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Dez obras para ensemble de violas por compositores ingleses

A música inglesa para ensemble de violas é um género caído no esquecimento, mas que produziu música de incomparável beleza.

Por José Carlos Fernandes
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A viola da gamba não foi uma criação inglesa, mas foi nas Ilhas Britânicas que a sua história conheceu momentos gloriosos. É provável que este instrumento de arco tenha surgido em Aragão no final do século XIV, tendo depois ganho difusão em Itália, onde a coroa de Aragão reinava sobre Nápoles e a Sicília, embora alguns autores defendam que o berço da viola foi Veneza. De qualquer modo, foi em Itália que ganhou o nome porque é conhecida: a designação “da gamba” decorre de os músicos segurarem o instrumento entre as pernas (“gambe”), à maneira dos tocadores de rebab do Norte de África, o que a distingue da viola da braccio, que é tocada como os violinos. Os instrumentos da família das violas da gamba distinguem-se da família dos violinos também por possuírem seis cordas (em vez de quatro), um braço mais largo, uma escala com trastos e um som doce e nasalado. Existem em vários tamanhos, sendo os mais comuns soprano, alto, tenor e baixo (tendo esta última as dimensões aproximadas de um violoncelo).

A partir de Itália as violas da gamba espalharam-se pela Europa: terão chegado a Inglaterra no início do século XVI e não tardaram a merecer a aprovação real. Na década de 1520 há registos de violas da gamba e gambistas de origem flamenga na corte inglesa e em 1540, Henrique VIII contratou seis gambistas italianos (possivelmente judeus sefarditas). As Ilhas Britânicas revelar-se-iam terreno fértil para o instrumento, sobretudo na forma do viol consort, formado por três a seis violas da gamba, de diferentes tamanhos, por vezes complementadas por alaúde, órgão ou harpa; entre as várias violas do consort não existe uma relação hierárquica, cada uma desempenha o seu papel na construção de uma complexa tapeçaria polifónica.

A música inglesa para viol consort é quase sempre de tonalidades melancólicas e desliza com compostura e contenção – e se é certo que inclui peças com nomes de danças (“pavans”, “galliards”, “allmaines”), estas destinavam-se mais a fazer dançar a mente do que os pés. A “English consort music” desabrochou na segunda metade do século XVI e começou a declinar em meados do século XVII.

[Um interior holandês com um uma viola de gamba e um instrumento de tecla, por Jan Verkolje, c.1674. A música era um hobby frequente e socialmente bem visto entre a aristocracia e burguesia da Europa do Norte no século XVII]

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Dez obras para ensemble de violas por compositores ingleses

“Browning a 5”, de William Byrd

William Byrd (c.1539-1623) foi, com o seu amigo Thomas Tallis, o maior vulto da música renascentista inglesa. Foi admitido na Capela Real em 1572 e providenciou música para Isabel I. Converteu-se ao catolicismo num país que adoptara o credo anglicano, mas conseguiu evitar dissabores de maior e, ao longo de mais de quatro décadas, compôs para ambos os cultos. A sua música para ensemble de violas não é tão abundante quanto a produção de música sacra – uma trintena de peças – mas não deixa de ser relevante.

[Pelo Parthenia Viol Consort, ao vivo em Nova Iorque, 2017]

“Galliarda n.º 24”, de Anthony Holborne

Anthony Holborne (c.1545-1602) consagrou-se à música instrumental (para cordas dedilhadas e para viol consort) e serviu a Condessa de Pembroke e o Conde de Salisbury. A sua colecção destinada ao viol consort, Pavans, Galliards & Almains (1599), contendo 65 peças, é a mais extensa que se conhece.

[Pelo Hespèrion XXI, do CD The Teares of the Muses, preenchido com música de Holborne (Alia Vox)]
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“Lachrimae Antiquae”, de John Dowland

John Dowland (1563-1626) foi um alaúdista de indiscutível talento mas não conseguiu obter o posto que ambicionava na corte de Isabel I, o que atribuiu ao facto de ser católico. Em 1598, conseguiu posto análogo na corte de Cristiano IV da Dinamarca, mas também não conservou o lugar por muito tempo, acabando por regressar a Inglaterra, onde, em 1612, foi admitido nos alaúdistas de Jaime I.

Dowland concentrou a produção nas canções para voz e alaúde (lute songs) e nas peças para alaúde, mas deixou também uma colecção de peças para viol consort que se tornaria extraordinariamente influente: as 21 peças de “Lachrimae, or Seven Teares”, publicadas em 1604, incluem sete pavanas que são variações instrumentais, a cinco partes, de uma pavana para alaúde que o compositor já adaptara também como canção para voz e alaúde, com o título “Flow My Tears”. A pavana “Lachrimae Antiquae”, a 1.ª da série, segue de perto os modelos anteriores (daí a designação “antiquae”).

[Pelo Hespèrion XX, numa gravação de 1987 (Alia Vox)]

“Fantasia a 4”, de Giovanni Coprario

Giovanni Coprario (c.1570-1626) nasceu em Inglaterra e foi baptizado como John Cooper, mas mudou de nome no início do século XVII após uma viagem a Itália, talvez por achar que em Inglaterra (e no resto da Europa) uma origem italiana conferia uma aura de prestígio aos músicos. Serviu a realeza inglesa durante a maior parte da sua vida.

