Nove bandas sonoras originais por músicos de jazz

Quando o jazz era um género verdadeiramente popular – há mais de meio século – houve realizadores de renome que recorreram a músicos da vanguarda do jazz de então para providenciar a banda sonora dos seus filmes.

©DR

Apesar da proliferação de festivais de jazz e do sucesso planetário de cantores pop que se apresentam sob o rótulo de “jazz”, o género está hoje longe de desfrutar da popularidade que atingiu na década de 1950 e nos primeiros anos da década de 1960. A prova disso é que hoje o cinema mainstream não corre o risco de ter como banda sonora jazz “puro e duro”. Na selecção que se segue privilegiam-se as bandas sonoras originais compostas e executadas por músicos de jazz.

Nove bandas sonoras originais por músicos de jazz

Sweet Smell of Success, por Chico Hamilton

Título português: Mentira Maldita 

Ano: 1957

Realizador: Alexander McKendrick

Na verdade, a banda sonora de Sweet Smell of Success tem responsabilidades partilhadas: inclui música para orquestra, de sabor jazzístico, composta por Elmer Bernstein e temas de jazz tocados pelo quinteto do baterista Chico Hamilton, que funcionam como música diegética (com correspondência na acção) nas cenas do filme que decorrem num nightclub – em 1958, a Decca editá-las-ia em álbuns separados.

[“Goodbye Baby”, pelo Chico Hamilton Quintet]

A opção pelo quinteto de Chico Hamilton é ousada, pois o grupo tinha uma sonoridade pouco comum, em parte devido à sua insólita formação (para os padrões da época) com clarinete (Paul Horn), guitarra (John Pisano), violoncelo (Fred Katz) e contrabaixo (Carson Smith) e bateria.

O filme, não sendo um film noir, contém muitos dos ingredientes do género e tem Burt Lancaster e Tony Curtis nos papéis principais.

[Cena no clube de jazz, com música ao vivo do Chico Hamilton Quintet, que aparece como ele mesmo]

Ascenseur por l’Échafaud, de Miles Davis

Título português: Fim-de-semana no Ascensor

Ano: 1958

Realizador: Louis Malle

Em Setembro de 1957, Miles Davis estava a tentar formar um novo grupo, após a dissolução do seu quinteto com John Coltrane. A convite de um produtor francês, aceitou actuar em Paris, acompanhado pelos músicos franceses Barney Wilen (saxofone), René Urtreger (piano) e Pierre Michelot (contrabaixo) e pelo expatriado americano Kenny Clarke (bateria), pioneiro do bebop e um velho conhecido de Miles. O realizador Louis Malle, instigado pelo seu assistente Jean-Louis Rappeneau (talvez inspirado pela estreia, poucos meses antes, de Sait-on Jamais, de Roger Vadim, com banda sonora de John Lewis e do Modern Jazz Quartet), propôs a Miles Davis compor música para o film noir Ascenseur pour l’Échafaud. A sessão de gravação realizou-se na noite de 4 para 5 de Dezembro, sem trabalho preparatório, com o grupo a improvisar a partir de vagas indicações de Miles, enquanto eram projectados excertos do filme. O resultado foi uma das mais célebres associações entre jazz e cinema.

O álbum com a banda sonora foi editado em 1958 pela etiqueta francesa Fontana. O filme, o primeiro de Louis Malle (1932-1995) converteu-se num clássico e deu novo impulso à até então discreta carreira de Jeanne Moreau (1928-2017), que se tornou numa das divas da Nouvelle Vague.

[“Générique”]

Publicidade

Shadows, por Charles Mingus

Título português: Sombras

Ano: 1959

Realizador: John Cassavetes

Esta é uma banda sonora com uma história atribulada. O filme – a primeira longa-metragem de John Cassavetes – foi rodado em 1957 e pré-estreado em 1958. Porém, a maior parte da música que o contrabaixista Charles Mingus propôs tinha demasiada “personalidade” para funcionar como fundo sonoro (é preciso não esquecer que as qualidades que se pedem a uma banda sonora são bem diversas da que se pede a uma música “autónoma”) e Cassavetes não estava satisfeito com a primeira versão do filme que montou e apresentou a um público seleccionado. As reacções negativas do público deste visionamento convenceram Cassavetes a rodar cenas extra e a remontar o filme, suprimindo a maior parte da música de Mingus e colocando em seu lugar música composta por Shafir Hadi, saxofonista do grupo de Mingus. A nova versão de Shadows estreou comercialmente em 1959 e Mingus reciclaria parte do material da banda sonora para o seu repertório.

