O melhor que ouvimos em Outubro

De LCD Soundsystem a Camané, estes foram os melhores discos que ouvimos em Outubro. Escutem com atenção

Fotografia: Arlindo CamachoCamané é um dos protagonistas do Fado no Castelo

Outubro é tradicionalmente um dos meses mais fortes do ano discográfico. Com lançamentos a rodos e música para todos os gostos e sensibilidades. Entre os melhores discos que nos passaram pelos ouvidos em Outubro há de tudo: da electrónica agridoce dos LCD Soundsystem ao fado olímpico de Camané, passando pelo indie rock das L.A. Witch ou a folk tremeluzente de Mazgani.

 

O melhor que ouvimos em Outubro

L.A. Witch - L.A. Witch

4 /5 estrelas

Um coelho da cartola. Quer dizer, estando nós no reino da bruxaria – de um trio de bruxas que faz rock com restos de óleo da garagem ou com os lábios gretados de tempo a mais no deserto – talvez o coelho saia da cartola vestindo preto integral, com voz de saqueador.

Quatro anos após a sua formação, as L.A. Witch estreiam--se com um homónimo que soa a travessia, daquelas com um cantil de whisky no bolso de dentro do casaco, daquelas em que se o homem da estação de serviço não tem cuidado ainda lhe roubamos as garrafas e as bolachas todas. Há algo de impostor na voz nasalada e evocativa de Sade Sanchez – ecos entre jeitos country e punk – e bem sabemos como a imagética do crime é sedutora (basta escutá-la na inaugural “Kill My Baby Tonight” para querermos ir presos com estas feiticeiras). Em “Untitled” só nos falta o cavalo para começar o rodeo; o solo da baixista Irita Pai em “Baby in Blue Jeans” parece sacado do tom laranja das montanhas do Arizona.

Em suma, é um indie rock de roupa escura, sem medo de ver sangue, saído da garagem directamente para a aridez do deserto. Onde nunca lhes faltam líquidos. Miguel Branco

LCD Soundsystem - American Dream

4 /5 estrelas

“American Dream”, a canção, sintetiza a coisa: a electrónica é planante, borbulhante por vezes, e há mesmo coros doo woop a envolver a voz de quase crooner de James Murphy. Como numa valsa pós-moderna. Mas a melodia rima com melancolia. E do que a canção fala mesmo é da passagem do tempo, dos sonhos que envelhecem connosco. Podemos passar a noite a dançar, por exemplo ao som dos LCD Soundsystem, e até misturar ácidos com revoluções, mas o que o espelho da manhã nos devolve é mesmo a idade.

A música de Murphy teve sempre esse sabor agridoce tão típico de Nova Iorque. Este quarto disco em 15 anos não é excepção e até talvez acentue esse desencanto. Trata-se de um regresso após cinco anos de silêncio, iniciados com um memorável concerto de despedida... E o mais importante que há a dizer é que American Dream mantém a banda na linha da frente do melhor que por aí se faz. Ou seja, o quarto disco de uma série indispensável para entender a música contemporânea. Nem tudo passa por aqui, é certo, mas poucas músicas sintetizam tão bem a ilusão e desilusão deste início de milénio.

Os LCD Soundsystem continuam a ser James Murphy, que escreve todos os temas, canta e toca uma miríade de instrumentos, electrónicos quase todos. A frieza e o esquematismo, a lembrar por vezes os Kraftwerk (“How Do You Sleep”), são temperados por secções rítmicas e guitarras eléctricas (“Emotional Haircut”), embora nem mesmo elas consigam sempre quebrar o gelo.

Das muitas referências musicais que por aqui passam, vale a pena registar as que abrem e fecham o disco: “Oh Baby”, uma quase homenagem aos Suicide, de Alan Vega (“Dream Baby Dream”), e “Black Screen”, uma longa e muito pessoal despedida de David Bowie, à volta de cuja influência se constrói, aliás, outra canção: “Call The Police. Manuel Morgado

Mazgani - The Poet’s Death

4 /5 estrelas

Se a música tivesse tradução visual, a de Mazgani neste disco seria algo como pequenas luzes, traços, outras e maiores luzes, cores tracejadas, interrogações no escuro. No azul escuro da noite, tal como na capa de Michelle Henning, designer de eleição de PJ Harvey, que assim se cruza mais uma vez com a voz deste iraniano de Lisboa. Este é  um regresso às canções em nome próprio, depois da bem-sucedida aventura das versões de Lifeboat (2015). Um regresso aos blues seminais, sem grandes artifícios, só ritmos e guitarras vincadas, ora lancinantes ora de embalar. Uma tensão sonora com tempo para se espraiar. Dez temas em busca da alma (“The Traveler”), com mais perguntas que respostas (“Saint of All Names”), talvez com um pouco mais de espiritualidade do que antes (“Breath of Gold”). E depois, a fechar, “The Faintest Light”, delicadíssima balada, cordas em crescendo, abrindo caminhos de luz na noite escura e azul. Manuel Morgado

