Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Hot Chip: "Quando oiço o primeiro disco, parece-me tonto"

Hot Chip: "Quando oiço o primeiro disco, parece-me tonto"

Faltavam poucas semanas para o concerto no NOS Alive quando nos sentámos à conversa com Owen Clarke e Joe Goddard dos Hot Chip. Só vão actuar a meio da madrugada, mas trazem novidades e disco novo na mala.

Publicidade
Hot Chip
DR

Ao sétimo disco, os britânicos Hot Chip ainda surpreendem. No sucessor de Why Make Sense (2015), decidiram fazer tudo diferente e pela primeira vez trabalharam com produtores de fora: Philippe Zdar (Phoenix, Cassius), que morreu tragicamente no mês passado, quando saiu A Bath Full of Ecstasy, e Rodaidh McDonald (The XX, David Byrne). Uma decisão aplaudida por fãs e crítica. Owen Clarke, Joe Goddard, Al Doyle, Felix Martin e Alexis Taylor não querem fazer mais do mesmo. Estão mais velhos, mas nem por isso deixam de nos pôr a dançar.

Nunca estiveram tanto tempo sem um disco novo. O que aconteceu?
Joe Goddard: Não foi planeado. O Al Doyle esteve a escrever o disco dos LCD Soundsystem e andou em digressão durante cerca de dois anos, e queríamos esperar por ele. E tanto eu como o Alexis lançámos discos a solo. Mas até soube bem fazer uma pausa mais prolongada porque quando nos juntámos outra vez soube a novo, foi entusiasmante.

Este disco está mais maduro. Foi consciente?
JG: Não sei, provavelmente acontece porque estamos realmente mais velhos. Na maior parte do tempo, não me sinto uma pessoa madura. Mas quando agora oiço o primeiro disco que gravámos parece-me um bocado tonto. Havia muita brincadeira. Muitas pessoas falaram disso na altura, de como não nos levávamos demasiado a sério. Acho que ao longo dos anos nos fomos afastando disso, até porque à medida que vamos envelhecendo sentimos que é cada vez mais estranho tocar essas músicas. Talvez, subconscientemente, essa seja a razão. A música continua a ser divertida, apesar de liricamente estar mais madura, mas isso também se deve aos tempos em que vivemos politicamente. É um momento sério. Alguns de nós já têm filhos. E isso leva-nos para um caminho mais maduro.

É por isso que o disco é mais pequeno?
JG: Isso foi a nossa editora. Disseram-nos que era muito longo.
Owen Clarke: Mas as músicas até são bastante grandes.
JG: Tínhamos mais músicas. Um dia, combinámos um jantar em minha casa para celebrar o facto de termos acabado o disco. E depois a editora disse que tínhamos de tirar músicas.

Como é que reagiram?
JG: Não foi bom. Foi um bocado um choque. Mas no final o disco ficou melhor.
OC: A verdade é que 13 canções é muito. Não precisa disso.
JG: Sim, alguns dos nossos discos antigos deviam claramente ter sido mais curtos.
OC: Ninguém nos disse nada [risos].
JG: Acho que acontece com todas as bandas, querermos mostrar que conseguimos fazer uma enorme variedade de música e pôr tudo num disco.

Pela primeira vez, foram buscar produtores de fora. O que é que queriam mudar?
JG: Depois de termos feito seis discos por nós, acho que acaba por ser previsível. Queríamos ser desafiados. Eles levaram-nos a trabalhar mais duro, apresentaram-nos novas opções em termos de equipamentos ou software que nem sabíamos que existiam. Algumas das coisas foram só isso, outras foi levarem- -nos a tentar melhorar as músicas. Além disso, quando há cinco de nós na banda, não há uma pessoa que tome todas as decisões. Tentamos que seja um processo democrático e por isso é bom ter alguém de fora a fazer sugestões e a ter o poder de dizer que vamos fazer isto porque é melhor. Nenhum de nós na banda tem realmente autoridade para dizer isso.

