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Duke Ellington
©DR Duke Ellington

Dez versões clássicas de “Caravan”

Foi em 1936 que surgiu uma composição pioneira na “contaminação” do jazz pelas “músicas do mundo”. O facto de os seus autores nada saberem de música árabe não impediu que se convertesse num dos mais populares standards do jazz.

Por José Carlos Fernandes
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“Caravan” é uma composição que se associa de imediato a Duke Ellington, mas não terá sido ele o seu iniciador, antes um dos esteios da sua orquestra, o trombonista Juan Tizol. A autoria de muitas composições de Ellington é nebulosa, pois o chefe da orquestra costumava tomar composições (ou apenas uma melodia ou um riff) esboçadas pelos seus músicos e dava-lhes nova forma, assumindo no processo a co-autoria.

Tizol não parece ter-se importado com a “apropriação” de Ellington, pois tinha a composição em tão escasso apreço que, pouco depois, cedeu a sua parte nos direitos de autor ao autor da letra, Irving Mills, por 25 (vinte e cinco!) dólares. Foi um negócio das Arábias para Mills, mas, quando “Caravan” ganhou popularidade, o letrista teve a hombridade de dar a Tizol uma percentagem dos royalties.

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Dez versões clássicas de “Caravan”

Barney Bigard

Ano: 1936
Álbum: The Duke’s Men (Columbia)

A primeira gravação da peça não foi realizada sob o nome de Ellington mas de Barney Bigard and his Jazzopaters, num single para a Variety, cuja etiqueta mostra que nessa altura a composição era creditada apenas a Tizol. Era então usual que sub-unidades da orquestra de Ellington gravassem sob o nome de outras vedetas da orquestra – é o caso do septeto liderado pelo clarinetista Barney Bigard que toca nesta sessão e em que estão presentes, além de Ellington e Tizol, Cootie Williams, Harry Carney, Billy Taylor e Sonny Greer. Algumas das sessões da década de 30 lideradas por “lugar-tenentes” do “exército ducal” foram compiladas em The Duke’s Men.

Duke Ellington

Ano: 1937
Álbum: The Chronological Duke Ellington and His Orchestra: 1937 (Classics)

Ellington não perdeu tempo e a 14 de Maio de 1937 fez o primeiro registo com a sua orquestra. “Caravan” ganhou lugar privilegiado no seu repertório, a ponto de a ter gravado uma centena de vezes nos 38 anos seguintes, a última das quais poucos meses antes da sua morte, em 1974. Note-se que a etiqueta do single original de 1937 continua a atribuir a autoria da peça apenas a Tizol.

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Thelonious Monk

Ano: 1955
Álbum: Plays Duke Ellington (Riverside)

Para lá de um estilo pianístico que deixava desconcertados os apreciadores de jazz mais conservadores, Thelonious Monk raramente tocava standards, sendo o seu repertório constituído quase exclusivamente por peças de sua lavra, também elas muito pouco convencionais. A conjugação destes factos ajuda a explicar as vendas modestas dos discos que gravou para a Prestige no início da década de 1950, pelo que quando firmou contrato com a Riverside, a editora delineou uma solução de compromisso: Monk poderia gravar álbuns nos moldes anteriores mas também teria de oferecer ao público algo mais acessível. Foi assim que surgiu o conceito de um álbum preenchido por composições bem conhecidas de Ellington, em que Monk tem a parceria de Oscar Pettiford (contrabaixo) e Kenny Clarke (bateria).

Claro que uma coisa era convencer Monk a gravar peças conhecidas, outra bem diversa seria fazê-lo pôr de parte o seu estilo idiossincrático – e ainda bem, pois esta “Caravan” subtilmente desconstruída é uma obra-prima.

Chico Hamilton

Ano: 1955
Álbum: The Original Chico Hamilton Quintet (World Pacific)

A versão de “Caravan” que o quinteto do baterista Chico Hamilton gravou ao vivo no clube The Strollers, em Long Beach, na Califórnia, não fica atrás da de Monk em originalidade e é bem mais “oriental”. O soberbo quinteto de Hamilton, que contava com Buddy Collette (flauta, clarinete, saxofone), Fred Katz (violoncelo), Jim Hall (guitarra) e Carson Smith (contrabaixo), tinha uma instrumentação invulgar e fazia dela um uso original, o que lhe confere um lugar ímpar no jazz da década de 1950.

