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Lena d’Água: “Não podia morrer sem fazer novas canções”

A voz meiga é quase Património Imaterial do nosso país. Sentámo-nos à conversa com a cantora que está de regresso com um novo álbum.

Por Renata Lima Lobo |
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lena dagua
Fotografia: Duarte Drago

É possível que Desalmadamente seja apenas o primeiro registo da colaboração entre Lena d’Água e Pedro da Silva Martins, o compositor responsável pelas letras e músicas do primeiro álbum de originais da cantora em 30 anos. Um trabalho que conta ainda com os arranjos e os instrumentos dos They’re Heading West, banda que a acompanha.

Estava a interagir com o telemóvel ainda há pouco. Ainda tenta responder aos milhares de fãs que a seguem?
Agora é mais difícil, mas tento. Tento estar sempre disponível, até às vezes para [faz sinal com a mão].

Para cascar.
É. De vez em quando aparecem aqueles que têm de levar nas orelhas. Mas 99,9% das pessoas têm sido incríveis.

Esperava?
Sim, esperava. Estas canções são absolutamente incríveis. Chegaram à minha vida já há mais de dois anos, quando o Pedro [da Silva Martins] as compôs. E eu e os músicos ficámos este tempo todo a conciliar encontros mensais. De maneira que foi uma coisa que foi crescendo, sendo experimentada, sendo ensaiada. O Pedro pôs-nos as canções nas mãos e os músicos fizeram os arranjos comigo. Desde o princípio eu sabia que isto ia ficar brutal.

Que histórias canta desalmadamente?
Ai ai… acerca de ter um parafuso a menos, por exemplo, de ter caído e ter-me levantado...

Ler as letras deste álbum é quase como espreitar pelo buraquinho da fechadura para o mundo da Lena d’Água. Não sei se o Pedro da Silva Martins tem a capacidade de ler o pensamento…
Eu estou convencida que sim! O Pedro tem exactamente a idade da minha carreira
artística. Porque eu entro nos Beatnicks a cantar no mês em que o Pedro nasceu. Para além disso éramos vagamente vizinhos. Ele era um pitinho que se lembra de ver quando passava a Lena d’Água. Quem havia de dizer que ele seria o compositor por quem eu estava à espera.

Há muito tempo que não há um disco de inéditos da Lena d’Água. O último foi o Tu Aqui, que saiu em 1989 e com versões de músicas do António Variações.
E eram também inéditos, porque o António nunca chegou a gravar aquelas canções.

Muito antes dos Humanos pegarem no trabalho dele.
15 anos antes. Fiquei um bocadinho ciumenta. Porque aquilo foi um grande êxito para os Humanos e o meu disco não teve êxito nenhum.

O Pedro da Silva Martins é um dos maiores compositores e letristas portugueses, mas a Lena também tem uma talentosa superbanda a acompanhar este Desalmadamente.
Sim. Têm sido dois anos e quase meio para conciliarmos agendas para os nossos ensaios e encontros. Às vezes estava três meses à espera que houvesse uma oportunidade para nos voltarmos a reunir. Já tinha a certeza que ia ficar incrível, mas tive de esperar bastante.

O vosso primeiro encontro acontece na Casa Independente, penso que em 2016, com os They’re Heading West?
Foi o Gui, querido amigo, que é convidado especial neste disco, na "Minutos" [saxofones], que me ligou. E diz-me: “Lena, lembras-te do Serginho [Sérgio Nascimento]? É que eles têm uma banda, estão a fazer uma coisa na Casa Independente nos últimos domingos do mês com um artista convidado. Estás interessada?”. Eu digo que sim, fizemos a Casa Independente e aquilo foi mesmo lindo e comovente. No final, estávamos no camarim e falamos em fazer um repertório completo de originais. Ficámos assim mesmo com vontade de continuar. Depois telefona-me o Pedro com o convite para ir ao Festival da Canção. Digo já que sim e que já sei qual é a banda: "Vamos chamar quem me chamou".

O Festival da Canção foi outra coisa que também regressou às nossas vidas, como a Lena.
Aquele ano foi muito importante, porque tudo mudou.

A Lena já tinha ido ao Festival da Canção.
Sim, a fazer coros.

Sei que acompanhou os Gemini.
Há muitos anos! E ganhámos. Nesse ano de 1978 eu fiz coros em várias canções. Uma dessas [a "Dai li dou"] ganhou o festival e lá fomos a Paris. Nesse ano, fui ao festival semanas depois de me ter separado do Ramiro [Martins] e de ter saído dos Beatnicks.