Saíram da vossa zona de conforto.
JG: Acho que sim. Às vezes, fizeram-nos sugestões a que torcemos o nariz. Por exemplo, na “Spell” há uma quebra enorme no meio, são cerca de dois minutos. Isso foi uma coisa que o Phillipe sugeriu que incluíssemos e eu não estava seguro. Estava sempre a perguntar se ele tinha a certeza. Mas vai ser assim tão longo? Tens a noção que isto é longo? Agora, fico muito satisfeito por termos confiado. Já vi acontecer com outras bandas, quando contratam um produtor e lhe pagam imenso dinheiro mas depois rejeitam tudo o que sugere. Isso é um disparate e por isso tentámos estar de mente aberta. A verdade é que isso fez com que o disco soasse diferente das coisas que fizemos no passado.

Como é que tem sido tocar o novo material ao vivo?
OC: Acho que ainda estamos a tentar perceber como é que o tocamos.

E como tem sido o feedback?
OC: Terrível [risos]. Sempre que dizemos que vamos tocar coisas novas, o público fica na dúvida. Sabe que provavelmente vai ser bom, mas é uma questão de confiança. É mais fácil e confortável quando se conhecem as músicas.
JG: Mas tem corrido bem. Estamos ansiosos por tocar mais canções deste disco na época dos festivais.

Já que falam nisso, por que é que só vêm a Portugal em festivais?
JG: É muito difícil fazer com que concertos em salas fechadas funcionem para nós em termos económicos. Adoraríamos fazer uma série de concertos desses em Portugal, mas iríamos perder dinheiro. Se calhar é o que temos de fazer, mas é difícil garantir que funcione. O que é uma pena.

O que podemos esperar do concerto no NOS Alive?
OC: Temos as três músicas novas.
JG: Já estamos a trabalhar em mais. Vamos adicionando novos temas [no alinhamento] à medida que o álbum sai e as pessoas começam a conhecer. Temos trabalhado muito para os concertos, desenvolvemos novas versões de músicas antigas e temos feito uma cover de “Sabotage” dos Beastie Boys, que são uma banda importante para nós. Isso tem sido incrível. Quando a tocámos em Londres, até fiquei preocupado porque se formou um moche. Não estamos habituados.

Foram notícia por terem tocado essa música.
JG: É verdade e tem sido muito divertido tocá-la porque a maior parte do nosso set é música disco. Toda a gente na banda fica muito excitada por tocar a “Sabotage”.

E porquê essa música?
JG: O Alexis tinha sugerido que fizéssemos uma cover. No passado, fizemos versões de Springsteen e Prince, e achámos que seria uma coisa invulgar para fazermos agora.
OC: Além disso é muito curta, são dois minutos e meio. E todos adoramos tocá-la, o baixo é divertido de tocar, a bateria, a guitarra. É muito simples. E tem piada porque parece que as pessoas só se apercebem que a tocámos no fim. Isto acabou de acontecer? É óptimo.
JG: Mas agoratoda a gente está à espera que a toquemos porque está na internet. 

+ NOS Alive: dez concertos a não perder

Música falada

Thurston Moore
©Vera Marmelo
Música

Thurston Moore: “O rock'n'roll é profundamente espiritual”

Com os Sonic Youth, Thurston Moore revolucionou a arte do ruído. Alterou o curso do rock entre fúrias experimentais e epifanias espirituais, torturou guitarras e estraçalhou cordas em busca dos sons mais viscerais. Em três décadas com a sua antiga banda e uma discografia com centenas de edições a solo, em colaborações ou com outros projectos, Thurston Moore adicionou subversão a tudo o que fazia. 

Milton Nascimento
©DR
Música

Milton Nascimento: “Nos dias de hoje, só a música salva”

A história de Milton Nascimento é uma síntese da beleza, do sofrimento e da diversidade do povo brasileiro. Nasceu em 1942 na Tijuca, no Rio de Janeiro, filho de uma empregada doméstica que foi abandonada grávida pelo namorado. Antes de completar dois anos, a sua mãe morreu com tuberculose. Foi adoptado por um casal de classe média e mudou-se para Três Pontas, em Minas Gerais. Sendo uma das poucas crianças negras naquela pequena cidade, sofreu diariamente com o preconceito. A música indígena e as canções rurais do seu estado adoptivo influenciaram os anos de crescimento e reverberaram nas suas canções.

Publicidade

You may also like

    Publicidade