O melhor que ouvimos em Janeiro

Passa-se pouco em Janeiro, do ponto de vista editorial (e não só). O que não quer dizer que não haja coisas para ouvir

Photograph: Courtesy Paolo Pellegrin

Não se passa grande coisa em Janeiro. Pelo menos do ponto de vista comercial e editorial, nos discos e não só. É, por isso, a altura perfeita para escrever e ouvir os discos que não tiveram a atenção merecida nos últimos meses do ano anterior, como por exemplo os últimos dos U2. Ao mesmo tempo, há sempre espaço, tempo e atenção extra para ouvir e escrever sobre as novidades que valem a pena, do Ephorize de CupcakKe ao Misfit de The Legendary Tigerman.

O melhor que ouvimos em Janeiro

CupcakKe - Ephorize

4 /5 estrelas

A internet deu-nos um punhado de rappers brilhantes. Outros assim-assim. Outros nhec. Até este Ephorize – dois discos e duas mixtapes pelo caminho, desde 2016 – CupcakKe estava entre o assim-assim e o nhec. Atenção, o conceito sempre esteve lá, dirty-rap para mandar preconceitos abaixo – sim, “sou mulher e quero falar de sexo e de órgãos genitais” é sempre um bom princípio – só que a qualidade, sobretudo no que à produção e às letras diz respeito, escasseava. Sempre teve a métrica, que convenhamos está melhor do que nunca, e a capacidade rítmica de se reinventar em dez segundos. Agora dá ares de última evolução, que nem um pokémon que atinge o seu potencial, que se torna capaz de arrumar com os rivais sem grande esforço.

Falamos de um disco com 15 faixas que formam um bolo, perdão, um cupcake robusto, coerente e com temáticas que exterminam a ideia de que a rapper é um mero fenómeno da internet, que só sabe falar de desejo sexual. E se é certo que isso se mantém, numa escrita mordaz e quase de cartoon (oiça-se “Spoiled Milk Titties”, onde até um som de esparguete a ser sugado reproduz), mas há muito mais. Há um maravilhoso hino LGBT, canção de rua larga e iluminada, chamada “Crayons”. Já “Navel” – provavelmente a melhor música do disco – é uma egotrip embebida num instrumental flautado e a soar a 90s. Temos evidentemente também que abordar “Fullest”, onde verbaliza coisas como: “Try to clown me I’ma Ronald McDonald you (Donald you)”. E o melhor é que essa última faixa decorre num instrumental numa qualquer bodega de Havana, ou, eventualmente, num baile onde mandam as danças de salão latinas.

Não fossem dois erros de percurso, duas canções com beats meio house que podiam bem não estar aqui, diríamos que este é um belo disco com rap de fusão. Aliás: é na mesma. Cheio de malagueta. Como se pretende.

Miguel Branco

Humcrush - Enter Humcrush

5 /5 estrelas

Ah, a Noruega! Fiordes majestosos, neve imaculada, rochas altaneiras, preguiçosos fiapos de neblina, água plúmbea frisada por uma ondulação suave, nuvens que levam toda uma tarde para atravessar o céu. Um pouco como a Islândia, mas sem o factor de perturbação dos vulcões. Espera-se, pois, que a música feita na Noruega espelhe a paisagem e seja de uma beleza serena, estática e austera, e boa parte da música com essa procedência que é publicada na editora de jazz ECM corresponde, com efeito, a esta expectativa. E depois há os Humcrush.

