Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right O bairro de Stereossauro tem hip-hop com fado dentro

O bairro de Stereossauro tem hip-hop com fado dentro

O produtor e DJ reuniu Carlos do Carmo, Camané, Ana Moura, Capicua e Gisela João num disco de electrónica, com Amália, Marceneiro e Paredes em pano de fundo.

Stereossauro
Duarte Drago
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Quando Stereossauro entrou no arquivo da Valentim de Carvalho, parecia um adulto numa loja de doces: um lambão criterioso. Tinha à sua frente as gravações originais da Valentim de Carvalho, a que a editora, numa abertura sem precedentes, lhe deu acesso privilegiado. “Já levava uma ideia do que me iria interessar mais”, diz o DJ e produtor. Pegava num tema e levava-o a Fernando Rascão. O técnico, que o acompanhava e “conhece aquele catálogo de trás para a frente”, afinava a selecção: “Neste estilo, nesta velocidade, com este ambiente ou com esta emoção, tens este e este, a melhor gravação é de 77.” Os olhos ainda brilham ao contar esta história. Passaram quase dois anos. Uma colaboração que não está na ficha técnica de Bairro da Ponte, mas fundamental para o álbum que é apresentado ao vivo nesta quinta-feira, 28, no Lux. Um concerto-festa cheio de convidados.

Gisela João é uma delas. E uma das muitas vozes do fado que participam no disco. Ouvimo-la em “Vento”, um original escrito especificamente para a sua voz, carregado de mágoa, gutural. “Fiz o exercício de ouvir os dois álbuns dela e perceber as escalas em que ela andava mais frequentemente. Percebi que havia uma escala que ela repetia sete ou oito vezes. E isso foi a base para fazer uma sequência de acordes muito minimal”, recorda Stereossauro. “Gravei só as teclas, os acordes de piano e enviei-lhe. E passei à parte de escrever a letra. O arranque foi muito difícil: era a primeira vez. Não fazia ideia por onde começar. Se fosse uma música, facilmente começava por um lado qualquer.” Ficou assim: “Quando a tua voz/ Entrou na minha casa/ Abri as janelas/ Abri as minhas asas/ O vento soprou para nós/ Levou-nos a todo lado/ Soltei as veias/ Esqueci todo o meu fado”.

Esta história de amor não vai acabar bem. Stereossauro virou o espelho para Gisela João, para a vida emocional da artista, mas não se escondeu. À segunda letra, “Depressa Demais”, para a voz de Ana Moura, abriu uma porta que estava bem fechada. “É muito pessoal: é sobre a minha mãe, que faleceu quando eu tinha cerca de 20 anos”, revela. “Como queria dar-lhe para cantar algo que tivesse uma carga emotiva forte, pensei: bem, tenho de escrever sobre algo que me diga alguma coisa. Tive de ir buscar bem fundo e, sim, foi um bocado emotivo fazer isso.” O tema conta com DJ Ride, com quem Stereossauro faz dupla nos Beatbombers. Ana Moura viu-os na Eurovisão, em Lisboa, “e gostou muito” da remistura de “Verdes Anos”. Convidaram-na para uma colaboração – “ela disse logo que sim”. “Foi tudo muito natural” na construção deste disco”, sublinha Stereossauro. “Tive uma grande abertura de quem não vinha do hip-hop ou da música electrónica”, diz. “É um cliché, mas a música acaba por ser uma linguagem universal. Ser do hip-hop ou do rock é indiferente.”

Bairro da Ponte – além de ser o bairro onde Stereossauro cresceu, nas Caldas da Rainha – é um ponto de encontro entre duas músicas urbanas com “muitos pontos em comum”: “O fado ganhou força nos bairros mais pobres. O hip hop também vem das classes mais desfavorecidas.” No fado, há “aquela vertente do improviso, da desgarrada”. “É quase uma battle de hip-hop.” Outra intersecção: “No hip-hop, uma coisa que se calhar vem da herança do reggae é haver um instrumental que é usado por várias pessoas. Os fados tradicionais são muito isso”. Stereossauro reúne neste trabalho gente tão aparentemente díspar como Rui Reininho, Paulo Furtado, Dino D’Santiago, NBC, Slow J, Ace, Paulo de Carvalho ou Camané. Este último é a voz do single mais recente, “Flor de Maracujá” (com letra de Capicua, que também dá voz a “Duas Casas”), e serviu, sem saber, como promotor de uma das colaborações que mais enchem Stereossauro de orgulho: Carlos do Carmo.

