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Dez pérolas secretas da pop: volume 4

O fundo do mar da pop está cheio de tesouros esquecidos e para os descobrir basta descer por esta corda.

Por José Carlos Fernandes |
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Men I Trust
Men I Trust

O prólogo ao livro de poemas Os conjurados (1985), a derradeira obra de Jorge Luís Borges, é tão precioso e iluminador como o melhor dos seus poemas. Escreve Borges, do alto da infinita sabedoria dos seus 86 anos: “Com o correr dos anos, observei que a beleza, tal como a felicidade, é frequente. Não se passa um dia em que não estejamos, um instante, no paraíso. Não há poeta, por medíocre que seja, que não tenha escrito o melhor verso da literatura, mas também os mais infelizes. A beleza não é privilégio de uns quantos nomes ilustres”.

Seguem-se dez comprovativos, não de como mesmo poetas medíocres são capazes de magníficos versos, mas de que existem criadores talentosos a viver longe dos holofotes, porque, pura e simplesmente, não existe uma relação entre talento e reconhecimento.

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Dez pérolas secretas da pop vol.4

“No Explanation”, de The Church

Em 1984, entre o seu terceiro álbum, Seance, e o quarto, Heyday, os australianos The Church lançaram dois EPs, Persia e Remote Luxury, que apenas tiveram distribuição na Austrália e Nova Zelândia.

A banda fizera progressos notáveis entre o álbum de estreia, Of Skins and Heart e o segundo, Blurred Crusade, mas as canções de Seance foram seriamente prejudicadas na fase de mistura, sobretudo devido ao emprego, apesar da oposição da banda, de um som de bateria abrutalhado e ostensivamente artificial, que esteve em voga em meados da década de 80 e arruinou muitos bons discos pelo mundo fora. Seance revelou-se um retrocesso musical e comercial em relação a Blurred Crusade e a banda passou por um período de desorientação e desmoralização, que levou a que adiasse a gravação de um novo álbum e canalizasse a sua criatividade para dois EPs.

“No Explanation”, do EP Persia, com a sua pop psicadélica, atmosférica e luminosa (por oposição aos ambientes mais góticos e sombrios de Seance), assente nos rendilhados encantatórios das guitarras, prefigura a sonoridade do álbum Heyday (uma obra magna da pop) que surgiria no ano seguinte e obteve bom acolhimento, permitindo à banda conquistar visibilidade nos EUA e na Europa.

Os The Church mantêm-se hoje em actividade – o seu álbum mais recente surgiu no final de 2017 – mas os discos de início de carreira – e em particular os dois EPs de 1984 – são hoje obscuríssimas raridades.

“Get it On”, de The Woodentops

Por volta de 1987, os Woodentops pareciam estar à beira de se transformar num grande sucesso da pop britânica. O álbum de estreia, Giant (1986), fora bem recebido e a energia demoníaca dos seus concertos granjeou-lhes fama e justificou que o seu segundo álbum, Live Hypnobeat Live (1987), fosse, inusitadamente para as “regras” da edição pop, o registo de um concerto (em Los Angeles). Porém, após o segundo álbum, Woodenfoot Cops on the Highway (1988), nitidamente menos conseguido que Giant, a estrela da banda foi apagando-se, até porque a sua vivacidade esfuziante e o seu cruzamento de melodias folk, fúria punk, aromas tropicais e convites a abanar as ancas na pista de dança, não podia estar mais distante da onda shoegaze, melancólica e planante, que tomou conta da cena indie britânica na viragem dos anos 80/90. “Get It On”, a faixa de abertura de Giant, é emblemática da sonoridade colorida e frenética da banda.

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“Grow Wild”, dos Hugo Largo

Os Hugo Largo tiveram uma vida curta – de 1984 a 1991 – e deixaram apenas dois álbuns e nem o facto de terem sido apadrinhados por Brian Eno (cuja editora, Opal, lançou os seus discos) e Michael Stipe (que produziu o seu primeiro álbum) lhes proporcionou a visibilidade que mereceriam. É verdade que a banda estava longe da ortodoxia, com a invulgar voz de Mimi Goese em diálogo com um violino e dois baixos, o que não é a receita usual para encher estádios. “Grow Wild” é a encantatória faixa de abertura do álbum de estreia, Drum, de 1988, e a voz que repete “of another hand” em fundo é a de Michael Stipe.

“Tommy & Co.”, de Bill Pritchard

Bill Pritchard é um caso insólito na pop britânica, uma vez que fez carreira sobretudo no continente: estreou-se em 1988 com Parce Que, um álbum a meias com o francês Daniel Darc, e Three Months, Three Weeks & Two Days (1989), o seu primeiro álbum em nome próprio, foi produzido por Etienne Daho, foi gravado em Bruxelas, incluía canções com títulos e versos em francês e contou com os coros de Françoise Hardy em “Tommy & Co.” Esta canção foi o mais perto que Pritchard esteve da celebridade, mas, após Jolie (1991), mais um excelente álbum, sempre numa linha estética entre Lloyd Cole e The Smiths, a carreira de Pritchard foi recuando para a sombra.

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“Snibe”, dos Sunny Day Real Estate

Não há relação entre os Real Estate – nascidos em Ridgewood, New Jersey, em 2009 – e os Sunny Day Real Estate – fundados em 1992 em Seattle, Washington – excepto o ramo de actividade da mediação imobiliária. Enquanto os Real Estate militam no garage rock e se tornaram em “meninos queridos” da crítica, os Sunny Day Real Estate tiveram o infortúnio de ser catalogados no emo – um género que goza de escassa aprovação fora do meio adolescente e cujos nomes cimeiros poucos contributos trouxeram ao pop-rock – e foram rapidamente esquecidos.