[Pelo ensemble Achéron, na Chapelle des Ursules, Angers, França, 2012]
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“Fancie a 3”, de Alfonso Ferrabosco II

Alfonso Ferrabosco II, dito o Jovem (c.1575-1628) era filho (ilegítimo) de Alfonso Ferrabosco o Velho (1543-1588), um compositor de Bolonha que, após ter passado por Roma e pela Lorena, chegou em 1562 a Inglaterra, onde entrou ao serviço de Isabel I. Em 1578, sérios imbróglios judiciais fizeram-no regressar a Itália, de onde não mais regressaria. Apesar das tentativas para que o seu filho se lhe juntasse, o Ferrabosco mais novo ficou em Inglaterra, onde se tornou professor de música do príncipe Henrique e colaborou com o dramaturgo Ben Jonson e se distinguiu na composição para viol consort. Esta “Fancie a 3” provém da colecção “Lessons for 1, 2 and 3 viols”, publicada em Londres em 1609.

[Pelo ensemble Private Musicke, gravação ORF/Alte Musik]

“Fancy a 6”, de Orlando Gibbons

Como executante, Orlando Gibbons (1583-1625) distinguiu-se nos instrumentos de tecla (órgão, cravo, virginal), tendo desempenhado funções de organista da Capela Real entre 1615 e a sua morte e de músico de câmara do futuro Carlos I. Na composição é mais lembrado pela música sacra, mas também deixou uma trintena de peças para violas.

[Pelo ensemble Achéron, na Igreja de Centeilles, Siran, França, 2017]
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“Fantasia Suite n.º 2”, de John Jenkins

John Jenkins (1592-1678) era considerado como um virtuoso da lyra viol – uma variante de menor dimensão (e tipicamente inglesa) da viola da gamba baixo – o que lhe valeu elogios do rei Carlos I. Como tantos outros músicos ingleses, passou por dificuldades durante a Guerra Civil Inglesa e dedicou-se a compor mais de 70 suítes para ensembles amadores de viol consorts (embora “amador” não deva ser interpretado na acepção que hoje tem, pois o nível técnico dos executantes era elevado). A Restauração, em 1660, proporcionou-lhe um posto na corte de Carlos II, mas por essa altura, a música para viol consort, a que consagrou o seu talento, já não tinha o prestígio de que desfrutara no reinado anterior.

[Pelo Hespèrion XX, numa gravação de 1990 (Astrée/Auvidis)]

“Consort Sett em sol menor”, de William Lawes

William Lawes (1602-1645) serviu, como o seu irmão Henry, na corte de Carlos I e foi amigo de John Jenkins. Quando a Guerra Civil estalou em 1642, William Lawes alistou-se nas tropas que apoiavam o rei e acabou por ser morto por uma bala perdida no cerco de York. O rei, que o tinha em elevada estima, fez questão de que lhe fossem prestadas honras fúnebres especiais e referiu-se a ele como “Father of Musicke”.

[Pelo ensemble Fretwork, ao vivo na Grace St. Paul’s Episcopal Church, Tucson, EUA, 2017]
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“Set n.º 1”, de Matthew Locke

Matthew Locke (c.1621-1677) foi aluno de Edward Gibbons, irmão de Orlando Gibbons, na catedral de Exeter, colaborou com Christopher Gibbons, filho de Orlando Gibbons, na música para a peça de teatro Cupid and Death, e desempenhou vários altos cargos musicais na corte de Carlos II – nomeadamente o de organista de Catarina de Bragança (um posto para que terá contribuído a sua conversão ao catolicismo). No seu tempo, a viola da gamba estava a perder terreno para o violino e Locke compôs para ambas as famílias de instrumentos e também para broken consorts, onde se misturavam instrumentos de cordas e sopros. O “Set n.º 1” provém da colecção “The Flatt Consort”, compilada c. 1650.

[Por Giovanna Baviera, Flore Seube e Lina Manrique, ao vivo na Schola Cantorum Basiliensis, Basileia, 2014]

“Fantasia II a 3”, de Henry Purcell

Henry Purcell (1659-1695) foi o mais talentoso músico inglês da sua geração – e também o último compositor de primeiro plano a nascer nas Ilhas Britânicas até ao final do século XIX. A sua vida foi tão breve como a de Mozart – faleceu aos 36 anos – e de uma produtividade comparável, cobrindo os mais diversos domínios. Apesar de ter mostrado estar atento às novas tendências, consagrou-se também pontualmente ao viol consort, um formato quase extinto por essa altura e para o qual compôs a colecção “Fantasias for the Viols” (1680), que é vista como um fruto muito tardio mas genial deste género. O viol consort entrou numa longa hibernação e só na década de 1980 esta música voltaria a chegar ao público, graças aos ensembles Hespèrion XX e Fretwork.

[Pelo Hespèrion XX, numa gravação de 1994 (Alia Vox)]

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