“O Carlos do Carmo tem uma história curiosa. Enviei dois temas ao Becas, que é o agente do Camané: um que eu queria para o Camané e um outro. Mandei-lhe um de cariz muito mais dançável, mais festivo, que imaginava que ele não fosse escolher. Quando me respondeu, disse-me que o Camané tinha gostado muito do primeiro tema e que o pai tinha gostado muito dos temas e queria entrar no disco. E eu fiquei... ‘Quem é o teu pai? Não faço ideia do que estás a falar.’ Diz ele: ‘Então, o meu pai é o Carlos do Carmo e esta música que enviaste até tem samples dele, não tem?’ Fiquei um bocado atrapalhado: ‘Pá, tem... Claro que sim, vamos pensar num tema para ele.’” Por sugestão do próprio Becas, gravaram “Cacilheiro”, um original de Paulo de Carvalho que Carlos do Carmo havia gravado há 40 anos – naquele mesmo estúdio da Valentim de Carvalho. É a única versão do disco. Conta ainda com a guitarra eléctrica de Paulo Furtado e a guitarra portuguesa de Ricardo Gordo (que se ouve em 12 dos 19 temas do álbum). Stereossauro deu-lhe um toque latino-americano e enviou “a medo” para o fadista, que “adorou”. Carlos do Carmo contou-lhe depois, em estúdio, que “Cacilheiro” era inicialmente uma bossa nova. “Sem fazer ideia, mas mais ou menos por engenharia inversa, consegui chegar lá.”

Stereossauro não receia que os nomes sonantes do fado abafem os rappers e produtores que entram em Bairro da Ponte. É um encontro entre iguais – apesar de Carlos Paredes estar na base de tudo isto e de Amália se espraiar em samples por todo o disco (Alfredo Marceneiro e o assobio de Vasco Santana também por lá aparecem). No Lux, além de Gisela João, os convidados estão mais do lado de lá desta ponte: DJ Ride, Nerve, Chullage (que aqui assina como Sr. Preto), Nuno Oliveira (bateria) e Bruno Fiandeiro (baixo). “Do ponto de vista visual, vamos ter vídeos para todas as músicas. Não é uma coisa aleatória, tipo VJ. É mesmo vídeo sincronizado ao segundo”, a cargo da Big Fish e da Hello Movement, revela Stereossauro. Um concerto para ver o amanhã, como tão bem se vê de Santa Apolónia. 

Lux, Qui, 23.00, 12€

Crítica: Stereossauro

“Bairro da Ponte” (Valentim de Carvalho)

★★★★★

Fado e hip-hop. Bairristas e boémios, são dois géneros que se atraem e repelem. Stereossauro conseguiu, melhor que nunca, imaginá-los juntos. Com acesso aos masters originais de vultos como Amália, abriu um universo infinito de possibilidades. Convocou cantores, rappers, músicos e produtores – todos a colorir fora das linhas, com arrebatamento e arrojo. Há temas emblemáticos desta sinergia, como “Cacilheiro”, com Carlos do Carmo encruzilhado entre a guitarra portuguesa de Ricardo Gordo e a eléctrica de Legendary Tigerman. Ou “Flor de Maracujá”, com Amália a interpretar Ary dos Santos, Camané a cantar Capicua, o assobio de Vasco Santana e a magia de Stereossauro. E nada disto seria possível sem a sua arte. Com respeito e irreverência, Stereossauro teve uma atitude descomplexada em relação à tradição. Não tratou os samples como peças museológicas, teve a visão de os metamorfosear num novo e inovador som que só poderia ser feito aqui e agora. Bairro da Ponte é uma manta de retalhos sonoros que espelha o mosaico cultural deste país. Louva a beleza da lusofonia, os seus sotaques e sabores. É a apologia de um mundo sem muros, de um Portugal multicultural com a mente aberta e o espírito livre. Um dos mais importantes discos na história recente da música portuguesa. Ana Patrícia Silva

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