A banda que tornou a Lena na primeira vocalista feminina de uma banda rock em Portugal.
Pois foi! Fui eu, calhou. Eu vinha do rock, de dois anos a fazer concertos e viagens, e vejo-me dentro do Festival da Canção assim um bocado fora do meu meio. Em 1980 ainda voltei a cantar uma canção lá ["Olá, Cega Rega", de Paulo de Carvalho], mas não chegou à final.

Existe um ponto de viragem importante que é o documentário A Bela Adormecida, feito por alunos da Universidade Lusófona. E que estreia no Nimas em 2010 com um showcase que dá origem na altura a um novo projecto.
Sim, com os Rock n’ Roll Station. Esses alunos da Lusófona foram lá à aldeia e eu tinha imensas histórias para contar, imensas memórias de coisas que me aconteceram na vida. Uma das pessoas que viu esse documentário foi o Pedro da Silva Martins, mas anos depois. Ficou muito comovido e disse que ainda ia escrever para mim. Eu fiquei toda feliz e pensei que já podia respirar à vontade. Porque faltava-me alguém que escrevesse para mim.

Esta ligação entre o trabalho do Pedro e da Lena tinha tudo para acontecer?
Cá no fundo eu sabia. Não sabia que era ele, mas tinha a certeza que não podia morrer sem fazer novas canções. Algumas pessoas duvidavam, achavam que eu ia desistir ou que já tinha desistido. Não sei como é que elas achavam que eu vivia a minha vida. Eu nunca tive outro trabalho.

A Lena nunca se foi mesmo embora.
Por exemplo, amanhã vou fazer uma coisa que tenho feito ao longo destes anos que é em dueto, só com guitarra e voz. Vamos a Beja com o Legendary Tigerman. Não imaginas como é bom e compensador fazer estes concertos. Foram sempre coisas que eu fui fazendo. Com uma guitarra, com piano e voz ou então contrabaixo e bateria. Ou então participações em concertos com o Primeira Dama [Manel Lourenço]. Ainda tenho dois para fazer agora no fim do mês de Maio e princípio de Junho, que é Funchal e Porto, no Primavera Sound. Que é uma outra coisa muito gira que me foi acontecendo.

Mas agora os seus concertos vão incluir músicas novas.
O primeiro, de apresentação, é dia 4 de Junho no Villaret. A partir daqui estamos abertos a propostas para podermos levar as novas canções e algumas das outras, claro. Não posso deixar de cantar alguns temas, senão ainda…

Vai ser um espectáculo repartido entre o passado e o presente?
Sim. Um passado que tem sido sempre o meu presente, porque ao longo dos anos tenho cantado as canções que gravei nos anos 80 sobretudo. Foi a minha década de muitos discos e muitas canções que foram sobrevivendo e sendo tocadas de várias maneiras. Com os Rock n’ Roll Station aquilo foi baixo, bateria e guitarra, rock mesmo. Antes fiz também com músicos de jazz, gravei aquele disco com outros temas que juntei ao meu repertório [Sempre – Ao Vivo no Hot Clube, de 2007]. Lindo, sem rede, sem editora, uma noite apenas no Hot.

Onde em 2016 a Lena celebrou 40 anos de carreira.
Pois foi, aquilo encheu. Foram duas noites muito fixes. Já neste novo Hot, porque nós gravámos o disco no outro, antes daquele incêndio. Passei lá tantas noites. Era a minha segunda casa quando morava em Lisboa. Comecei a ir ver músicos a tocar no tempo dos Beatnicks, nos anos 70. De vez em quando íamos até ao Hot. E como não havia nada… Antes do 25 de Abril não havia músicas para nós, mais novos. Crescemos a ouvir os Beatles e depois as outras bandas, mais tarde, como Led Zeppelin. Porque música portuguesa… Antes eram os cantores românticos e o folclore e a seguir ao 25 de Abril eram as canções de intervenção. E antes havia o fado também, mas a seguir ao 25 de Abril começou a ficar assim uma coisa de antigamente. Agora está tudo maluco com o fado outra vez. Acho uma graça a estas ondas, a estas mudanças nas cabeças das pessoas.

Já experimentou cantar algum fado?
Já, já. Mas o fado nunca fez parte daquilo que se ouvia em minha casa.

E o rock e o jazz?
O meu pai [José Águas] tinha discos, que agora estão comigo, do Count Basie, orquestras, o Sinatra, o Nat King Cole, o Tony de Matos também. O meu pai adorava cantar e a nossa casa sempre foi muito musical. Mas já deves saber que nunca na vida me passou pela ideia ser cantora um dia.

