Sete clássicos do cool jazz

O jazz começou por ter fama de “hot”, mas no final dos anos 1940 nasceu um cool que nada tem a ver com a música que hoje apregoa esse título

©William ClaxtonChet Baker & Gerry Mulligan Los Angeles 1952

Haverá música mais “hot” do que o jazz? Por oposição à música clássica, em que a partitura foi maduramente reflectida e se espera que o intérprete a siga escrupulosamente, o jazz é o reino das reacções instantâneas e espontâneas, sem tempo para reflexão, da entrega total dos músicos, dos solos abrasadores, da sinergia emocional entre os membros da banda que pode chegar ao paroxismo. O termo “hot jazz” foi sinónimo do jazz tradicional nascido em New Orleans, e quando, em 1931, um grupo de aficionados parisienses daquela música proveniente do outro lado do Atlântico decidiu formar um clube para a promover, escolheu chamar-se Hot Club de France. Quando, em 1950, um grupo de lisboetas entusiastas da “música hot” formalizou um clube com o mesmo fito, não teve de discutir muito para a baptizar como Hot Clube de Portugal. Mas nada no mundo é a preto e branco e, no final dos anos 40, houve músicos que descobriram que se se baixasse a temperatura do jazz este ganhava novas propriedades. E o jazz assumiu tempos mais lentos, opôs a descontracção e o distanciamento à tensão e frenesi do bebop, ganhou arranjos elaborados por influência da música clássica (que depois levariam à chamada Third Stream) e privilegiou a elegância e a contenção. Aviso: não vai ouvir nada disto no festival EDP cool jazz.

Sete clássicos do cool jazz

“Boplicity”, por Miles Davis

Ano: 1949

Em Janeiro e Abril de 1949 e Março de 1950, um noneto de luxo, liderado por um trompetista de vinte e poucos anos que ainda não gravara nada como líder, realizou três sessões em Nova Iorque que a Capitol editou em quatro singles de 78 rpm (o LP de 33 rpm estava então por inventar) e que, em 1957, foram compilados no LP The Birth of the Cool.

O título, que pretende fazer história, ajudou a dar a estas sessões um cunho lendário, que, se por um lado, é merecido, por outro não pode deixar-nos alheios ao facto de este som ter antecedentes (muito remotos) em Bix Beiderbecke e (mais próximos) na orquestra de Claude Thornhill. Na verdade, três peças essenciais de The Birth of the Cool provinham da orquestra de Thornhill: o saxofonista alto Lee Konitz, o saxofonista barítono e arranjador Gerry Mulligan e o arranjador Gil Evans. Entre os notáveis e futuros notáveis que participaram nestas três sessões estavam Kai Winding e J.J. Johnson (trombone), Gunther Schuller (trompa), Al Haig e John Lewis (piano), Max Roach e Kenny Clarke (bateria).

O noneto de Miles Davis teve uma existência muito intermitente entre 1948 e 1951 e deu poucos concertos, mas mudou a história do jazz.

[Composição de Cleo Henry (um pseudónimo para o trabalho conjunto de Miles Davis e Gil Evans) incluída em The Birth of the Cool]

“Bernie’s Tune”, por Gerry Mulligan & Chet Baker

Ano: 1952

Em 1952, Gerry Mulligan trocou a Costa Leste pela Costa Oeste: estabeleceu-se em Los Angeles e associou-se a outro jovem trompetista, então com 23 anos, chamado Chet Baker, com quem formou um quarteto que tinha a particularidade – para o uso da época – de não incluir piano, tendo os dois sopros apenas o suporte de contrabaixo e bateria. O quarteto Mulligan/Baker teve vida curta – terminou em Junho de 1953, quando Mulligan foi preso por posse e consumo de estupefacientes – mas deixou uma forte influência no jazz e Mulligan replicaria, com sucesso, a fórmula 2 sopros + contrabaixo + bateria com outros músicos.

[Standard de Leiber/Miller/Stoller, com Bob Whitlock (contrabaixo) e Chico Hamilton (bateria), gravada a 16 de Agosto de 1952 em Los Angeles]

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“Bunny”, por Shorty Rogers

Ano: 1953

Nem todo o cool jazz estava associado à Costa Oeste e nem todo o jazz feito na Costa Oeste era cool, mas há uma forte sobreposição entre cool jazz e West Coast jazz. Uma das figuras cimeiras do cool da Costa oeste foi o trompetista Shorty Rogers, que passara pelas orquestras de Woody Herman e Stan Kenton antes de iniciar carreira como líder. Desta experiência orquestral, Rogers herdou o gosto por arranjos sofisticados para formações alargadas, bem patentes nos seus primeiros discos como líder no início da década de 1950. É o caso de álbum Shorty Rogers & His Giants, gravado por um noneto de luxo de que faziam parte Milt Bernhart (trombone), John Graas (trompa), Art Pepper e Jimmy Giuffre (dois saxofonistas que também se tornariam em figuras centrais do West Coast jazz), Hampton Hawes (piano), Curtis Counce (contrabaixo) e Joe Mondragon (bateria).

