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©DR [O "A Train" nos nossos dias]

Dez versões clássicas de “Take the A Train”

Uma partitura resgatada ao cesto de papéis tornou-se no indicativo da orquestra de Duke Ellington e num dos mais famosos temas de jazz de sempre.

Por José Carlos Fernandes
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No final de 1938, quando de um concerto em Pittsburgh, Duke Ellington foi abordado por um jovem arranjador e compositor local chamado Billy Strayhorn, que lhe mostrou algum do seu trabalho. Ellington ficou bem impressionado e combinou um encontro com ele em Nova Iorque, após o final da tournée – entre as instruções que deu a Strayhorn sobre como chegar ao local de encontro, estava a de tomar a recém-inaugurada linha de metropolitano conhecida como “A Train”, que ligava Brooklyn a Harlem. Strayhorn acabou por ser contratado por Ellington e tornou-se no seu “braço direito” (nas palavras do próprio Ellington) e deu o nome de “Take the A Train” a uma das composições em que começou a trabalhar em 1939.

Em 1940, a ASCAP (American Society of Composers, Authors and Publishers), a sociedade de autores em que Ellington estava inscrito, decidiu duplicar as tarifas de licenciamento da música para radiodifusão e as estações de rádio ripostaram banindo das ondas hertzianas os autores publicados pela ASCAP e criando uma sociedade de autores rival, a BMI. O braço de ferro durou 11 meses e impôs uma grande pressão sobre os músicos, que, naquela época, obtinham muitos dos seus rendimentos das licenças de radiodifusão. A orquestra de Ellington viu-se obrigada a recorrer a composições de autores não inscritos na ASCAP, como Mercer Ellington (filho de Duke) e de Strayhorn. E foi assim que “Take the A Train”, que Strayhorn chegara a atirar para o cesto dos papéis, por entender que fazia lembra o estilo de Fletcher Henderson (então o grande rival de Ellington), tomou o lugar de “Sepia Panorama”, de Ellington, como indicativo da orquestra. E foi tão bem aceite que, quando o diferendo entre a ASCAP e as estações de rádio foi sanado (ASCAP fez uma proposta de aumento mais moderada), “Take the A Train” continuou a desempenhar essa função.

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Dez versões clássicas de “Take the A Train”

1. Duke Ellington

Ano: 1941

A primeira gravação de “Take the A Train” foi realizada a 15 de Fevereiro de 1941 para a RCA Victor. Os solos de trompete – primeiro com surdina, depois sem ela – são de Ray Nance.

2. Dave Brubeck

Ano: 1954
Álbum: Jazz Goes to College (Columbia)

No início da década de 1950, o jazz ia, pouco a pouco, ganhando respeitabilidade e o quarteto do pianista Dave Brubeck começou a actuar num meio até então fechado ao jazz: as universidades. Através de acordos com associações de estudantes, o seu quarteto foi tournées resultaram discos históricos como Jazz at Oberlin e Jazz at the College of the Pacific, ambos de 1953, e Jazz Goes to College, de 1954. Esta versão de “Take the A Train”, gravada na Universidade do Michigan, com Paul Desmond (saxofone alto), Bob Bates (contrabaixo) e Joe Dodge (bateria), provém do terceiro disco desta série.

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3. Clifford Brown & Max Roach

Ano: 1955
Álbum: Study in Brown (Mercury)

O electrizante quinteto co-liderado pelo trompetista Clifford Brown e pelo baterista Max Roach – com Harold Land (saxofone), Richie Powell (piano) e George Morrow (contrabaixo) – tomou “Take the A Train” e adaptou-a ao seu fogoso idioma hard bop. Note-se como a abertura e o fecho emulam magistralmente o ambiente “ferroviário”.

4. Betty Roché

Ano: 1955
Álbum: Take the A Train (Bethlehem)

Betty Roché teve forte vínculo com a orquestra de Ellington nos anos 40, cantando “Take the A Train” no filme Reveille With Beverly (1943) e a suíte “Black, Brown and Beige” quando da sua estreia no Carnegie Hall, em 1943. Porém, destas colaborações não ficaram registos fonográficos, de forma que só em 1951, após um interregno na carreira, Roché voltou a associar-se a Ellington, gravando “Take the A Train” para o álbum Ellington Uptown.

Esta versão provém de um álbum de Roché em nome próprio, Take the A Train, o primeiro dos três que gravou, antes de pôr termo à carreira musical em 1961, e em que é acompanhada por Conte Candoli (trompete), Eddie Costa (vibrafone), Donn Trenner (piano), Whitey Mitchell (contrabaixo) e David Williams (bateria).