Sim, primeiro concluiu um curso na então Escola do Magistério Primário.
A escola era ali mesmo ao pé de nossa casa. Tinha Psicologia, Pedagogia e Psicopedagogia, Linguística, Matemática, Ciências da Natureza, Música, Movimento e Drama. Os miúdos rapidamente me começaram a chamar Lena da Música. Era muito engraçado. Ainda eu não era Lena d’Água. E depois acabo por fazer algumas incursões pelo universo infantil. Primeiro foi o Qual é Coisa, Qual é Ela?, um álbum de adivinhas. Só depois de a Sara nascer é que entrei nos Beatnicks, a fazer coros em estúdio de artistas consagrados, a fazer voz em jingles de publicidade…

Consegue dar-nos um exemplo?
Há um muito famoso que eu estou sempre a cantar, mas que quase toda a gente se lembra. [Canta o jingle do molho de tomate Guloso, de 1987].

A Lena junta-se sempre a bons músicos e agora estou a lembrar-me de um concerto no Teatro do Bairro com o Filipe Mendes em 2002, um guitarrista que andou muitos anos esquecido.
Ele sempre lá esteve, mas de repente o Filipe era chamado para ali e para acolá, foi tão bom isso.

E daqui para a frente?
Sabes que o Pedro fez 28 canções.

Há 28?
Todas para mim, com pedacinhos da minha vida. Daqui a mais uns tempos vamos voltar a pensar no assunto.

Li algures que a Lena planeou fazer uma autobiografia. Estas 28 canções já servirão o propósito?
Sim, mas há histórias que eu preciso de pôr no papel. Mas acho que o Pedro ainda vai escrever mais com esta renovação de vida. Porque as que eles escreveu há dois anos e meio eram eu naquele tempo. Entretanto outras coisas aconteceram e eu falei muito com o Pedro já depois de ele fazer as canções. Por isso estou convencida que ele ainda vai fazer outras em cima das que já estão feitas. Vai fazer uma actualização. Eu no outro dia estava em casa e pus o disco a tocar na sala. Fiquei tão… ai… liguei ao Pedro a dizer "Bora, vamos já começar a pensar no próximo!". O Pedro só se ria do outro lado. Apetece-me mesmo continuar a fazer mais, mas temos de nos preparar com antecedência, porque isto demora. Os meninos têm os seus caminhos e as suas estradas…

A Lena também.
Sim, é verdade. Sempre tive e vou continuar a ter. Um deles é isso do livro. Quando tiver um bocadinho mais de sossego, depois de fazer mais uns concertos, mandar pintar a casa... coisas que ainda tenho de resolver antes de ter o ambiente certo para voltar a pegar, não na caneta, mas no teclado. Há histórias que merecem ser escritas como documentário de um tempo. De um tempo que foi aquele e que eu vivi de uma forma muito particular. Para além de ter nascido numa família em que o pai era um ídolo de multidões, o meu princípio de vida foi assim uma coisa muito especial, muito fora do comum. E depois eu tinha 12 anos e ouvia falar do Maio de 68, dos estudantes, dos hippies, das flores nos cabelos, dos rapazes com os cabelos compridos. Fui testemunha disso, ainda miúda nessa altura, mas depois no 25 de Abril eu tinha 17 anos. E depois a nossa vida no princípio das bandas, no princípio do rock, eu vivi todas essas coisas. Tem interesse, porque no fundo é pôr em palavras a vida quotidiana daqueles anos em Portugal. Tem interesse para ficar como um registo. Vai ter que ser feito, mais cedo ou mais tarde.

Depois de pintar a casa.
Sim, primeiro a casa.

Crítica: Lena d'Água

"Desalmadamente" (Universal Music Portugal)

★★★★☆

Num país que não sabe acarinhar as suas estrelas pop, Lena d’Água não desistiu. Não perdeu a vontade de sonhar, não perdeu a capacidade de rir. Descobriu um novo amanhecer numa banda que inclui Benjamim, Francisca Cortesão e outros músicos dos They’re Heading West. Descobriu-se a si própria nas canções compostas por Pedro da Silva Martins (Deolinda). As letras são dele, mas a vida e a alma só podiam ser dela. Não se consegue imaginar mais ninguém a cantá- -las. Ele soube ouvi-la e inspirar-se na sua candura colorida, nas suas histórias e expressões. Descortinou uma insustentável leveza nos labirintos da sua psique e desenhou-a em canções que têm um coração gigante. Uma música mimosa, cheia de cócegas e charme, com melodias a desmaiar nas nuvens. As letras mergulham a fundo na sua personalidade (“Desalmadamente”), nos seus tiques, taras e manias (“Hipocampo”). Desalmadamente é uma lição suprema de como viver a vida em pleno. Transforma fracassos em triunfos, reflecte sobre a sua juventude sem cair na amarga armadilha da nostalgia. A sua voz, ainda tão leve e límpida, não perdeu a meiga meninice. Lena é linda e livre como uma flor silvestre. Ela abre as janelas e lembra as coisas belas. Eternamente jovem, na ternura dos seus 62 anos. Ana Patrícia Silva

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