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MURAIS
© Ana Viotti MURAIS

MURAIS: “Queria afastar-me de Linda Martini e PAUS”

Hélio Morais já não é só o baterista de Linda Martini e de PAUS. É ele próprio, é MURAIS. Falámos com o cantor e compositor.

Por Luís Filipe Rodrigues
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O país estava prestes a mudar em Março de 2020, da última vez que nos vimos. Naquela terça-feira cinzenta, Hélio Morais, o baterista de PAUS e Linda Martini, estava a par da pandemia, temia que o forçasse a adiar a edição do primeiro álbum a solo e a cancelar concertos – os dele, os das suas bandas, os dos artistas que agencia. Mas nem ele nem ninguém tinha noção do que vinha aí. Desde então, o disco homónimo de MURAIS – é assim que Hélio assina as canções que escreveu sozinho – foi sendo adiado. Uma e outra vez. Até que finalmente saiu, com um ano de atraso, em Abril. A partir de terça, 1 de Junho, ele mais o baterista João Vairinhos, o teclista Miguel Ferrador e, apenas em Lisboa, o saxofonista João Cabrita vão começar a mostrá-lo ao vivo. O primeiro concerto é no Maria Matos.

Teria feito algo diferente se soubesse o que sabe hoje? “Não”, começa por dizer, ao telefone. “Para todos os efeitos, enquanto artista solo, enquanto MURAIS, estou a começar. Muitas pessoas ainda não associam o nome MURAIS a Hélio Morais. E tem que haver todo um trabalho que tem de se complementar. Tem que haver a edição de um disco, as lojas têm que estar abertas para as pessoas o poderem comprar, tem que haver concertos, tem que haver espaço na imprensa para promoção. E naquela altura não havia espaço.” Faz uma pausa. “Talvez tivesse feito uma coisa diferente. Talvez tivesse tirado este ano para fazer uma pós-graduação. É algo que tenho vontade de fazer, e tê-la-ia feito mais cedo se soubesse que isto ia durar tanto tempo.”

Além de ser músico, teve e tem outros trabalhos na indústria. Passou pela Lisboagência, pela Enchufada, hoje é agente de bandas e um dos responsáveis pelo HAUS. Será a pós-graduação o primeiro passo para mudar de vida? “Não. Quero fazer algo na área da música, das Ciências Musicais, na NOVA”, conta. “Já tenho 41 anos, e como disseste já trabalhei numa série de empresas da indústria. E tenho o HAUS também, que é uma criação nossa, dos PAUS. Sinto que há uma série de áreas que não dependem da venda de espectáculos e que ainda me cativam e dão vontade de investir. Até porque fiz um curso que detesto, Engenharia Electrotécnica. Nunca fiz nada com ele, tirando dar-me jeito para algumas folhas de Excel. Desta vez, gostava de estudar uma coisa que me desse gozo.”

Nos próximos dois meses, porém, não terá muito tempo para pensar isso. Tem de mostrar os seus MURAIS ao país. Confessa que o disco “existe por um acaso”, mas está contente. As suas canções nasceram porque, certo dia, Nuno Geraldes, na altura o tour manager dos Linda Martini, pôs na sala de ensaios da banda um piano, herdado de uma digressão europeia de Sufjan Stevens. “Como era a última data, eles iam mandar o piano para o lixo ou então iam oferecê-lo a alguém. Ficou o Nuno com ele”, diz. “Quando eu vi o piano, pensei: sou um grande nabo a tocar guitarra, portanto vou tentar aqui o piano. Sempre tem qualquer coisa de percussão. Meio percussão, meio cordas. E comecei a criar estruturas instrumentais que me permitissem também cantar, e aprender a escrever letras”, resume. “Fui fazendo as canções sem grande plano. Nem tinha a ambição de fazer um disco.” 

Só ao fim de uns anos, à medida que se começou a acostumar ao piano e à sua voz, é que o disco se tornou uma meta. Algumas das canções de MURAIS datam, acha ele, de 2015. Por volta de 2017, começou “a trabalhar com a ideia de fazer um disco”. E em 2019 entregou as canções a Benke Ferraz, dos Boogarins, o único outro homem, além de Hélio, que toca em todas as faixas de MURAIS, e o principal responsável pelo seu som. “Disse-lhe que as estruturas eram supersimples e ele podia fazer o que quisesse, estragar o que quisesse. Tirar baterias, tirar teclados, tirar os arranjos de sopros, esticar partes, diminuir. E começámos a construir o disco assim. Porque queria afastar-me dos universos de Linda [Martini] e de PAUS.” Benke ajudou-o a encontrar um lugar, um universo só seu.

Talvez continue a ajudá-lo. “Tenho estado a fazer muito mais músicas, e agora o processo já é diferente. Estou a escrever de outra forma, com a consciência de que quero um disco com um ambiente específico.” E já mandou seis dessas músicas ao Benke. “Ando a ler a História de Angola, numa edição da Tinta da China. E ao ler este livro apercebi-me que havia dois portos principais em Angola que faziam correspondência directa com dois portos no Brasil. Um deles era Luanda, a terra dos meus pais, que fazia ligação com o Recife [onde vive Benke]”, partilha. “Tenho andado com vontade de fazer um trabalho de investigação sobre de que forma a música de um sítio influenciou a do outro. Estou muito interessado nisso, e talvez me faça mais sentido ainda produzir com o Benke, porque ele também tem estado a fazer algum trabalho de pesquisa nesse sentido em Pernambuco.” Vamos ficar à espera de ver, de ouvir, que MURAIS pintam desta vez.

Teatro Maria Matos. 1 de Junho (Ter) 20.00. 12€.

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