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Thurston Moore: “O rock'n'roll é profundamente espiritual”

Estrela rock, herói da guitarra, improvisador e poeta. Falámos com Thurston Moore antes do regresso a Lisboa para um concerto acústico na Igreja de St. George.

Thurston Moore
©Vera Marmelo Thurston Moore
Por Ana Patrícia Silva |
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Com os Sonic Youth, Thurston Moore revolucionou a arte do ruído. Alterou o curso do rock entre fúrias experimentais e epifanias espirituais, torturou guitarras e estraçalhou cordas em busca dos sons mais viscerais. Em três décadas com a sua antiga banda e uma discografia com centenas de edições a solo, em colaborações ou com outros projectos, Thurston Moore adicionou subversão a tudo o que fazia. Mudou a forma como as sucessivas gerações desbravaram a experimentação no rock. Sem comprometer a sua visão artística, sempre à descoberta, sem enredos, de forma intensa e livre.

Após a dissolução dos Sonic Youth, passou muito tempo a investigar sobre música, dedicou-se às guitarras acústicas e editou o álbum Demolished Thoughts com a produção de Beck. Voltou a ligar a guitarra à corrente para formar os Chelsea Light Moving, gravou mais discos a solo e em colaborações, deu aulas sobre a influência de William Burroughs na música e fundou uma editora de poesia. Com um indomável espírito DIY, permaneceu inspirado e prolífico. Aos 60 anos, continua a desbravar caminhos entre a improvisação, o noise e a composição acústica.

Nos últimos anos, Thurston Moore tem encontrado um refúgio em Portugal para dar concertos e fazer residências artísticas, de onde nasceram discos e livros. O circuito da Galeria Zé dos Bois e a sua rede de cumplicidades entre artistas de diversas áreas experimentais formaram um habitat natural para o guitarrista. Neste sábado, regressa a Lisboa para um concerto integrado nas comemorações do aniversário da ZDB. Envolto na arquitectura neo-românica da Igreja de St. George, vai subir ao altar só com uma guitarra acústica e o fogo dos seus dedos.

Depois de tocar a guitarra eléctrica como instrumento principal durante tantas décadas, como foi focar-se na guitarra acústica?
A guitarra acústica tem estado em segundo plano, mas fui sempre regressando a ela. Sempre esteve lá para mim e escrevo muitas músicas com ela. Nas férias, eu e a minha namorada, Eva [Prinz], levamos as nossas guitarras acústicas para podermos tocar juntos.

A sua discografia é muito diversa e continua constantemente a procurar novos desafios. O que o leva a seguir sempre em frente?
Há muitos estilos de música na comunidade e eu sempre fui muito aberto a explorar os diferentes tipos de música que estão a acontecer à minha volta... E até mesmo a música que não está à minha volta: tenho curiosidade sobre toda a música de todos os lugares. É verdade que a minha discografia pode parecer bastante diversa, com um pouco de metal, algum noise, alguma pop, algumas explorações, mas de alguma forma é um som distinto.

O rock parece ter perdido o seu apelo comercial, mas como forma de arte continua bem vivo. Como é que o rock pode beneficiar por estar longe do mainstream?
Não tenho a certeza se sei ou se alguma vez soube o que é ser comercialmente atractivo... Nunca me preocupei muito em perceber o que isso significa.

As mulheres instrumentistas têm sido uma influência fundamental na sua carreira. O rock hoje é tão inclusivo quanto deveria ser?
Muitos dos álbuns mais recentes que mais me entusiasmam são feitos por mulheres. Actualmente os cartazes de muitos festivais são também encabeçados por mulheres, por pessoas não-binárias ou por músicos que se identificam como transgénero e isso é óptimo. Ando também a reparar que os festivais e as editoras estão a fazer mais esforços para encontrar músicas de novos territórios, o que também é positivo.

Entre o país de Trump [os EUA, onde nasceu] e o país do Brexit [o Reino Unido, onde vive], estes são tempos de fronteiras. Está preocupado com o mundo?
Estou preocupado com o universo. Nós sonhamos conhecer outras formas de vida de outros planetas ou galáxias. Eu sinto-me conectado a todos os terráqueos, a todas as criaturas que habitam a Terra. Essas tais “fronteiras” neste planeta são pequenas mentiras usadas para controlar as finanças, criadas por empresários com intenções óbvias. Eu voto contra os muros, recuso-me a participar em conversas que se concentram no que nos separa. Estou apenas interessado nas tecnologias, nas estratégias de comunicação, na música, na arte, no contacto que nos vai unir a todos.

O álbum Rock n Roll Consciousness foi gravado no estúdio de Paul Epworth, que fica numa antiga catedral em Londres. Em Lisboa, vai tocar na Igreja de St. George. Interessam-lhe os espaços sagrados e a forma como moldam o som?
Sim, eu moro ao lado e também em frente a igrejas antigas. Adoro os sinos. Adoro entrar nesses espaços de dia e de noite. Adoro a luz e o som das catedrais antigas. Passo muito tempo a observar as pinturas e os vitrais nesses espaços, a decifrar as imagens e as pequenas inscrições em latim. Gostaria de fazer mais isso, especialmente em Portugal.

O rock’n’roll é como uma experiência religiosa? Encontra esse tipo de transcendência e espiritualidade em mais algum lugar na sua vida?
Como passei a maior parte da minha vida dedicado e devotado a essa música, eu diria que sim, é profundamente espiritual. É a minha vida, são as minhas preces respondidas. O dom da música que encontro nos outros é o que me mantém inspirado e humilde. Vem com um trabalho duro e duradouro, amizades que duram uma vida, a família, a comunidade pelo mundo e uma obrigação de me manter fiel ao meu coração.

O que podemos esperar deste concerto em Lisboa?
Escrevi algumas peças novas e vou tocá-las para os nossos amigos em Lisboa. Espero ver-vos lá!

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