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Rita Redshoes
© DRRita Redshoes

Entrevista a Rita Redshoes: “É uma nova versão de mim”

Rita Redshoes está de volta com um disco marcado pela experiência de ser mãe – e totalmente cantado na língua mãe. Falámos com ela.

Escrito por
Ana Patrícia Silva
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Lado Bom, o quinto álbum de estúdio de Rita Redshoes, é o primeiro totalmente cantado em português. Ao abraçar a língua materna, ela é mais terna, trata as palavras com carinho, entra mais dentro nas letras. Hoje em dia até sente “alguma estranheza” quando canta em inglês nos concertos. “Foi um processo relativamente longo até assumir escrever em português, porque só me conhecia a cantar em inglês. A minha voz e a colocação, tudo isso é diferente. A nossa língua mãe tem um peso muito diferente quando é transmitida às outras pessoas, é uma comunicação muito mais próxima, por isso foi uma conquista bastante saborosa para mim”, conta.

No início, sentia algum pudor – “eu tenho uma dicção muito definida e parecia-me sempre muito coloquial a cantar [risos]. Pensava que era um bocado esquisito cantar pop-rock com esta pronúncia tão certinha”. O que a ajudou foi passar por projectos e colaborações com artistas que já cantavam em português, que lhe deram confiança e experiência para chegar aqui. “Com o inglês, muitas vezes as soluções encontradas eram mais musicais do que literárias. A nossa língua tem muitas mais arestas. O grande desafio foi encontrar uma forma própria de escrever em português que me soasse honesta, mas musical e poética.” Sabendo o que sabe hoje, arrepende-se de não ter começado antes? “Gostava de ter conquistado isto mais cedo, mas acredito que todos temos um percurso a fazer na nossa vida. De alguma forma, acaba por fazer sentido assim.”

A nível instrumental, Lado Bom é um disco mais electrónico, com uma aura meio mágica, meio onírica, meio aquática. Talvez, mas não só, por culpa da harpa, tocada por Eduardo Raon – “um músico extraordinário”, que acabou por ser a base de inspiração do disco – e que ao vivo está entregue à harpista Salomé Pais Matos. “Era um instrumento que há muito tempo queria gravar. Quando apareceu nos meus outros discos, não era uma harpa real, eram samples e assim. É um instrumento lindo, o mais mágico de todos. Não só pela beleza estética, mas também toda a simbologia e mitologia, tem uma ligação directa com o divino. Essa sonoridade e imaginário faziam todo o sentido com a temática do disco, que anda muito à volta do nascimento e da maternidade. Senti que era o casamento perfeito.”

Escrito e gravado entre 2018 e 2019, o disco mergulha na sua nova existência enquanto mãe, explorando emoções desconhecidas, medos e incertezas. Rita Redshoes fala de coisas bonitas, mas também tristes, e aceita ambas como parte integrante daquilo que é ser humana. “Fui mãe em Setembro de 2018 e foi um processo muito forte, foi a experiência mais marcante da minha vida. É um desafio gigante. De repente temos um recém-nascido nas mãos, mas também nós somos recém-nascidas como mães. Eu não sabia ser mãe – e ainda não sei, estou a aprender – e há um lado doloroso das expectativas, das desilusões, das inseguranças. Vivo isto tudo muito intensamente e acho que renasci, no fundo. Tive um processo pós-parto muito complicado e fui posta à prova em muitas coisas. À medida que o tempo passava, ia fazendo pequenas conquistas, comigo e com a minha bebé, e fui-me reconstruindo. É uma nova versão de mim.”

Será que o discurso à volta da maternidade ainda é demasiado embelezado e que o sofrimento da mulher – antes, durante e depois de ser mãe –, é silenciado? “Completamente. Aquilo que vemos socialmente, na televisão, nos anúncios dos bebés, é tudo bonito e cheira bem, mas há um lado que é muito duro. Não só a recuperação física da mãe, como a amamentação, que às vezes é sobrevalorizada e causa grande frustração a quem não pode ou não consegue amamentar. E depois a privação do sono, o cansaço que daí advém, mais as inseguranças. O primeiro mês e meio é passar as passas do Algarve. ”

“No meu caso, também tive depressão pós-parto, que é uma coisa muito pouco falada e há muitas mães em sofrimento e em silêncio, com vergonha de pedir ajuda porque parece que é um atestado de mãe incapacitada. É vista como uma anomalia, mas é uma coisa totalmente natural. É tudo legítimo de sentir, porque há tantas coisas para as quais não estamos preparadas e é tudo tão avassalador. Todo o processo de engravidar, de gerar um ser, de o parir, de o cuidar – enquanto mulheres, somos uma máquina muito forte, muito bem construída. E a capacidade de regeneração, de gerir todas estas emoções, e ao mesmo tempo continuar a assegurar a segurança do bebé, da família, do pai – que também acaba por renascer, também anda a aprender as coisas. A mãe tem um papel brutal nesta gestão toda. Só um ser com verdadeira força é que consegue levar o barco a bom porto.”

Todo este processo, que está documentado no disco, de forma não totalmente explícita, ajudou-a a aceitar-se e a compreender-se melhor. “Passei a ser mais tolerante comigo. Uma das coisas que descobri, e que mais me emocionou, foi perceber a capacidade que tenho instintivamente de amar profundamente, e incondicionalmente, um ser que aparece assim de repente, sem nos conhecermos de lado nenhum. Se calhar isso não acontece logo, é bom dizer estas coisas, é uma relação que cresce. Mas não há amor semelhante, é uma coisa única. Às vezes pensava que se calhar isto é demasiado para quem ouve, ou nem faz muito sentido, mas para mim é inevitável porque não podia passar por esta experiência sem a demarcar no meu trabalho. Mesmo sendo muito pessoal, para mim era mesmo vital que este disco se tornasse real.”

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