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André Rieu
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O fenómeno dos concertos de André Rieu visto à lupa

Respondemos, em tom inequivocamente snob, às perguntas que permitem compreender o “Fenómeno Rieu”.

Por José Carlos Fernandes
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Quem é André Rieu? É um violinista, maestro e empresário holandês que enche estádios de futebol e arenas rock com programas de música “clássica”. Nasceu em 1949 em Maastricht, e sendo o pai, André Sr., maestro da Orquestra Sinfónica de Maastricht, é natural que André Jr. tenha começado a aprender violino aos cinco anos. André Sr. ficou deleitado com os progressos do seu rebento, mas teve uma desilusão quando o viu montar a Orquestra Johann Strauss e cultivar um pot-pourri de lugares comuns do repertório “clássico”, êxitos da “música ligeira”, marchas escocesas, canções de Natal e bandas sonoras famosas. Mas Rieu diz que o pai acabou por o entender. O mundo acaba, mais tarde ou mais cedo, por inclinar-se perante quem vende 40 milhões de discos e recebe 500 discos de platina.

Quão popular é Rieu? Rieu esgotou a Altice Arena em Março, o que é mais gente do que qualquer partido político conseguiria arregimentar em comícios, mesmo afadigando-se as concelhias a enviar autocarros cheios de reformados. Após os quatro concertos de 13 a 16, restam os três de 29 a 31, mas escusa de alimentar esperanças de conseguir bilhete. Foram marcadas mais datas em Novembro, também na Altice Arena, e os bilhetes têm voado num ápice. Apesar de os bilhetes custarem 40 a 120 euros, a popularidade de Rieu é transversal a classes sociais: “Nos meus concertos encontra toda a gente – da senhora da limpeza ao professor catedrático”, proclama o violinista.

Os preços dos bilhetes para ver Rieu não são um pouco puxados?
Pode estar certo de que será integralmente compensado por cada cêntimo, pois Rieu não se poupa a despesas: há quantidades copiosas de balões coloridos, confetti e fogo de artifício e um corpo de bailarinos. Só se estranha a ausência de cavalos amestrados. Os concertos são publicitados de forma a enfatizar os “valores de produção” e o seu atractivo está menos na música do que na ostentação. A Orquestra Johann Strauss tem 60-65 músicos e a equipa completa da tournée, que inclui cozinheiros e personal trainer, soma 110 pessoas. O palco da tournée de 2008 de Rieu era uma reprodução em tamanho natural da fachada do palácio vienense de Schönbrunn, o que, juntamente com a música e o guarda-roupa dos artistas, pretende fazer o espectador recuar ao tempo da imperatriz Sissi e ao mito da Austria Felix.

Nas entrevistas, Rieu confessa que é “muito estúpido” por montar um espectáculo tão dispendioso, insinuando que quase perde dinheiro com ele, mas o fabuloso palácio em que vive em Maastricht comprova que está longe de ser estulto.

Quem foi Sissi?
Sissi foi a alcunha atribuída a Isabel (1837-1898), esposa do imperador austríaco Francisco José I. A sua beleza, o fausto e cerimonial da sua corte, a hostilidade da sogra, a morte de dois filhos, a sua instabilidade emocional e o seu destino trágico (foi assassinada por um anarquista em Genebra) contribuíram para a envolver numa aura romântica. Sissi e os pares rodopiando nos salões do palácio imperial são um símbolo de um tempo de (suposta) harmonia, estabilidade e bemaventurança, mas a verdade é que, por trás do brilho dos candelabros e da vertigem das valsas, o Império Austro-Húngaro apodrecia, como comprovou a sua desagregação no término da I Guerra Mundial. A Austria Felixera tão falsa como o Schönbrunn de contraplacado na tournée de Rieu.

Quem foi Johann Strauss II?
Estando consciente das agruras e incertezas da vida de músico, o compositor e maestro Johann Strauss (1804-49) fez o que pôde para que os filhos não seguissem as suas pisadas. Assim, Johann Strauss II (1825-99) teve de ter lições de música às escondidas, com o primeiro-violino da orquestra do pai. Quando o pai descobriu, aplicou ao rapaz um severo correctivo, mas o apelo da música era demasiado forte, e aos 19 anos Strauss Jr. estreava-se em Viena à frente da sua orquestra. Viria a assumir a direcção da orquestra do pai, após a morte deste, e a ultrapassá-lo em popularidade, ficando conhecido como o “Rei das Valsas”. Os irmãos Josef (a quem o pai destinara carreira militar) e Eduard também granjearam fama como compositores e maestros.