[“Self-Portrait in Three Colors”, uma das peças gravadas para a banda sonora da primeira versão de Shadows, sobreposta a excertos do filme. Os músicos são Willie Dennis (trombone), Booker Ervin e Shafi Hadi (saxofones), Horace Parlan (piano), Charles Mingus (contrabaixo) e Dannie Richmond (bateria)]

Des Femmes Disparaissent, por Art Blakey & The Jazz Messengers

Título português: Sem tradução

Ano: 1959

Realizador: Édouard Molinaro

A banda sonora de Des Femmes Disparaissent, um film noir francês que tem Marselha por cenário, saiu em disco, na editora francesa Fontana, em 1958, ainda antes da estreia comercial do filme, e é um dos álbuns dos Jazz Messengers que passaram despercebidos (para o que terá contribuído a hiperactividade do grupo nesta época, com seis álbuns lançados em 1957 e dois em 1958). As composições são creditadas a Blakey e ao saxofonista Benny Golson (é mais provável que sejam do segundo, que era, à data, o compositor de serviço e director musical dos Jazz Messengers) e a banda conta ainda com Lee Morgan (trompete), Bobby Timmons (piano) e Jymie Merritt (contrabaixo).

[Três faixas da banda sonora: aos 0’00 “Blues pour Doudou”, aos 3’17 “Blues pour Marcel”, aos 7’38 “Blues pour Vava”]

Publicidade

Odds Against Tomorrow, pelo Modern Jazz Quartet

Título português: Homens no Escuro

Ano: 1959

Realizador: Robert Wise

Odds Against Tomorrow foi a segunda experiência do pianista John Lewis e do seu Modern Jazz Quartet nas bandas sonoras de filmes – antes tinham providenciado a música para Sait-on Jamais (1957), de Roger Vadim, de que resultou o álbum No Sun in Venice (replicando o título do filme no mercado anglo-saxónico).

Para Odds Against Tomorrow, Lewis, que compôs e arranjou toda a música, contou, além do Modern Jazz Quartet (ou seja o vibrafonista Milt Jackson, o contrabaixista Percy Heath e o baterista Connie Kay), com uma orquestra de 22 elementos, que incluía Bill Evans e Jim Hall. A banda sonora foi editada em 1959 pela United Artists e, três meses depois da gravação da banda sonora, realizada em Julho de 1959, o Modern Jazz Quartet regravaria algumas das peças da banda sonora, agora sem os músicos adicionais, no álbum Music from Odds Against Tomorrow, que seria editado ainda nesse ano, também pela United Artists.

Em 1959, não era invulgar um film noir de Hollywood ter jazz como banda sonora, mas o que nunca se tinha visto era um film noir com um negro (Harry Belafonte) no papel principal. Aos poucos, as personagens afro-americanas foram ganhando espaço no cinema americano, mas o jazz – quer fosse feito por negros ou por brancos – foi desaparecendo das bandas sonoras.

[Excerto da banda sonora]

Anatomy of a Murder, por Duke Ellington

Título português: Anatomia de um Crime

Ano: 1959

Realizador: Otto Preminger

Anatomy of a Murder é um filme de tribunal com James Stewart no papel de advogado de defesa de um suspeito de homicídio, num caso que envolve também a violação da mulher do alegado homicida – um assunto que, até então, não tinha sido tratado de forma tão explícita pelo cinema de Hollywood. A música de Duke Ellington já tinha surgido em vários filmes, mas de forma diegética – isto é, como música que é tocada “em cena” – mas esta foi a sua primeira banda sonora (Ellington teria segunda experiência com Paris Blues (1961), que lhe valeria uma nomeação para um Oscar).

As composições são de Billy Strayhorn e Duke Ellington, a execução é da orquestra de Ellington (onde alinhavam solistas excepcionais como Cat Anderson, Clark Terry, Ray Nance, Johnny Hodges, Jimmy Hamilton, Paul Gonsalves e Harry Carney), e o álbum com a banda sonora foi editado pela Columbia também em 1959.

No filme, Ellington tem um pequeno papel como proprietário de um bar e é ele que toca realmente nos trechos em que a personagem de James Stewart se senta ao piano.

