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©DR The Bad Plus

Dez versões jazz de “Blue Moon”

Hoje é bem conhecida no jazz (Tommy Dorsey, Mel Tormé, Billie Holiday) e na pop (Elvis Presley, Eric Clapton, Rod Stewart), mas esta canção teve um início de carreira pouco auspicioso.

Por José Carlos Fernandes
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Quando esta “lua” nasceu, em 1933, pouco ou nada tinha a ver com a que conhecemos: o título era “Prayer (Oh, Lord, Make Me a Movie Star)” e deveria expressar, através de uma oração, a ambição da personagem de Jean Harlow de se tornar numa vedeta de Hollywood. A cena foi imaginada por Richard Rodgers (música) e Lorenz Hart (letra) para um filme musical da MGM, Hollywood Party (1934), uma amálgama de várias sequências independentes, cada uma delas com diferentes actores, argumentistas e realizadores, e que tinha por único fito a auto-celebração de Hollywood.

A ideia não foi a lado nenhum: Harlow nem sequer entrou no filme e a canção não foi gravada. Rodgers & Hart reciclaram-na para o pouco menos olvidável filme Manhattan Melodrama, desse mesmo ano, mas a sequência em que figurava a canção, agora com nova letra e título – “It’s Just That Kind of Play” –, acabou por ser suprimida. Todavia, a MGM entendeu que fazia falta uma canção numa sequência passada num nightclub e encomendou-a a Rodgers & Hart, que requentaram a sua canção pela terceira vez, agora com o título “The Bad in Every Man”. Desta vez a canção figurou na montagem final, mas tal não significou o fim das suas metamorfoses: a MGM entendeu que a canção teria potencial comercial se sofresse algumas modificações e Hart lá foi convencido a escrever a quarta letra.

O instinto do pessoal da MGM estava certo e a canção, agora com o título “Blue Moon”, tornou-se num sucesso, primeiro pela Casa Loma Orchestra e Benny Goodman, logo em 1934, depois por uma verdadeira avalanche de jazzmen e cantores pop: Tommy Dorsey, Billy Eckstine, Mel Tormé, Billie Holiday, Elvis Presley, Dean Martin, The Marcels, The Platters... Até a indie pop se apropriaria dela, com a despojada (e muito lunar) “Blue Moon Revisited”, do álbum The Trinity Session (1988), dos Cowboy Junkies.

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Dez versões jazz de “Blue Moon”

Wynton Kelly

Ano: 1951
Álbum: Piano Interpretations: New Faces, New Sounds (Blue Note)

“Blue Moon” foi o tema escolhido pelo pianista jamaicano Wynton Kelly para abrir o seu álbum de estreia, gravado em Nova Iorque quando tinha apenas 19 anos (era, sem sombra de dúvidas, uma “new face”) e tendo a parceria de Oscar Pettiford (contrabaixo) e Lee Abrams (bateria).

Ella Fitzgerald

Ano: 1956
Álbum: Ella Fitzgerald Sings the Rodgers & Hart Songbook (Verve)

A melodia de “Blue Moon” dir-se-ia pouco sofisticada para songwriters do gabarito de Rodgers & Hart, mas é preciso atender ao contexto para que foi concebida: uma rapariga jovem e inocente que expressa a sua solidão e desamparo e que reza para que surja alguém que ela ame e que lhe retribua o amor – e que vê as suas preces atendidas. Nesta versão de 1956, acompanhada por uma orquestra arranjada e dirigida por Buddy Bregman, Ella encarna na perfeição esse espírito de candura. Não podia estar mais longe da exuberante e irreverente versão que gravou em 1961 ao vivo num clube de Hollywood (vem no álbum Ella in Hollywood), em que satiriza a versão gravada pouco antes pelo grupo de doo-wop The Marcels e que se tornara num tremendo êxito comercial.

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Carmen McRae

Ano: 1958
Álbum: Blue Moon (Decca)

Carmen McRae não só gravou “Blue Moon”, como a escolheu para intitular o seu álbum com uma orquestra arranjada e dirigida por Tadd Dameron (ou Jimmy Mundy, noutras faixas).