O projecto que une os teclados e electrónica de Stale Storlokken à bateria e electrónica de Thomas Stronen estreou-se em disco em 2004 e desde então lançou mais três álbuns, sempre na editora norueguesa Rune Grammofon. Ao quinto álbum mudaram-se para a lisboeta Shhpuma e assinaram a sua obra mais intensa: a componente ambiental (ambiental, mas malsã e corroída pela ferrugem, entenda-se) ficou reduzida a uma faixa – “Puncture” – e nas outras imperam grooves maníacos, tornados de ferro-velho, bátegas de chuva ácida, fragmentos rejeitados de bandas sonoras de filmes de terror de baixo orçamento, música para raves em depósitos de resíduos nucleares. Chegados à derradeira faixa, “Exit Humcrush”, é altura de devolver ao “chill” da expressão chill out o sentido de “arrepio”: a agitação amaina e mergulhamos nas brumas sulfurosas de um film noir dirigido por David Lynch.

José Carlos Fernandes

The Legendary Tigerman - Misfit

4 /5 estrelas

Em 1961, John Huston foi ao deserto filmar a solidão, real e trágica, de três actores (Clark Gable, Montgomery Clift, Marilyn Monroe), em The Misfits (Os Inadaptados). É também no deserto que Paulo Furtado põe em cena um novo alter ego, Misfit, para, nos dar a ouvir a solidão. Ou, no caso, o vazio, para o qual remete o documentário-ficção Fade Into Nothing que acompanha esta edição. Um diário, em forma de road movie, revelador do cenário, paisagístico e interior, em que foram escritas estas 11 canções.

Esqueçam os lençóis melódicos com que Ry Cooder nos dá a ouvir o deserto (em “Paris, Texas”, por exemplo). Aqui, deserto é mais que solidão, é sol a pino (“Red Sun”), carne em brasa, buraco negro na alma (“Black Hole”). E isso pede, como pediu um dos co-produtores deste disco, Johnny Hostile (o outro é Dave Catching), “fucked up guitars” e “fat drum sounds”. E ainda toda a espécie de efeitos, distorções de voz e instrumentos, e overdubs, o que não é novidade com The Legendary Tigerman, a que se juntam – isso sim, novo – Paulo Segadães (bateria) e João Cabrita (sax). O resultado é uma wall of sound suja, num regresso radical ao rock’n’roll, com variações de fraca amplitude ao longo de 40 minutos. “Fix of Rock’n’Roll” será a síntese mais feliz, e eventualmente comercial, a par do quase-funk quase-reggae “Sleeping Alone”.

Quercus - Nightfall

4 /5 estrelas

June Tabor costuma ser arrumada na folk britânica, mas nem sempre a sua música se deixa etiquetar facilmente. O seu álbum de 2003, At the Wood’s Heart, teve a direcção musical do pianista Huw Warren, como é usual desde 1988, e contou, entre outros colaboradores, com o saxofonista Iain Ballamy. A afinidade entre eles levou a que começassem a tocar em trio e gravassem um disco ao vivo em 2006, Quercus. Talvez por este não se enquadrar num género reconhecível, levou sete anos até encontrar quem o editasse – e não espanta que tenha sido Manfred Eicher a fazê-lo, editor que escolheu para a sua casa o nome deliberadamente ambíguo de Edition of Contemporary Music. O trio de Tabor, Ballamy e Warren – agora sob o nome de Quercus – lançou agora o segundo disco, que retoma as coordenadas do anterior: a reinterpretação de canções tradicionais das ilhas britânicas em atmosfera serena e rarefeita. Não há melhor exemplo da sua arte alquímica do que “On Berrow Sands”: a canção tradicional do Somerset metamorfoseou-se numa aguarela impressionista, que nos dá a ver a incessante dança da luz sobre as ondas, uma beleza que não deve distrair-nos dos perigos das correntes e baixios: “areias cintilantes amortalham os nossos defuntos”.

A voz de Tabor tornou-se mais escura com os anos e o que perdeu em extensão ganhou em subtileza e matizado e Ballamy e Warren são acompanhadores atentos e discretos. Quando o repertório se afasta do cancioneiro tradicional os resultados são menos felizes: é o caso do standard “You Don’t Know What Love Is” e de “Don’t Think Twice, It’s Alright”, de Dylan – mas no segundo caso a matéria-prima é pobre e isso torna-se mais óbvio quando a canção é esticada até mais de sete minutos.

