10 discos de jazz que juntam Ocidente e Oriente

O jazz dos nossos dias está aberto às mais diversas influências e não só o Oriente e o mundo árabe têm sido inspiração para os jazzmen ocidentais como os músicos do Médio Oriente e Norte de África têm vindo a fundir as suas tradições com o jazz
Rabih Abou-Khalil
Rabih Abou-Khalil
Por José Carlos Fernandes |
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O clássico “Caravan” data de 1936 e o jazz clássico das décadas de 1950 e 1960 deixou-se inspirar por influências árabes e orientais (ver 10 temas de jazz das Arábias), mas foi a partir da década de 1980 que a mescla entre jazz e música do Médio Oriente e Norte de África entrou numa nova fase: o jazz de perfume vagamente arabizante deu lugar a uma verdadeira síntese de linguagens, alicerçada num profundo conhecimento das tradições do Oriente. Na música não há “Choque de Civilizações”.

10 discos de jazz que juntam Ocidente e Oriente

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Arabian Waltz (1996, Enja), de Rabih Abou-Khalil

Muitos portugueses terão descoberto o alaúdista libanês (radicado na Alemanha) através das suas colaborações com Ricardo Ribeiro, mas antes de se juntar ao fadista português, Abou-Khalil tinha já longo e admirável historial na síntese das tradições musicais do Oriente com o jazz, em formatos que vão do alaúde solo (Il Sospiro, de 2002) à big band (The Cactus of Knowledge, de 2001). Nas duas dúzias de discos que editou como líder, a formação raramente se mantém de disco para disco, embora alguns colaboradores o acompanhem ao longo de períodos prolongados.

No álbum Arabian Waltz o leque de influências alarga-se à música de câmara europeia, pela adição aos seus usuais colaboradores Michel Godard (tuba) e Nabil Khaiat (percussão), do Balanescu Quartet, o quarteto de cordas liderado pelo violinista romeno Alexander Balanescu, um grupo vocacionado para experiências transculturais. Como é usual nos discos de Abou-Khalil, todas as composições e arranjos são de sua autoria.

[“Arabian Waltz”, faixa de abertura do álbum homónimo]
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Blue Cairo (1996, Splasc(h)), pelo Carlo Actis Dato Quartet

O saxofonista e clarinetista italiano Carlo Actis Dato lidera vários grupos, sendo o quarteto aquele em que mais se deixa impregnar pelas “músicas do mundo”. Blue Cairo inclui uma composição homónima e um “Agadir Rap”, mas não se fica pelo Norte de África: há também conexões com a Costa do Marfim (“Abidjan”) e Nepal (“A Night in Katmandu”). O quarteto é formado por Piero Ponzo (saxofone e clarinetes), Enrico Fazio (baixo) e Fiorenzo Sordini (bateria).

[“Blue Cairo”, do álbum homónimo]
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Oriental Bass (1997, Enja) de Renaud Garcia-Fons

Renaud García-Fons é um sobredotado músico francês que extrai do seu contrabaixo de cinco cordas, com os dedos ou com o arco, uma paleta sonora que extravasa largamente as expectativas que associamos ao instrumento. A sua assombrosa técnica permite-lhe emular o oud árabe, a guitarra de flamenco, o violoncelo e o violino europeus, o rabab do Norte de África e uma gama de instrumentos de cordas friccionados do Médio Oriente (que por vezes são sobrepostos em gravações múltiplas) e a sua música acolhe influências de toda a bacia mediterrânica e de um Oriente que se estende até à Ásia Central. A versatilidade técnica e o ecletismo musical de Garcia-Fons estão sintetizadas na faixa de abertura do álbum Oriental Bass, em cujos seis minutos e meio estão compactados séculos de história e vastas áreas geográficas. Para este caleidoscópio sonoro contribuem o trombone de Yves Favre, as flautas de Chris Hayward, o acordeão de Jean-Louis Matinier, a guitarra flamenca de Vicente Pradal, o alaúde de Claire Antonini, o clavinet de Bruno Sansalone e as percussões de Rabah Khalfa, Jean-François Roger e Sam Schlamminger.

[“Oriental Bass”, faixa de abertura do álbum homónimo]
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Thimar (1998, ECM), de Anouar Brahem

O alaúdista Anouar Brahem nasceu na Tunísia e tem vivido entre o seu país natal e a França. Tem sido comparado a Rabih Abou-Khalil, pela sua síntese de jazz e tradição árabe, mas a sua música é mais meditativa e despojada do que a do alaúdista libanês. Desde 1991, com Barzakh, que grava regularmente para a ECM, com diferentes formações. Para o seu quinto álbum, Thimar, aliou-se a dois eminentes jazzmen britânicos, John Surman (saxofone soprano e clarinete baixo) e Dave Holland (contrabaixo).

