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Mark Lanegan

Mark Lanegan: "Os Dead Combo são uma das melhores bandas de sempre"

O antigo vocalista de Screaming Trees está de regresso a Lisboa. Nesta quarta-feira, apresenta ao vivo o novo disco, “Somebody's Knocking”. Falámos com ele.

Por Tiago Neto
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“Foi um trabalho de amor”, começa por dizer Mark Lanegan sobre Somebody’s Knocking, o seu 11.º álbum, editado dia 18 deste mês. “Sempre quis fazer um disco com músicas orelhudas. Estou contente que este tenha servido o seu propósito.”

O cantor e compositor americano, que toca quarta-feira no Lisboa Ao Vivo, está mais ponderado, inabalável. Isso reflecte-se na escrita, na forma como carrega o passado, e como se vai revendo no som que lhe sai das mãos. “Com sorte estou a tornar-me num compositor melhor, sinto que estou. [A música] está a sair-me melhor agora do que alguma vez esteve. Estou mais rápido. Provavelmente há muita gente que diz o contrário, que estou a ficar consideravelmente pior, mas essa é a natureza da música.”

Somebody’s Knocking é, por isso, um disco diferente. Refinado e aprimorado, com uma estrutura que comporta princípio, meio e fim. “Ainda penso nos discos de uma forma antiquada, em que a sequência é importante”, confessa. “Por outro lado, quero que este seja um disco com o maior número possível de músicas boas, que entrem no universo de alguém como possíveis singles. Das outras vezes que tentei fazê-lo, não consegui.”

A sonoridade viaja por diferentes destinos, cruza electrónica e rock, mas a voz será sempre o gancho familiar. Uma respiração trazida pela música que o acompanha e que continua a ser decisiva na criação do seu som. Apesar de pensarmos nele como um homem do rock, até da folk, o que o inspira hoje, como ontem, é a “electrónica underground”. “Ouço muita música britânica clássica, aquela que não tinha regras, meio industrial/ experimental/ que se foda”. Foi o que o acordou em miúdo. É o que ainda o acorda.

Sobre as letras, diz não ser poeta, apenas músico. “Alguns podem dizer que sou, outros podem dizer que sou um porco de merda que não tem trabalho há 30 anos. É tudo uma questão de perspectiva”, ironiza. “Eu leio poesia e gosto, como forma de arte, mas quando a minha música te move pelas palavras, consigo olhar e ver que há ali uma música, não poesia.”

Mas a incursão pela escrita não se restringe às letras. Em 2020, Sing Backwards And Weep, o livro de memórias, chega às lojas. São histórias que atravessam os dez anos que passou em Seattle, os “anos negros”, como lhes chama, durante aquela que ficou conhecida como a época do grunge. “Como alguém disse, ‘ou chegas a velho ou não chegas’. Eu comecei a perder os meus melhores amigos quando era adolescente e sei que muitos desses tipos davam tudo para viver mais um dia”, admite.

“Fui um sortudo por poder fazê-lo. Se acho que é a altura certa para escrever a história da minha vida? Não.” Mas a insegurança que sentiu nos 90s, quando lhe fizeram a primeira proposta para escrever a sua história e achou que ainda era “prematuro”, desapareceu.

De regresso a Lisboa, Lanegan aproveitou também para falar sobre a cidade, com a qual diz ter “uma ligação especial”, associando-a imediatamente aos Dead Combo. Tem pelo duo uma devoção profunda. Não sabia do fim anunciado da banda, e isso entristece-o, mas as memórias acompanhá-lo-ão sempre. “É de partir o coração porque a certa altura até falámos em fazer um álbum completo, o que seria lindo. Eu amo-os, são seres humanos lindíssimos e são, também, uma das melhores bandas que alguma vez existiu”. “Deixa-me triste, claro, mas quero celebrar a lindíssima música que fizeram e a banda incrível que são. A música deles vai perdurar no tempo, isso é o melhor que podes pedir.”

Crítica: Mark Lanegan

"Somebody's Knocking" (Heavenly)

★★★☆

Que disco mais adequado para Dia de Finados, Halloween e outras festas dos mortos. Sim, festas. Mark Lanegan continua negro, negro, quase tétrico, mas agora cada canção é, na prática, um convite à dança. Uma dança de esqueletos, uma festa a que todos comparecem vestidos de negro. Mas decididamente festa, seja no registo electrónico, seja nas guitarras que neste disco ganham claramente aos sintetizadores e caixas de ritmos que marcaram a sonoridade dos discos da última década. A electrónica ainda aqui anda, e domina mesmo algumas canções, como “Dark Disco Jag” ou o disco-sound de “Penthouse High”, com as suas referências a fantasmas, por entre aquela batida de uma alegria contagiante. Mas é nas canções dominadas pelas guitarras, como “Disbelief Suspension”, “Stitch It Up” ou, por exemplo, “Gazing from the Shore”, que Mark solta a franga e põe todo a gente a dançar ao som de poderosos riffs. Por uma hora e tal, a vida vence a morte. 
Manuel Morgado

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