José Carlos Fernandes

Spotlights - Seismic

5 /5 estrelas

Na escala de intensidade de Mercali, Seismic, o segundo dos Spotlights, é disco de, pelo menos grau nove – “grandes danos em construções sólidas, com colapso parcial; edifícios deslocados das suas fundações; liquefacção do solo”. Vespeiros de guitarras saturadas de efeitos, riffs obsessivos, baterias brutais e atmosferas sombrias e ominosas poderiam levar a catalogar os Spotlights no prog-metal, mas, aqui e ali, há um vibrafone a introduzir leveza e as vozes de Mario e Sarah Quintero andam, durante a maior parte do tempo, nas nuvens da dream-pop.

Nas faixas menos tenebrosas (como em “Ghost of a Glowing Forest”) não se anda longe do shoegaze, nas mais sombrias e ferozes, os Russian Circles, os Jesu ou os Pelican são referências possíveis (há também afinidades com os subvalorizados Hum, particularmente em “Under the Earth”). Que a menção destes nomes não sugira que os Spotlights são derivativos – o seu universo sonoro é uma criação original.

O que poderá parecer mais estranho é que todas estas convulsões telúricas e tormentas eléctricas sejam concebidas e tocadas na íntegra por um casal nova-iorquino – só recorrem a um baterista para os concertos. Espera-se, a bem da harmonia familiar, que a música dos Spotlights não espelhe as tensões na vida íntima dos Quinteros.

José Carlos Fernandes

David Bruno - O Último Tango em Mafamude

4 /5 estrelas

A ingratidão é áspera. É um dos sentimentos mais complexos pelo qual o ser humano tem de passar na vida. Saber domá-la é um truque possivelmente maior do que gerir leões e conduzir elefantes. Mas David Bruno – aka David Besteiro aka dB aka meia parte de Conjunto Corona aka melhor produtor nacional – não é um domador qualquer.

No início de 2016, enquanto 4400 OG, editava um disco homónimo de homenagem à sua cidade: Vila Nova de Gaia.
Elogiava-lhe as curvas, catalogava-lhe o dialecto, a movida taciturna, as recepções educadas no McDrive. Disse-lhe tudo. E Gaia nada. Qual obrigado, como um pai que após um 19 diz ao filho que não fez mais que a sua obrigação. Ora David Bruno não é um filho de se ficar.

Em O Último Tango em Mafamude, vídeo-disco (nota para um vídeo maravilhoso com referências da década de 80 e um John Travolta cheio de brilhantina a acompanhar o disco na perfeição) ou, se preferirem, beat-tape, vira-se para Gaia como quem se liberta da falta de reconhecimento, como quem já não está para isto e diz muito sucintamente: vou para Rio Tinto, Gondomar.

E o mais incrível é a forma genial como diz. dB é um mestre do corte e cola, um devorador de samples que aqui dançam entre música romântica e hip-hop dos 90s, entre Marante e Madlib, entre Toy e J Dilla.

Há um sentimento de desilusão nos solos de guitarra que soam a Bon Jovi, nas viagens de carro suburbanas – cantos taciturnos onde se encosta o seu “Alfa Romeu & Julieta” e se canta “Baby relaxa e sente o som” – e no sample de um discurso de Guilherme Aguiar.

Entendemos e estamos solidários perante a dor deste poeta sofredor dos instrumentais. Se estiveres a ler: terás sempre aqui um ombro amigo. Encontramo-nos em Rio Tinto. Abraço.