Toda a música clássica é de igual nível?
Rieu é apresentado amiúde como “o embaixador das valsas”, designação que ele não aprecia, realçando que não toca apenas valsas. Estas são, todavia, o núcleo do seu repertório e não foi por acaso que baptizou a sua orquestra com o nome de Johann Strauss. Porém, as valsas precisam tanto de um embaixador como os pombos de Lisboa precisam de um provedor: são demasiado numerosas e os seus dejectos corroem o património histórico. Do que as valsas dos Strauss precisam é de contraceptivos adicionados ao milho. É que, apesar de a “música clássica”, tal como a “poesia” ou a “literatura”, suscitar uma reacção automática de veneração, há música clássica bera e há até compositores de génio que cometeram obras medíocres – Beethoven com a Vitória de Wellington, ou Tchaikovsky com a Abertura 1812. Os Strauss vienenses, esses, nunca se ergueram acima da música de salão.

Os megaconcertos de Rieu são uma inovação no mundo clássico?
Não. Johann Strauss II não só compôs valsas de grande sucesso, como foi precursor do megaconcerto bombástico. Na verdade, os espectáculos de Rieu empalidecem face à tournée americana de Strauss II em 1872. A desmesura começou logo pelo seu cachet: 100.000 dólares (quantia fabulosa para a época) por 14 concertos. A orquestra que o aguardava em Boston contava com 20.000 cantores, 1000 músicos e 20 maestros auxiliares e Strauss dirigiu com uma batuta luminosa (a única forma de ser visto a tão grande distância). O som produzido por esta horda de músicos foi, como seria de esperar, cacofónico, mas o público delirou.

Rieu é um violinista excepcional?
É certamente competente, mas o seu repertório e a sua, digamos, abordagem não permitem avaliar se é excepcional. Os press releases realçam que Rieu toca num violino Stradivarius de 1732, mas o seu website insinua que ele possui igualmente um Domenico Montagnana de 1720, o Giuseppe Guarneri Del Gesù “Carrodus”, de 1743, e o Goffredo Cappa “Saluzzo”, de 1730 (mas o trecho em questão está tão infestado de erros que merece pouca credibilidade). De qualquer modo, não são os bons violinos que fazem os bons violinistas, tal como os Ferraris não fazem bons condutores, como atestam os bólides espatifados por craques de futebol.

Rieu é aclamado unanimemente pelo público e pela crítica?
Pode dizer-se que sim, com excepção de uma minoria de criaturas quezilentas, picuinhas e invejosas. Mas Rieu paga-lhes na mesma moeda: “Os puristas da música clássica dizem sistematicamente que o que eu faço é uma perversidade [...]. Se tem uma coisa que odeio é gente snob”, afirmou em entrevista de 2014 à revista brasileira Época, ideia reforçada em entrevista recente ao Observador: “Eu odeio o snobismo”.

É seguro levar crianças a concertos de André Rieu?
Tão seguro como levá-las à Disneylândia (e não muito diferente). Se tiver dúvidas, consulte o seu pediatra. Mas o mais provável é que, no concerto de Rieu, encontre o seu pediatra, acompanhado pela prole e pelos sogros – sim, os concertos de Rieu também são senior friendly.

Sou intolerante ao glúten – posso ir a um concerto de André Rieu?
Sem dúvida. Os seus concertos só são desaconselhados a diabéticos.

Qual é o peso de Rieu no PIB da Holanda?
É difícil de avaliar, mas é o suficiente para que a fundação Buma Cultuur lhe tenha atribuído por sete vezes – em 1996-98 e em 2008-11 – o Prémio Buma Export, que distingue músicos holandeses com sucesso comercial internacional. Talvez valha mais do que as tulipas.

André Rieu tem contribuído para fazer milhões de pessoas entrarem no mundo da música clássica?
Este argumento é, amiúde, esgrimido contra os snobs, mas está por provar a sua veracidade. Tal como quem se inicia na leitura com os romances de Dan Brown dificilmente chegará a Borges, também é improvável que quem entre na música “clássica” pela porta Rieu se venha a tornar entusiasta dos madrigais de Monteverdi. 

Concertos em Lisboa

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Ano novo, vida nova. Pelo menos é o que se diz. Janeiro é altura de balanços, de mudanças e promessas de melhoramento pessoal que não tardam muito a ser quebradas. Talvez por isso, ou por causa do frio que se costuma sentir, os concertos não abundam – a agenda ainda vai encher-se um pouco mais, de semana para semana, mas não muito. O que não quer dizer que não haja quem se esforce para nos fazer sair de casa.

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