Lizz Wright - Grace

4 /5 estrelas

Lizz Wright tem uma daquelas vozes capazes de transformar a mais banal das canções numa oração, um exercício com tanto de religioso como de carnal. Não é o caso, no que respeita às canções, entenda-se. Joe Henry, o produtor, um homem de tradições, terá sugerido 70 canções, das quais Lizz escolheu nove, juntando--lhes mais uma, que assina em co-autoria. São temas que atravessam um século de música americana, do gospel aos blues, ao country e ao r&b. Dylan, Ray Charles, k. d. lang, Rose Cousins são alguns dos autores que por aqui passam. Lizz e Joe apropriam-se de cada canção e encenam pequenos momentos de magia. “Grace”, por exemplo, começa da forma mais subtil possível, com a voz no centro do palco, para mais tarde receber um coro que entra de mansinho e evolui para um sonante, embora contido, gospel. Ao sexto disco, Lizz Wright continua sem um minuto, um segundo, de deslize. De uma elegância intransigente. Manuel Morgado

Camané - Canta Marceneiro

5 /5 estrelas

Camané já cantou muitas vezes Marceneiro. Logo no segundo disco (1998) há um fado com música da “Marcha do Marceneiro”. Nisso, Camané não se distingue da maioria dos fadistas, já que quase todos acabam por interpretar temas com músicas do grande fadista, seja o “Fado Cravo”, o “Fado Laranjeira”, ou qualquer um dos fados com que Marceneiro ajudou a moldar o fado que hoje conhecemos. Mas Camané obrigou-se a esperar quase duas décadas, a amadurecer duas décadas, para verdadeiramente cantar Marceneiro. Ou seja, para cantar exactamente os fados que Marceneiro cantou. Com aquelas músicas, mas também com aquelas letras e, acima de tudo, com aquela alma.

Não se trata aqui de imitar ou emular Marceneiro, isso seria talvez mais fácil. O que Camané faz é recriar Marceneiro, propondo a sua própria interpretação, a qual, por ser tão íntima da original, acaba por se transformar na melhor das homenagens. Essa é a primeira vitória deste disco, sendo a segunda a coragem de cantar em 2017 estes versos arrancados à boémia, às casas de fados e a uma mundividência da primeira metade do século XX, em que – imagine-se – ainda havia mundo rural (“Quadras Soltas”), ciganos “alquiladores” que “roubavam” camareiras e até mesmo jovens pintores que pintavam na rua retratos das suas prostitutas mães (“Bêbado Pintor”). São quadros quase arqueológicos que convivem com os temas mais eternos do amor e do engano (“Olhos Fatais”) ou da tal tão nossa saudade (“Despedida”). E depois há essa pequena e pouca conhecida pérola que se chama “O Remorso” (interpretação vocal e instrumental superiores) e ainda outra, “Lembro-me de Ti”. A capa de Siza Vieira ou o dueto com Carlos do Carmo são já bónus num disco perfeito. Manuel Morgado

Marco Rodrigues - Copo Meio Cheio

Preconceito nenhum. Há fado-fado, há canções quase pop que parecem fado, há fados tradicionais com letras nada convencionais, há fados quase sem guitarra portuguesa, e por aí fora. O quinto disco de Marco Rodrigues revela um artista plenamente seguro de si, capaz de ignorar todas as fronteiras e ficar à vontade na mesma. A ideia de trazer outros instrumentos para o fado já vinha de trás (aqui, o acordeão em “Fado do Cobarde”, ou o piano e a harmónica em “O Amor Desacontece”). A novidade agora é trazer para o fado autores que nunca nele haviam sequer pensado. E há de tudo: um verdadeiro fado escrito por Agir (“Por Ti”), uma canção pop com nada de fado, pelos Amor Electro (“Copo Meio Cheio”). E as letras inesperadas, com rimas de swag e biscuit, de Luísa Sobral, Carlão ou Capicua, para velhos fados tradicionais. Surpreendente, como permite o fado tanta liberdade e criatividade e mesmo assim ser fado. Manuel Morgado

Ana Bacalhau - Nome Próprio

4 /5 estrelas

A mulher quer, a mulher sonha, a obra nasce. Com o tempo, Ana Bacalhau conseguiu descolar do universo Deolinda e mostrar que dentro dela havia algo que merecia ser ouvido. No primeiro álbum a solo não foge da música tradicional portuguesa, a canção popular conversa com a música anglo-saxofónica com que cresceu. Cavaquinhos convivem com contrabaixo e guitarra eléctrica em canções que vão da alegria garrida à melancolia em cinzas, da colorida gaiata à dama de negro, da menina que ainda vive nela à mulher a livrar-se da carapaça. Canta letras de nomes como Miguel Araújo, Samuel Úria, Márcia, Nuno Prata, Carlos Guerreiro e da própria Ana Bacalhau, que assina três temas. Os autores enobrecem-na quando talham as letras à medida da sua musa. Como “Leve Como Uma Pena” – dentro da canção de Jorge Cruz cabem todos os sonhos do mundo. Ou “A Bacalhau” – um biográfico grito de guerra com a escrita tridimensional de Capicua e música de Luís Peixoto, um delicioso corridinho de cordofones tradicionais. Mas o disco vive sobretudo do magnetismo de Ana Bacalhau, uma intérprete de amplos malabarismos melódicos, capaz de colorir as letras de outros com uma caligrafia muito própria. Nome Próprio é um disco de desassossego, uma declaração de independência de uma mulher sintonizada em si própria, à descoberta de si mesma. Ana Patrícia Silva

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