Miguel Branco

Julien Baker - Turn Out the Lights

A escolha de Sprained Ankle – “tornozelo torcido” – para título do álbum de estreia é reveladora: o assunto de Baker é a dor. Turn Out the Lights soa mais polido do que Sprained Ankle, que foi gravado da forma mais elementar, mas as canções seguem modelo análogo: guitarra ou piano minimais e discretos arranjos de cordas deixam quase todo o espaço a uma voz de expressividade e intensidade estarrecedoras, que nos desvela um abismo de desolação, angústia e depressão. A pop tem uma longa e nobre tradição de canções confessionais, mas o convívio com ela é incapaz de nos preparar para este disco em carne viva, digno de ombrear com Songs of Love and Hate, e que, pasme-
-se, é obra de uma rapariga de 22 anos.

Todos os relacionamentos estão condenados – “Tu és tudo o que desejo, eu sou tudo o que abominas” – e nem sequer existe o alívio da ilusão – “Talvez tudo acabe por resolver-se/ Eu sei que não, mas preciso de acreditar que sim” – e Baker está consciente de que é a sua pior inimiga – “Só queria poder dormir, mas quando apago a luz/ Não há ninguém que fique entre mim e eu própria” – e de que há algo errado nos seus circuitos emocionais – “Se pudesse ser o que quisesse/ Seria um electricista/ Entraria pelas minhas orelhas/ E rearranjaria as ligações no meu cérebro/ Um outro eu habitaria este corpo”.

Turn Out the Lights deixa o ouvinte perante um dilema ético: o sofrimento é tão excruciante e o desamparo tão completo que a mais elementar empatia faz-nos desejar que Baker encontre quanto antes consolo e rendenção; mas, por outro lado, fica a roer-nos a expectativa de mais uma colecção destas flores de terrível beleza, nascidas do martírio.

José Carlos Fernandes

Miguel - War & Leisure

4 /5 estrelas

Amor em tempo de guerra, de cólera. Ou guerra e diversão, na explícita crueza do título. A proposta de Miguel para estes tempos de mísseis e Trumps que nos atormentam é explicitamente erótica, nem tanto pela repetida utilização da f-word (“Come Through and Chill”), mas antes pela sensualidade que exala de toda a sua música. As guitarras deslizantes, insinuantes, a secção rítmica a chamar o corpo a todas as danças, a voz ora funda ora lânguida (“Wolf”). A música de Miguel insere-se, aliás, numa linhagem que remonta a Marvin Gaye, tem em Prince uma influência evidente (“Told You So”), e presta homenagem a nomes, como Stevie Wonder, que souberam cruzar a soul com o r&b – Prince e Wonder juntos, aliás, em “Pineapple Skies”, uma das canções mais luminosas de um disco que nunca soçobra aos tempos sombrios (“Now”). Este quarto registo do músico californiano é, sem complexos, um claro movimento num sentido mais pop, comercial. E, sem qualquer contradição, uma nova confirmação como um dos grandes compositores da actualidade.

Manuel Morgado

U2 - Songs of Experience

A Rolling Stone teceu os maiores elogios a Songs of Experience. Outros, especialmente os britânicos, declararam os U2 quase moribundos. É a vertigem das redes sociais – só se pode ser besta ou bestial, não há meio termo – a contaminar a crítica musical (vide os dois últimos anos dos Arcade Fire).

Acontece que o mais recente dos U2 não se ajeita a essa moda. Na pior das hipóteses, será um disco médio, e poderíamos alegar a favor dessa tese com “The Little Things That Give You Away”, um preguiçoso pastiche dos tempos de Joshua Tree. Mas excepção é excepção e, na verdade, a maioria das canções aqui presentes são bem mais interessantes e até reveladoras de uma inesperada vitalidade, se tivermos em conta as hesitações (três anos...) que rodearam este disco. Canções pop, de puro divertimento, as melhores delas: “The Showman”, “Get Out of Your Own Way” ou “Summer of Love”, em que dificilmente a mensagem política (Síria) se sobreporá ao ritmo de dança indolente. Nada há aqui de novo, sim. Mas era suposto haver?

Manuel Morgado

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