June Christy

Ano: 1958
Álbum: June’s Got Rhythm (Capitol)

June Christy tem uma abordagem jovial a “Blue Moon”, que dissipa o contraste entre a 1.ª e a 2.ª partes da canção (a oração no desamparo, o júbilo pela prece atendida). Christy surge aqui acompanhada por um trio com Russ Freeman (piano), Monty Budwig (contrabaixo) e Shelly Manne (bateria), a que se juntam, noutras faixas deste álbum, Bud Shank (saxofone), Bob Cooper (oboé) e Laurindo Almeida (guitarra).

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Rosemary Clooney

Ano: 1958
Álbum: Swing Around Rosie (Coral)

Clooney também tem se apoia num trio, neste caso o de Buddy Cole, para nos oferecer uma leitura pausada, elegante e claramente articulada de “Blue Moon”.

Lou Donaldson

Ano: 1959
Álbum: LD + 3 (Blue Note)

Entre 1957 e 1963, a Blue Note lançou 15 álbuns com o saxofonista alto Lou Donaldson como líder. Entre eles está LD + 3, que tem a particularidade de o juntar ao grupo The Three Sounds, formado por Gene Harris (piano), Andrew Simpkins (contrabaixo) e Bill Dowdy (bateria) e que desenvolveu uma carreira autónoma entre 1956 e 1973.

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Betty Roché

Ano: 1961
Álbum: Singin’ & Swingin’ (Prestige)

Não faltavam qualidades Betty a Roché, mas está hoje muito esquecida, para o que contribui a sua magra discografia – apenas três álbuns na viragem dos anos 50/60 – e o facto de ter precocemente abandonado a carreira musical. Singin’ & Swingin’ conta com Jimmy Forrest (saxofone), Jack McDuff (órgão), Bill Jennings (guitarra), Wendell Marshall (contrabaixo) e Roy Haynes (bateria) e contém esta versão destituída de pathos e que inclui um scat singing nada ortodoxo.

Woody Herman

Ano: 1962
Álbum: Swing Low, Sweet Clarinet (Philips)

Woody Herman ficou na história do jazz sobretudo como líder de big bands de sonoridade brilhante e até estrepitosa, pelo que Swing Low, Sweet Clarinet, que o dá a ouvir em quarteto, com Nat Pierce (piano), Chuck Andrus (contrabaixo) e Gus Johnson (bateria), é um álbum atípico, um contexto mais intimista que assenta bem a “Blue Moon” e deixa ouvir os notáveis dotes de clarinetista de Herman.

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The Bad Plus

Ano: 2000
Álbum: The Bad Plus (Fresh Sound)

A estreia em disco (homónimo) de Ethan Iverson, Reid Anderson e David King, no dealbar do século XXI (após apenas três sessões a tocar juntos!), veio agitar as águas do jazz. A geometria instrumental era clássica – piano + contrabaixo + bateria – mas o repertório combinava um standard – “Blue Moon” – com material próprio e êxitos de ABBA – “Knowing Me, Knowing You” – e Nirvana – “Smells Like Teen Spirit” – com uma abordagem nada ortodoxa. Na sua desconstrução de “Blue Moon” entrevêem-se restos da inocência e da singeleza da melodia, mas alternam com agitações nervosas e trocistas. “Blue Moon” pode não despertar “The Bad in Every Man”, mas despertou os instintos iconoclastas dos Bad Plus.

Ahmad Jamal

Ano: 2014
Álbum: Live in Marciac, August 5th 2014 (Jazz Village)

Ahmad Jamal começou a gravar como líder pela mesma altura em que Kenny Drew gravou a versão de “Blue Moon” no topo desta lista – ou seja há 68 anos – e tem-se mantido em actividade ao longo da segunda década do século XXI, como testemunha este registo ao vivo de 2014, no Festival de Jazz de Marciac, em França (onde há muito fixou residência). A depuração que marcou os seus primeiros discos – e que tanto influenciou Miles Davis – continua a ser fulcral no som de Jamal, mas a ela juntou-se um espírito traquinas e zombeteiro, que não poupa “Blue Moon”. Jamal conta aqui com os seus usuais cúmplices dos últimos anos: Reginald Veal (contrabaixo), Herlin Riley (bateria) e Manolo Badrena (percussão).

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