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Loosers: “A humanidade já estava confinada antes desta pandemia”

Os Loosers lançaram recentemente ‘Kill Screen’, o seu primeiro disco em sete anos. Falámos com os fundadores José Miguel Rodrigues e Rui Dâmaso.

Por Luís Filipe Rodrigues
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Os Loosers ajudaram a escrever várias páginas da história recente da música portuguesa. Nos anos zero, num momento em que parecia que não se passava nada nesta terra, eles e outros grupos como eles – os Caveira, os Frango, os Fish & Sheep e mais uns quantos –  trabalharam e fizeram com que muitas coisas se passassem. Muitos concertos, muitas edições... “Muita música nova”, completa e resume Rui Dâmaso, um dos fundadores da banda, que no final de Outubro voltou a editar “música nova”, pela primeira vez em sete anos. É muito tempo de silêncio, para quem lançava vários discos e cassetes por ano.

Mas isso era dantes, quando os Loosers eram a banda de rock libertário de José Miguel Rodrigues, Rui Dâmaso e Tiago Miranda, que saiu em 2008. Desde então, abrandaram o ritmo, receberam sangue novo – Jerry The Cat e Guilherme Canhão completam a actual formação – e o seu som mudou. As canções passaram a ser o resultado de um “processo mais longo”, segundo o percussionista José Miguel Rodrigues; a ser feitas com “mais cuidado”, nas palavras do guitarrista Rui Dâmaso. “Não são gravações tão improvisadas”, aprofunda Rui. “[Dantes] havia ali um rasgo qualquer que saía de nós e passava para o disco praticamente em processo directo. Agora é um pouco diferente. Há uma tentativa de melhorar um bocadinho o que quer que seja. Não só o som, mas a música também.” 

Se a música soa melhor, considera José Miguel, é porque “há tempo para a fazer soar melhor”. O primeiro registo da segunda vida da banda, Hot Jesus, saiu em 2013, e o segundo, Kill Screen, só foi lançado nos últimos dias de Outubro, apesar de estar em gestação desde 2018. Desde antes, até. “Em 2018 demos um concerto em que metade do disco, ou até um pouco mais, foi posta à prova perante o público – mas com as músicas completamente diferentes do que são agora”, explica o baterista. “Nos meses anteriores tínhamos andado a enviar coisas uns para os outros e a fazer dubs e a sobrepor. E depois desse concerto ficámos com a impressão de que havia ali material que gostávamos de imprimir.”

Ao longo destes dois anos, nunca se encontraram em estúdio. Trabalharam à distância – remotamente, como se diz agora. Mas ao contrário dos milhões que hoje são forçados pelos governos e as empresas e as circunstâncias a trabalhar assim, para eles foi uma escolha. Cada um gravava sozinho, em casa, e ia partilhando o que estava a fazer com os restantes membros, que depois somavam as várias partes. Somavam e subtraíam, como fazem questão de sublinhar José Miguel e Rui, que equipara o processo de gravação a “uma bola de neve”: ao longo de dois anos, foi ganhando novas camadas e características, foi crescendo, mas também “foi perdendo muita coisa desde o início”. 

Esta conversa de bolas de neve e o facto de as faixas terem sido gravadas à distância, sem o calor humano gerado por quatro tipos a tocarem na mesma sala, podem sugerir que Kill Screen é um disco frio. Porém, Rui Dâmaso não concorda com a ideia. Insinua-se que “frio” não será a melhor palavra – até porque a voz de Jerrald James, aka Jerry The Cat, e as palavras que vocifera emanam calor –, mas que esta música soa “digital”. O guitarrista interpõe que “o digital não tem de ser frio” e “que o disco tem o seu calor próprio. Um calor digital”. Esqueça-se então a temperatura. Independentemente dela, Kill Screen é um disco denso e opressivo, talvez o mais electrónico do grupo, sem ser um disco de electrónica. 

“É um disco destes tempos, dos nossos tempos”, declara José Miguel. E é-o por diferentes razões, de várias formas. Por um lado, foi influenciado pelo confinamento – não só aquele a que fomos forçados nos últimos meses, mas algo que lhe é anterior, porque “a humanidade já estava bastante confinada muito antes desta pandemia”, segundo Dâmaso. Por outro, o facto de ser um objecto digital, sem edição física, vai ao encontro da maneira como cada vez mais gente consome música. Também (mas não só) por isso, fizeram vídeos para acompanharem as novas canções, filmados por realizadores como Edgar Pêra, João Ana ou Miguel Soares. Os ecrãs dos telemóveis e computadores são o habitat natural desta música, mesmo que a banda defenda que ela “tem que se ouvir alto, numa aparelhagem”.

E fora dos ecrãs, quando é que vamos voltar a ver os Loosers? “Estamos a trabalhar com o Teatro do Vestido numa peça que foi adiada para 2021 por causa da pandemia, chamada Aquilo Que Ouvíamos”, avança José Miguel. Mas, por enquanto, não há planos para apresentar Kill Screen ao vivo. “Isso é difícil agora”, diz o baterista. “Não está a dar muita pica neste momento, neste futuro próximo, programar o que quer que seja”, completa Rui Dâmaso. Concordamos. “Podemos é aproveitar o facto de esta ser a nossa primeira edição digital para ir fazendo updates, mudar os vídeos, até acrescentar músicas. De alguma forma, isso pode colmatar a falta de concertos”, conclui José Miguel. “Tudo é possível.”

Crítica

Loosers - Kill Screen

4 /5 estrelas

Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável, mas os Loosers regressam na altura certa para usar a visceralidade sónica para rasgar a mundanidade dos dias e vociferar contra o caos destes tempos. Há uma nuvem negra a pairar neste disco – uma sensação de sufoco, de aprisionamento nos ecrãs, de dor sem resolução à vista. São expressas em tempestades eléctricas, nos rituais tribalistas da percussão, na electrónica alienígena, no groove que trepa pelo corpo, na guitarra que arde e cura, numa fúria fornicada. Dionisíacos e desafiantes, os Loosers são um colectivo mutante de natureza improvisada que deita por terra as noções de géneros, tempo e espaço. A liberdade que sempre os caracterizou assume formas aracnídeas e apocalípticas. Com o poder do nervo e da tensão, dão dor e prazer, ritmo e ruído, numa experiência de extravasamento e elevação a transe. Ana Patrícia Silva

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