensemble Voices of Music, em instrumentos de época, no Berkeley Early Music Festival, 2016]

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Concerto para cravo e fortepiano Wq.47/H.479, de C.P.E. Bach

Ano: 1788

A primeira obra destinada especificamente ao fortepiano data de 1732, mas o novo instrumento levou tempo para se impor ao cravo e durante várias décadas as obras para tecla não especificavam a que instrumento se destinavam. São disto exemplo a maioria dos concertos de Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788), um dos talentosos filhos de Johann Sebastian, que tanto podem ser interpretados em cravo ou fortepiano (uma gravação integral dos concertos por Miklos Spanyi para a BIS até deu primazia a um “híbrido” de vida breve, o Tangentenflügel, ou piano de tangentes). Porém, no Concerto para cravo e fortepiano Wq.47/H.479, C.P.E. Bach tira partido das especificidades de cada um dos instrumentos para construir um concerto ímpar.

[Por Ton Koopman (cravo) e Tini Mathot (fortepiano) e a Amsterdam Baroque Orchestra (Erato/Warner)]

Concerto para dois pianos n.º10 K.365, de Mozart

Ano: c.1779

Ao contrário do Concerto n.º 7 K.242, de 1776, em que as partes solistas têm diferentes graus de exigência (em resultado das diferentes aptidões das filhas da condessa Lodron, que o encomendou), o Concerto n.º 10, presumivelmente destinado a ser tocado por Mozart e pela sua irmã Nannerl (Maria Anna), coloca os dois solistas em plano de igualdade.

É provável que Mozart tivesse a obra em preço, pois em 1782 enriqueceu a sua instrumentação com trompetes, clarinetes e timbales.

[III andamento (Rondo: Allegro), por Daniel Barenboim (piano) e Georg Solti (piano e direcção) e a English Chamber Orchestra]

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Concerto para piano e violino, de Mendelssohn

Ano: 1823

Foi composto aos 14 anos e é, pois, contemporâneo das três últimas das 12 sinfonias para cordas do precoce Felix Mendelssohn (1809-1847). No ano anterior compusera um concerto para piano e outro para violino e no ano seguinte comporia um concerto para dois pianos. A instrumentação começou por conformar-se à orquestra de cordas que Felix tinha então à sua disposição – contratada pelo pai, um banqueiro –, mas numa segunda versão adicionou sopros e timbales (terá sido a primeira vez que inclui estes instrumentos nas suas partituras orquestrais).

[I andamento (Allegro), por Martha Argerich (piano), Gidon Kremer (violino) e Orpheus Chamber Orchestra]

Concerto para violino e violoncelo op.102, de Brahms

Ano: 1887

A derradeira obra orquestral de Johannes Brahms (1833-1897) teve uma dupla motivação: por um lado, Robert Hausmann, o violoncelista do Joachim Quartett (o mais conceituado quarteto de cordas de então) tentara convencer Brahms a compor mais uma obra para violoncelo (para lá das sonatas para violoncelo e piano). Por outro lado, Brahms estava, na altura, de candeias às avessas com o violinista Joseph Joachim, o líder do dito quarteto e seu amigo e conselheiro musical de longa data, em resultado de ter tentado defender a esposa de Joachim no litigioso divórcio do casal, pelo que julgou que dedicar o duplo concerto ao amigo iria reconciliá-los. A zanga de Joachim, que já durava há três anos e resistira a anteriores tentativas de reaproximação pela parte de Brahms, acabou por ser parcialmente dissipada pelo gesto de Brahms – a obra estreou em Colónia em 1887, com Joachim e Hausmann como solistas e Brahms como maestro – embora a velha amizade nunca se restabelecesse.

[II andamento (Andante), por Julia Fischer (violino), Daniel Müller-Schott (violoncelo) e a Deutsche Radio Philharmonie, com direcção de Christoph Poppen]

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Concerto para dois pianos op.88a de Max Bruch

Ano: 1912

Mas Bruch (1838-1920) foi invulgarmente prolífico para os padrões da viragem dos séculos XIX-XX, deixando-nos um total de 200 obras nos mais variados formatos que, todavia, são hoje raramente tocadas, com excepção do Concerto para violino n.º 1. Entre as obras pouco arejadas está Concerto para dois pianos, composto para o duo de piano formado pelas irmãs Rose e Ottilie Sutro e tendo como ponto de partida os esboços de uma suíte para órgão e orquestra. As irmãs Sutro, a quem o compositor atribuiu direitos exclusivos como intérpretes, trataram de fazer-lhe adaptações (com autorização de Bruch), tendo sido esta a versão que estrearam em 1916, sob a batuta do célebre Leopold Stokowski. As irmãs deixaram de tocar a obra, mas, estranhamente, continuaram a introduzir-lhe numerosas alterações durante as décadas seguintes. Resultou daqui que a versão original se perdeu e só em 1973 foi possível reconstruí-la a partir das partituras das irmãs Sutro.

[Por Katia e Marielle Labèque e a Philharmonia Orchestra, com direcção de Semyon Bychkov (Philips)]

Concerto para dois pianos, de Poulenc

Ano: 1932

Francis Poulenc (1899-1963) compôs o concerto por encomenda da princesa de Polignac (uma das mais empenhadas mecenas musicais do início do século XX) e estreou a obra nesse mesmo ano, partilhando o papel solista com o seu amigo Jacques Février. A música de Poulenc desliza por vezes para a frivolidade, mas este concerto vende vitalidade e frescura (com o I andamento a abrir em registo percussivo e endiabrado) e exibe uma sonoridade assaz original, sobretudo no trecho hipnótico e misterioso do final do I andamento (a partir de 5’49 no vídeo abaixo), que se inspira no gamelão balinês que Poulenc ouvira na Exposição Colonial de Paris no ano anterior.

[I andamento (Allegro ma non troppo), pelos irmãos Lucas e Arthur Jussen (pianos) e a Royal Concertgebouw Orchestra, com direcção de Stéphane Denève, ao vivo no Concertgebouw, Amesterdão, 2016]

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