A sua carreira conturbada também não ajudou a consolidar uma grande base de fãs: dissolveram-se em 1995, durante a gravação do segundo álbum, homónimo (por vezes designado como LP2). Dois dos membros – o baixista Nate Mendel e o baterista William Goldsmith – juntaram-se aos Foo Fighters, enquanto o principal dínamo criativo, o vocalista e guitarrista Jeremy Enigk lançou o primeiro álbum a solo. A banda foi reactivada em 1997, com songwriting e produção mais apurados, e gravaram How It Feels To Be Something On (1998) e The Rising Tide (2000). O segundo dá a ouvir a banda a atingir a perfeição, mas não teria continuidade, pois o colapso da sua editora, Time Bomb, acabou por levar a nova dissolução. “Snibe” é uma das canções que faz a glória de The Rising Tide.

“Auctioneers’s Song”, de Mark Eitzel

A visibilidade de Mark Eitzel está bem aquém das suas portentosas qualidades como songwriter, mas quando se ouvem as suas canções irredutivelmente amargas, auto-depreciativas, irónicas e parcialmente autobiográficas até pode concluir-se que é um prodígio que a sua carreira musical tenha sido tão longa e produtiva.

Após seis álbuns com os American Music Club (sete se contarmos com o álbum de estreia que Eitzel renegou), seguiu carreira a solo, plena de altos e baixos e contrariedades, e as parcerias com nomes mais sonantes não a ajudaram muito. A cumplicidade com Peter Buck, guitarrista dos REM, no quarto álbum a solo, West (1997), não produziu grandes resultados e, no ano seguinte, a aliança com James McNew (Yo La Tengo), Kid Congo Powers (Bad Seeds) e Steve Shelley (Sonic Youth) no álbum seguinte, com o pouco prático título Caught in a Trap and I Can’t Back Out ‘Cause I Love You Too Much, Baby (um verso de uma canção de Elvis Presley), também desiludiu.

Na verdade, após ter ouvido as misturas das canções gravadas com a banda, Eitzel descartou mais de metade e, não dispondo de orçamento para contratar músicos de estúdio, regravou-as só com voz e guitarra acústica. Deste percalço resultou um disco híbrido, com uma primeira metade acústica, intimista e pungente, e uma segunda metade eléctrica, rotineira e indistinta, o que faz lamentar que Eitzel não tenha regravado todas as canções sozinho.

“Auctioneer’s Song” faz parte da metade acústica e esboça, em poucas pinceladas, um quadro de anomia e desolação: “O boneco de neve está congelado/ E pouco ou nada sente/ As pessoas são como pregos num quadro/ Só querem ouvir a música/ Do tráfego que passa na rua/ Esvaziadas e ressequidas/ Pelo formaldeído// O leiloeiro/ No seu chapéu negro/ Diz que é tudo/ Tudo/ Tudo para ir”.

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“Dark Blue Day”, dos Straightener

Embora existam desde 1998 e tenham lançado nove álbuns de originais (e uma mão cheia de álbuns de compilações), os japoneses Straightener são quase desconhecidos no Ocidente. A banda começou como duo de guitarrista/vocalista + baterista, ganhou um baixista em 2003 e um segundo guitarrista em 2008 e pratica uma indie pop com influências de géneros musicais díspares. “Dark Blue Day”, do álbum Creatures (2010), revela-os numa faceta contemplativa, com a guitarra e o piano a criar um moto continuo sereno mas irresistível, a que a entrada das cordas aos 3’24 confere uma sublime melancolia.

“KC”, dos Matt Pond PA

Matt Pond PA é o nome colectivo que serve de fachada (quase transparente) ao cantor e guitarrista Matt Pond e a um elenco rotativo de músicos. A carreira dos Matt Pond PA dura desde 1998 e soma uma dúzia de álbuns e outros tantos EPs, contendo muitas dezenas de canções pop perfeitas que, infelizmente nunca lograram extravasar um círculo restrito de fãs. “KC” faz parte de Emblems (2004), o quinto álbum da banda.

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“Open/Close”, dos My Means

Os My Means são uma jovem banda de Osaka, Japão, que tem apenas um EP de tiragem limitada, That Was It (2015). Praticam uma pop que combina frescura e ingenuidade, ao estilo da indie pop mais naïve dos anos 90 com ocasionais excursões sónicas. “Open/Close” é uma canção de 2016 (disponibilizada apenas como download).

“Tailwhip”, dos Men I Trust

Os Men I Trust nasceram em 2014 em Montreal, Canadá, e têm por núcleo central Dragos Chiriac (teclados, vídeos), Jessy Caron (baixo, guitarra) e Emmanuelle Proulx (voz, guitarra). Após o álbum homónimo de estreia, lançaram em 2015 Headroom, preenchido com uma pop-soul-funk minimal, ultra-cool e ultra-aveludada.

“Tailwhip” é um pérola ultra-secreta, uma vez que só foi disponibilizada em formato físico sob a forma de cassette (os leitores mais novos poderão informar-se aqui sobre este primitivo dispositivo de armazenamento de música), que além de “Tailwhip” inclui cinco canções ao vivo e foi lançado no Cassette Store Day (sim, está em curso um revivalismo da cassette) de 2017, numa tiragem de apenas 100 (cem) exemplares.

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