A Pacific Jazz editou parte das sessões no The Strollers (as de Agosto de 1955) como lado B do álbum Chico Hamilton Quintet Featuring Buddy Colette (1956) e só em 1960 veio à luz a sessão de 11 de Novembro de 1955 com o título The Original Chico Hamilton Quintet. Em 2008, uma reedição da Fresh Sound reagrupou as sessões de Agosto e Novembro sob o título Live at the Strollers.

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Nat King Cole

Ano: 1956
Álbum: After Midnight (Capitol)

O trio de Nat King Cole desempenhou um papel inovador no jazz, mas o pianista depressa percebeu que era bem mais popular como cantor e, a partir de meados da década de 1940, deu outro rumo à sua carreira.

Quando Cole é acompanhado por orquestras de cordas extra-macias e o repertório se nutre de pop pode tornar-se demasiado dengoso e açucarado, mas After Midnight assenta em jazz standards e foi registado por um quarteto – John Collins (guitarra), Charlie Harris (contrabaixo) e Lee Young (bateria) – complementado por convidados de luxo como Willie Smith, Harry Edison, Stuff Smith e Juan Tizol, que, muito oportunamente, adiciona o seu trombone a “Caravan”, faixa que conta também com os bongos de Jack Costanzo.

Ella Fitzgerald

Ano: 1957
Álbum: Sings the Duke Ellington Songbook (Verve)

Este é um dos momentos altos da história do jazz: um álbum quádruplo (na edição original em vinil, triplo em CD) preenchido por repertório composto por Ellington ou pelo seu cúmplice Billy Strayhorn e que emparelha Ella no apogeu das suas capacidades vocais com uma orquestra de Ellington em excelente forma, apesar das mudanças de formação ocorridas nos 20 anos desde a primeira gravação de “Caravan” (Tizol não fazia já parte da banda).

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Dinah Washington

Ano: 1957
Álbum: The Swingin’ Miss D (EmArcy)

No mesmo ano surgiu uma versão de “Caravan” particularmente exuberante, por Dinah Washington e uma orquestra “galáctica” formada por jazzmen de primeira classe e arranjada por Quincy Jones. Dir-se-ia que a caravana deixou a aridez do deserto e atravessa um oásis luxuriante.

Art Blakey

Ano: 1962
Álbum: Caravan (Riverside)

A formação dos Jazz Messengers que gravou o álbum Caravan é vista como a mais apurada de quantas o baterista liderou na sua prolífica carreira: conta com Freddie Hubbard (trompete), Curtis Fuller (trombone), Wayne Shorter (saxofone), Cedar Walton (piano) e Reggie Workman (contrabaixo). Blakey, um baterista fogoso, apimentou o exotismo intrínseco da composição com várias intervenções suas a solo. O resultado é uma das versões mais escaldantes de “Caravan”.

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Freddie Hubbard

Ano: 1962
Álbum: The Artistry of Freddie Hubbard (Impulse!)

Nesse mesmo ano de 1962, Freddie Hubbard voltou a “Caravan” num disco em nome próprio, em que é acompanhado por Curtis Fuller (trombone), seu parceiro nos Jazz Messengers, e por John Gilmore (saxofone), Tommy Flanagan (piano), Art Davis (contrabaixo) e Louis Hayes (bateria).

Ellington/Mingus/Roach

Ano: 1962
Álbum: Money Jungle (Blue Note)

A associação de Ellington à sua formidável orquestra faz esquecer duas coisas: que ele também tem registos notáveis em pequenas formações e que foi um dos mais fulgurantes e originais pianistas de sempre. Este álbum registado a 17 de Setembro de 1962 por Ellington com dois outros gigantes – o contrabaixista Charles Mingus e o baterista Max Roach – é indispensável em qualquer discoteca de jazz e a sua versão de “Caravan” deixa bem patente a ousadia e inventividade do piano de Ellington.

Apesar de os três músicos nunca terem tocado juntos, a gravação foi realizada sem ensaio e Ellington limitou-se a fornecer aos seus parceiros um esquema básico de cada peça. Se tivesse sido meticulosamente composto e ensaiado durante um ano não resultaria melhor – é esta a magia do jazz...

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@William P. Gottlieb

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