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5. Ella Fitzgerald & Duke Ellington

Ano: 1957
Álbum: Ella Fitzgerald Sings the Duke Ellington Song Book (Verve)

Ao contrário dos outros “song books” por Ella Fitzgerald, em que todas as composições são do autor em destaque, no Duke Ellington Song Book há também peças que ficaram associadas à orquestra de Ellington mas não são do seu líder – é o caso de “Take the A Train”. A faixa soma à formidável secção de trompetes da orquestra – Clark Terry, Ray Nance, Cat Anderson e Willie Cook – o convidado Dizzy Gillespie e inclui uma masterclass em scat singing.

6. Clark Terry

Ano: 1957
Álbum: Duke With a Difference (Riverside) Quando se olha para o repertório – “C Jam Blues”, “In a Sentimental Mood”, “Cotton Tail”, “Just Squeeze Me”, “Mood Indigo”, “In a Mellow Tone”, “Come Sunday” e “Take the A Train” – e para os músicos – Quentin Jackson, Britt Woodman, Johnny Hodges, Paul Gonsalves, Jimmy Woode, Sam Woodyard, Billy Strayhorn – seria legítimo pensar que se trataria de um álbum da orquestra de Duke Ellington, daí a advertência feita no título: a “diferença” é que esta uma sessão com composições de Ellington e alguns músicos de Ellington não conta com o Duke e é liderada pelo trompetista Clark Terry, que foi um dos principais elementos da sua orquestra entre o final dos anos 40 e 1959.

Neste álbum, os arranjos são repartidos entre Terry e Mercer Ellington.

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7. Terry Gibbs

Ano: 1957
Álbum: Plays the Duke (EmArcy) Após o histórico concerto no festival de jazz de Newport, em 1956, Ellington voltara à ribalta, o que ajuda a explicar que o vibrafonista Terry Gibbs tenha gravado um álbum integralmente preenchido com material de Ellington (ou da sua órbita). O álbum tem duas peculiaridades: a presença de um acordeão (Pete Jolly), instrumento então pouco comum no meio jazzístico, um contrabaixo repartido entre Leroy Vinnegar e um desconhecido de 22 anos chamado Gary Peacock, que haveria de tornar-se num nome cimeiro do jazz. A equipa completa-se com o baterista Gary Frommer.

8. Anita O'Day

Ano: 1958
Álbum: Anita Sings the Winners (Verve)

Como o título indica, o conceito deste álbum era uma selecção dos grandes êxitos que dominavam os tops da época – quando a pop ainda não destronara o jazz no gosto das massas. “Take the A Train” é a faixa de abertura e tem arranjos e direcção orquestral de Marty Paich. Que o critério da popularidade é falacioso atesta-o que façam parte do programa composições imortais como “A Night in Tunisia”, “Body and Soul”, “My Funny Valentine” ou “Tenderly”, e peças popularuchas como “Peanut Vendor”, versão inglesa de “El Manisero”, uma cançoneta do cubano Moisés Simon, que, vendera um milhão de partituras e, em 1930, na versão de Don Azpiazú, se tornara no primeiro single (então em 78 rpm) de música cubana a vender um milhão de exemplares.

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9. Billy Strayhorn

Ano: 1961
Álbum: The Peaceful Side (United Artists, reed. Solid State)

Strayhorn ficou umbilicalmente ligado à orquestra de Ellington até à morte, em 1967, com 51 anos, e poucos discos gravou em nome próprio. Um deles é The Peaceful Side, registado em Paris com Strayhorn no piano e acompanhamento discreto de contrabaixo e quarteto de cordas.

10. Duke Ellington

Ano: 1963
Álbum: Jazz Violin Session (Reprise) Este é um álbum invulgar e pouco conhecido na discografia de Duke Ellington, dando-o a ouvir num contexto de pequena formação e com dois convidados, o francês Stéphane Grappelli e o dinamarquês Svend Asmussen, mestres do violino e da viola, respectivamente. O trio de solistas das cordas completa-se com Ray Nance, que, na orquestra de Ellington, se desdobrava entre o violino e a trompete. O combo inclui ainda Buster Cooper (trombone), Russel Procope e Paul Gonsalves (saxofones), Ernie Sheppard (contrabaixo) e Sam Woodyard (bateria), com Duke Ellington e Billy Strayhorn a alternar no piano. A gravação foi realizada em Paris em 1963, mas só foi editada 13 anos depois.

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