[“Badhra”]
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Apti (2008, Innova), por Ruddresh Mahanthappa’s Indo-Pak Coalition

A inimizade figadal entre Índia e Paquistão não faz sentido para o saxofonista Ruddresh Mahanthappa (nascido nos EUA de pais emigrados da Índia) e o guitarrista Rez Abbasi (que nasceu no Paquistão e vive nos EUA desde os quatro anos) e certamente que não é necessário que o percussionista americano Dave Weiss intervenha como mediador. Como Mahanthappa, Abbasi e Weiss têm compromissos com muitos outros grupos, Apti é o único registo da Indo-Pak Coalition, mas quem se interesse pelos encontros Ocidente/Oriente encontrará muito mais material nas discografias enquanto líderes de Mahanthappa e Abbasi.

[“Adana”, uma composição de Apti, numa versão ao vivo no Festival de Jazz de Verona, Itália, Junho de 2009]
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Out of the Desert (2009, ACT), de Joachim Kühn/Majid Bekkas/Ramon López

A associação entre o pianista alemão Joachim Kühn, o tocador de oud e guimbri marroquino Majid Bekkas e o baterista espanhol Ramon López dura desde 2006 e já deu origem aos álbuns de estúdio Kalimba, Voodoo Sense (com o veterano Archie Shepp como convidado) e Chalaba e ao álbum ao vivo Out of the Desert Live (com a hr-Bigband, no Jazzfest de Berlim). Out of the Desert tem as participações especiais de vários músicos do Norte de África.

[“One Two Free”, com Joachim Kühn a acumular o piano com uma rara intervenção em saxofone alto]
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Silk Moon (2014, E-Motive), de Renaud Garcia-Fons & Derya Türkan

Para lá dos discos à frente do seu próprio ensemble e em solo absoluto, o contrabaixista Renaud Garcia-Fons tem-se desdobrado em colaborações com músicos das mais variadas procedências. O dueto com Derya Türkan, um tocador turco de kamanche (um instrumento de corda friccionada de origem persa, que se difundiu para a Turquia, Azerbaijão e Curdistão) deu origem ao álbum Silk Moon.

[Encore do concerto de apresentação do álbum Silk Moon, Studio de l’Ermitage, Paris, Novembro de 2014]

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Al Qantara (2015, Igloo), pelo Majid Bekkas Afro-Oriental Jazz Trio

“Al Qantara” significa, em árabe, “a ponte” (é também essa a origem do nome da lisboeta Alcântara) e são pontes que este disco ergue entre o universo do jazz e as tradições de África e do Oriente. E fá-lo com admirável economia de meios: Majid Bekkas, em oud (o ancestral árabe do alaúde), guembri (um parente grave do oud), kalimba e voz, Manuel Hermia em bansuri (uma flauta indiana), sax soprano e clarinete, e Khalid Kouhen, em percussões africanas e tabla. As tonalidades dominantes são ocres e vermelhos desérticos, numa variedade de colorido surpreendente, e por vezes faz pensar em Rão Kyao, na sua fase oriental, mas em bom.

[“Sadi Ali ben Hamdouch”, uma composição do álbum Al Qantara, numa versão ao vivo
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Crisis (2015, Pi Recordings), por Amir ElSaffar Two Rivers Ensemble

Há duas formas de interpretar a expressão “two rivers”: por um lado, podem ver-se nela o Tigre e o Eufrates, os dois grandes rios do Iraque, que é a terra do pai do trompetista norte-americano Amir ElSaffar. Por outro, o rio do jazz e o rio da música clássica iraquiana, que confluem na música do Two Rivers Ensemble. Após os excelentes álbuns Two Rivers (2007) e Inana (2011), ElSaffar ultrapassou-se com Crisis, um disco assombrado pelas convulsões que perturbam o Próximo Oriente e, em particular o Iraque (há faixas com títulos como “The Great Dictator”, “The People” e “Flyover Iraq”).

