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Wold Parade
Astrid Lyre Wolf Parade

Os Wolf Parade ainda estão à procura do disco perfeito

Foi em Fevereiro, quando o mundo era diferente, que falámos com Dan Boeckner, dos Wolf Parade. Se tudo tivesse corrido como planeado, estaríamos prestes a vê-los no NOS Alive.

Por Cláudia Lima Carvalho
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O concerto estava marcado para 11 de Julho no Passeio Marítimo de Algés, em Oeiras. Era o regresso dos Wolf Parade a Portugal, depois de terem actuado em 2018 no NOS Primavera Sound, no Porto. Na mala, trariam um disco novo e uma nova formação. Ou melhor, uma banda reduzida a três, depois da saída do baixista Dante DeCaro que já não participou em Thin Mind, editado em Janeiro. Dan Boeckner atendeu o telefone na Califórnia, depois de um concerto onde contava ter tido “o público mais diverso de sempre”. “O mundo mudou, não consumimos mais a música da mesma maneira e isso renova quem nos ouve”, dizia o guitarrista, ansioso por tocar o novo disco em Portugal.

Thin Mind, o quinto álbum dos canadianos que apareceram na mesma altura em que os Arcade Fire começavam a dar nas vistas, é também ele fruto da mudança. Do tempo e da banda. Dan Boeckner, Spencer Krug e Arlen Thompson estão mais velhos, mas com a mesma vontade de fazer o que ainda não foi feito. “Como nunca fomos uma banda pop, e sempre fomos uma banda de culto, podemos fazer o que queremos, sem medo de cortar com o disco anterior.” E o que querem? “Queremos sempre ser melhores e chegar perto do som que temos nas nossas cabeças”, responde Dan Boeckner, explicando que, “por mais estranho que pareça”, os Wolf Parade ainda estão à procura do disco perfeito. “Acho que ainda não o fizemos, e talvez nunca lá chegaremos, mas trabalhamos com isto em mente e é o que vamos sempre tentar.”

E é por isso que lhe custa a aceitar as críticas de que os Wolf Parade viverão sempre à sombra do primeiro álbum, o brilhante Apologies to the Queen Mary editado em 20005 e que os colocou tantas vezes em comparações com os conterrâneos Arcade Fire. “Se lanças um primeiro disco muito popular, vai ser sempre difícil conceptualizar tudo o que vem depois. Uma coisa que eu gosto nos Wolf Parade é que nunca tentámos recriar esse álbum”, aponta, explicando que a explosão de um primeiro disco é algo que acaba por passar com o tempo. “O que fica depois disso é a forma como cresces, como evoluis”, defende. “Os Wolf Parade são sempre a mesma coisa, mas sempre diferente. E acho que é disso que mais me orgulho nesta banda.”

Mas Dan Boeckner admite que nem sempre o caminho foi claro. Um hiatus de quase cinco anos é a melhor prova disso, apesar de os membros da banda nunca terem ficado parados.
Boeckner, por exemplo, fez parte também dos Handsome Furs, dos Divine Fits e dos Operators – só estes últimos se mantêm no activo, a par dos Wolf Parade. “Às vezes, torna-se confuso, é verdade. Por exemplo, quando estávamos a fazer Thin Mind, eu estava a acabar o último disco dos Operators e era o Arlen dos Wolf Parade que estava a produzir esse disco. É quase como uma fábrica em que estás a fazer produtos diferentes”, brinca o músico, para quem os Wolf Parade nunca estiveram tão próximos da sua origem.

É certo que durante muito tempo foram quatro membros, mas foi com os três de agora (Boeckner, Krug e Thompson) que tudo começou. E Thin Mind não está assim tão longe de Apologies to the Queen Mary. “Nós somos agora mais essa banda do primeiro álbum porque sempre existiu uma espécie de ligação artística e criativa entre nós os três, como a capacidade de escrever muito rápido e de alguma forma antecipar o que cada um vai fazer.”

Já ao vivo, ficou tudo mais complicado, mas também mais recompensador, garante. “Cada um tem agora mais trabalho, mas é bom porque é quase como um desporto de competição.”
Resta então saber quando os voltaremos a ver por cá, uma vez que a digressão de apresentação do disco foi adiada e também o NOS Alive ainda não compôs o seu cartaz para 2021. Até lá, é provável que apareça música nova. “Temos um problema, ou talvez não seja problema, que é sermos workaholics na música.”

Crítica: Wolf Parade

“Thin Mind” (Sub Pop/Popstock)

★★★★☆

Os cinco discos lançados pelos canadianos Wolf Parade em 15 anos poderiam sugerir hábitos de trabalho relaxados, mas quando se tomam em conta os múltiplos projectos desenvolvidos no interim pelos seus principais dínamos criativos, Dan Boeckner e Spencer Krug, o caso muda de figura. Atendendo a que foi preciso esperar sete anos entre Expo 86 (2010) e Cry Cry Cry (2017), a confecção de Thin Mind até não foi demorada – porém, nestes três anos o som da banda alterou-se drasticamente, com os sintetizadores e as programações a tomar o poder, o que é assaz irónico num álbum cujo tema é a excessiva dependência da tecnologia em que a nossa civilização caiu.

A letra de “Under Glass”, a canção de abertura, dá o tom: “Como na ficção científica/ Vivemos de novo sob vidro/ E já não consigo lembrar-me/ De como era a vida lá fora [...] Estes são dias paradisíacos/ Estas são as pessoas em quem podemos confiar/ E eles dizem-nos sempre que/ Nas nossas mentes somos livres”. As canções que se seguem reforçam a distopia: “Ficas com um coração oco, ficas com uma cabeça vazia/ E o que sentes é o que sente um morto-vivo” (“The Static Age”); “Pela rua segue uma soturna procissão/ Estão a preparar o funeral da tua profissão/ Tudo o que fazes é automático/ Na verdade já ninguém precisa de ti/ E todos os dias que viveste/ Se dissolverão como lágrimas na chuva” (“Wandering Son”). Paradoxalmente, estas lúgubres perspectivas são veiculadas por uma estirpe de synth pop e post-punk dos 80s que irradia energia, melodias orelhudas e jactos de cor. Thin Mind convida-nos a entrar dançando num novo período: “Não há lugar para oásis no Antropoceno/ Apenas vidro liso e negro” (“Forest Green”). José Carlos Fernandes

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