[Tema principal]

Publicidade

Smog, por Chet Baker & Piero Umiliani

Titulo português: Um Italiano na América

Ano: 1962

Realizador: Franco Rossi

Esta é uma situção de fronteira, já que Piero Umiliani (1926-2001), o compositor da banda sonora, não era um músico de jazz – a sua especialidade eram as bandas sonoras para filmes, de que compôs uma centena e meia (estreou-se em 1954, num documentário dos irmãos Taviani). Mas não só a música de Smog é 100% jazzística como dá especial destaque a um expressivo trompetista, Chet Baker, que, por estes anos, se radicara em Itália e já colaborara com Umiliani nas bandas sonoras de Audace Colpo dei Soliti Ignoti (1959), de Nanni Loy, Urlatori Alla Sbarra (1960), de Lucio Fulci, e ainda iria gerar a música para Intrigo a Los Angeles (1964), de Romano Ferrara. Algumas faixas da banda sonora de Smog contam também com a voz de Helen Merrill.

[“Tension”]

Knife in the Water, por Krzysztof Komeda

Título português: A Faca na Água

Ano: 1962

Realizador: Roman Polanski

A estreia de Polanski na longa-metragem, que lhe valeu uma nomeação para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, é usualmente conhecido pelo seu título inglês, já que o original Nóz w Wodzie desencoraja os que não dominam a língua polaca.

O pianista Krzysztof Komeda, que fora pioneiro na introdução das novas linguagens do jazz na Polónia, no final da década de 1950, foi o autor da banda sonora, gravada por Komeda com o saxofonista sueco Bernt Rosengren e músicos não-identificados. Komeda já tinha tido experiência neste domínio, em 1960, com filmes de Andrzej Wajda e Janusz Morgenstern, e a frutuosa associação entre Polanski prosseguiria aos filmes Cul-de-Sac (1966, O Beco), The Fearless Vampire Killers (1967, Por Favor Não Me Morda o Pescoço) e Rosemary’s Baby (1968, A Semente do Diabo).

[“Ballad for Bernt”]

Publicidade

Last Tango in Paris, por Gato Barbieri

Título português: Último Tango em Paris

Ano: 1972

Realizador: Bernardo Bertolucci

Ultimo Tango a Parigi, mais conhecido internacionalmente como Last Tango in Paris, é considerado um marco da associação entre jazz e cinema e valeu a Gato Barbieri um Grammy e um contrato com a Impulse!, mas o filme não envelheceu bem, a banda sonora também não e, afinal de contas, Bertolucci tem uma carreira tão irregular e gerou tantos pastelões pretensiosos que dificilmente poderá ser considerado um realizador de I divisão.

O saxofonista argentino Leandro “Gato” Barbieri (1932-2016) tinha amealhado um honroso curriculum na área do free jazz na década de 1960, inspirado por John Coltrane, Albert Ayler e Pharoah Sanders e com colaborações com Charlie Haden e Carla Bley, mas dissipou todo esse capital na década de 1970 com a inflexão para um pantanoso território ensopado de soul, pop e influências latinas e acabaria a carreira no smooth jazz.

A banda sonora de Last Tango in Paris, que já dá conta de tal deriva, foi editada, sob esse título, pela United Artists, em 1973, e contou com um elenco em que se destacavam os respeitáveis nomes de Franco D’Andrea (piano), Jean-François Jenny-Clark ou Giovanni Tommaso (contrabaixo), cujos méritos acabam por ser sufocados pelos arranjos para cordas de Oliver Nelson (então também já longe dos seus melhores anos). Da música pode dizer-se o mesmo que do filme: há manteiga a mais e, passados 45 anos, o odor que dela se evola é inequivocamente rançoso.

[Tema principal]

Jazz para todos

10 encontros felizes entre jazz e bossa nova

Em 1961, o guitarrista Charlie Byrd fez parte de uma embaixada cultural que foi ao Brasil mostrar o jazz norte-americano e ficou fascinado com a bossa nova, um género então ainda com poucos anos de vida.

Ler mais
Por José Carlos Fernandes
Publicidade

Sete bateristas que marcaram a história do jazz

No princípio, a bateria servia para marcar o tempo, mas as inovações trazidas por bateristas excepcionais foram alterando o seu papel e convertendo-o num par dos outros instrumentistas. Eis sete dos muitos nomes que fizeram essa revolução.

Ler mais
Por José Carlos Fernandes

Comentários

0 comments