ElSaffar estudou em Bagdad a maqam, música tradicional árabe, que, como o jazz, possui uma componente improvisativa, e o santur, a variante iraquiana de um instrumento de cordas percutidas difundido da Turquia à Índia e que é o instrumento central da maqam iraquiana, e incorporou esses conhecimentos e sensibilidades na música do Two Rivers Ensemble, que é formado por ElSaffar (trompete, santur, voz), Ole Mathisen (saxofone), Tareq Abboushi (buzuq, um parente oriental do bouzouki grego), Zafer Tawil (oud e percussão), Carlo DeRosa (contrabaixo) e Nasheet Waits (bateria).

[Apresentação do álbum Crisis]
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The Roc (2017, Edition Records), de Daniel Herskedal

Seria mais expectável que fossem músicos de países mediterrânicos a estabelecer laços com o Oriente, mas a paixão não conhece fronteiras e o jovem tubista norueguês Daniel Herskedal tem vindo a manifestar um fascínio cada vez maior pelo Oriente.

Essa influência, que já era audível na faixa-título de Slow Eastbound Train (um dos discos-revelação de 2015), tornou-se mais notória e alastrou a boa parte de The roc: o comboio atravessa agora o Próximo Oriente, o que é explicitado em títulos como “Kurd, Bayat, Nahawand to Kurd” (com irresistível poder hipnótico), “Hijaz Train Station” (estático e lamentoso), ou “Thurayya Railways” (a peça mais dramática de um disco em que domina a serenidade). Convirá esclarecer que o “roc” do título do álbum não tem a ver com o “rock”, mas com o “pássaro roca” da mitologia persa, uma gigantesca ave de rapina capaz de arrebatar um boi pelos ares.

Daniel Herskedal volta a demonstrar o seu espantoso virtuosismo na tuba (mas colocando-o sempre o serviço da música) e volta a ter a companhia de Eyolf Dale (piano) e Helge Norbakken (percussão). A orquestra de cordas Trondheim Soloists, que participava em Slow Eastbound Train, deu lugar a uma textura mais ligeira, só com viola (Bergmund Waal Skaslien) e violoncelo (Svante Henryson).

[“Hijaz Train Station”, uma composição de The Roc, numa versão ao vivo no Kings Place, Londres, a 5 de Abril de 2017; a formação é a que gravou The Roc, com John Ehde (violoncelo) no lugar de Svante Henryson]

Jazz para todos

Chet Baker & Gerry Mulligan Los Angeles 1952
©William Claxton
Música, Jazz

Sete clássicos do cool jazz

Haverá música mais “hot” do que o jazz? Por oposição à música clássica, em que a partitura foi maduramente reflectida e se espera que o intérprete a siga escrupulosamente, o jazz é o reino das reacções instantâneas e espontâneas, sem tempo para reflexão, da entrega total dos músicos, dos solos abrasadores, da sinergia emocional entre os membros da banda que pode chegar ao paroxismo. O termo “hot jazz” foi sinónimo do jazz tradicional nascido em New Orleans, e quando, em 1931, um grupo de aficionados parisienses daquela música proveniente do outro lado do Atlântico decidiu formar um clube para a promover, escolheu chamar-se Hot Club de France. Quando, em 1950, um grupo de lisboetas entusiastas da “música hot” formalizou um clube com o mesmo fito, não teve de discutir muito para a baptizar como Hot Clube de Portugal. Mas nada no mundo é a preto e branco e, no final dos anos 40, houve músicos que descobriram que se se baixasse a temperatura do jazz este ganhava novas propriedades. E o jazz assumiu tempos mais lentos, opôs a descontracção e o distanciamento à tensão e frenesi do bebop, ganhou arranjos elaborados por influência da música clássica (que depois levariam à chamada Third Stream) e privilegiou a elegância e a contenção. Aviso: não vai ouvir nada disto no festival EDP cool jazz.

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Hot Club Portugal - Banda
©DR
Bares

Os oito melhores sítios para ouvir jazz em Lisboa

Encaremos isto como uma espécie de jukebox, mas em vez de chegarmos a um bar e metermos uma moeda no disco que queremos pomos antes uma moeda no bar que queremos, pedimos uma bebida e esperamos que a nossa aposta corra bem ao nível da escolha musical. Isto partindo do pressuposto que não vamos às cegas, que sabemos o que queremos a invadir-nos os tímpanos e que, por muito que não seja a música que queríamos naquela altura, não andará longe. Os bares de jazz ocupam esse lugar, querer Chet Baker e levar com Miles Davis, querer Duke Ellington e levar com Coltrane. Nada mau. Assim se espera nestes que são os melhores sítios para ouvir jazz em Lisboa. 

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