[Composição de Shorty Rogers, no álbum Shorty Rogers & His Giants (RCA), gravado em Hollywood em 1953]

“Nobody Else But Me”, por Stan Getz

Ano: 1954

O saxofonista Stan Getz foi uma das figuras de proa do cool jazz, antes de, no início dos anos 60, ter enveredado pela fusão de jazz e bossa nova (que, apesar de provir de um país tropical, tinha influências de cool jazz) e de na segunda metade da década de 60 ter tomado outros rumos.

Entre a sua rica e variada discografia dos anos 50, está Stan Getz & The Cool Sounds, resultante de três sessões em 1953-55, onde é patente a faceta mais suave, descontraída, melodiosa e cool de Getz.

[Standard de Jerome Kern/Oscar Hammerstein II, no álbum Stan Getz & The Cool Sounds (Verve), gravado em Los Angeles em 1954, com Jimmy Rowles (piano), Bob Whitlock e Max Roach (bateria)]

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“Softly, as in a Morning Sunrise”, pelo Modern Jazz Quartet

Ano: 1955

Em 1946, quatro elementos da orquestra de Dizzy Gillespie – o vibrafonista Milt Jackson, o pianista John Lewis (um dos músicos e arranjadores das sessões de The Birth of the Cool), o contrabaixista Ray Brown e o baterista Kenny Clarke – juntaram-se, sob o nome de Milt Jackson Quartet, para fazer música que estava nos antípodas do jazz escaldante do seu “patrão”. Brown foi substituído por Percy Heath em 1952 e com a entrada de Connie Kay para o lugar de Clarke, ficou definida a formação histórica do Modern Jazz Quartet (designação adoptada em 1952), cujo primeiro álbum seria Concorde, gravado em Julho de 1955.

O Modern Jazz Quartet desafiava os padrões do jazz em mais que um aspecto: dispensava sopros, combinava piano e vibrafone, assumia uma toada contida e elegante e incorporava nítidas influências clássicas, nomeadamente a escrita fugada, audível logo no início da versão de “Softly, as in a Morning Sunrise” incluída em Concorde.

[Standard de Sigmund Romberg/Oscar Hammerstein II, no álbum Concorde (Prestige)]

“Palo Alto”, por Lee Konitz & Jimmy Giuffre

Ano: 1959

Não é de estranhar que o saxofonista alto Lee Konitz (n. 1927), que passou pela orquestra de Claude Thornhill em 1947 e pelo noneto de Miles Davis em 1948-50, se tenha tornado numa figura central do cool jazz, influenciando saxofonistas como Paul Desmond e Art Pepper. Na sua extraordinariamente longa carreira (e ainda está no activo), Konitz experimentou diversos géneros e formatos e trabalhou com jazzmen das mais diversas estirpes – uma das suas parcerias mais aclamadas foi a que estabeleceu com outro nome central do cool jazz, o saxofonista Jimmy Giuffre. Os dois lideraram um octeto, de que faziam parte Hal McKusick, Ted Brown e Warne Marsh (saxofones), um então ainda pouco conhecido Bill Evans (piano), Buddy Clark (contrabaixo) e Ronnie Free (bateria).

[Composição de Lee Konitz, no álbum Lee Konitz Meets Jimmy Giuffre (Verve)]

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“Take Five”, por Dave Brubeck

Ano: 1959

O pianista californiano Dave Brubeck, que tinha sólida formação clássica (fora aluno de Darius Milhaud) e já liderara um trio e um octeto que exploravam territórios pouco usuais no jazz de então, formou em 1951 um quarteto com o saxofonista alto Paul Desmond, que ganhou projecção (nomeadamente pelos seus concertos pioneiros em universidades) e valeu a Brubeck ser escolhido para a capa da revista Time, em 1954. Os postos de baterista e contrabaixista foram sendo ocupados por vários músicos e a formação clássica do Dave Brubeck Quartet, com Eugene Wright no contrabaixo e Joe Morello na bateria, só cristalizou em 1959 (Morello entrara em 1956 e Wright participara numa tournée em 1958 mas só “entrou para o quadro” em 1959).

Foi em Dezembro de 1959 que o quarteto gravou o álbum Time Out, que teve um sucesso extraordinário – foi o primeiro álbum de jazz a vender mais de um milhão de exemplares e o single “Take Five” vendeu um número similar de cópias. A sonoridade aveludada, o controlo perfeito e a elegância sóbria de Paul Desmond tornaram-se num modelo do saxofone cool.

[Composição de Paul Desmond, no álbum Time Out (Columbia)]

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