Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Óscares: grandes músicas esquecidas pela Academia
Filme, Cinema, O Piano (1993)
©DR O Piano de Jane Campion

Óscares: grandes músicas esquecidas pela Academia

Canções e bandas sonoras que mereciam uma estatueta, mas que nem sequer foram nomeadas.

Por João Pedro Oliveira
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A história dos Óscares tem um extenso capítulo reservado aos esquecidos e aos injustiçados. Sempre que uma nova cerimónia se aproxima, repetem-se as discussões sobre o tema e sucedem-se as listas dos erros, omissões e disparates mais gritantes na história da Academia. Normalmente, a atenção recai sobre os filmes, as interpretações e as realizações que não tiveram o reconhecimento merecido. Aqui, esquecemos os momentos em que Hollywood fez vista grossa e concentramo-nos nas vezes em que fez orelhas moucas. Eis sete casos escandalosos de criações musicais que entraram na história do cinema e da música popular, mas que nem sequer mereceram uma nomeação ao Óscar.

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1. "Psycho" (1960)

Banda sonora original
Autor: Bernard Herrmann
Flme: Psycho, de Alfred Hitchcock

Não haverá muitas sequências de duas notas tão imediatamente reconhecíveis como a que se escuta na inquietante cena do duche de Psycho. Nesse momento, como em todo o filme, a composição de Bernard Herrmann faz um pairing perfeito com o terror sugestivo de Alfred Hitchcock, a começar pelo prelúdio que aqui colocamos em audição. Se quisermos uma definição de música cinematográfica, temos de olhar para aqui. Hoje é uma peça obrigatória em qualquer biblioteca essencial de sons do cinema, mas na edição dos Óscares de 1961 não mereceu sequer uma nomeação da Academia. Nesse ano o Óscar foi para a banda sonora que Ernest Gold assinou para Exodus, o drama de guerra assinado por Otto Preminger.

2. “A Hard Day’s Night” (1964)

Canção original
Autores: John Lennon e Paul McCrtney 
Filme: A Hard Day’s Night, de Richard Lester

Os Beatles nunca mereceram grande atenção da Academia, apesar de, no auge da Beatlemania, terem tido dois filmes com êxito estrondoso, ambos dirigidos por Richard Lester e ambos recheados de grandes canções originais: A Hard Day 's Night (1964) e Help! (1965). A escolha era grande e custa a perceber que não tenha havido pelo menos uma canção a merecer nomeação. A Hard Day’s Night foi, aliás, nomeado para Óscar de Melhor Argumento, o que demonstra que estava no radar de Hollywood. Viram, mas não ouviram. Nas edições dos prémios em que os dois filmes poderiam ter sido contemplados (1965 e 1966), o Óscar de Melhor Canção Original foi, respectivamente, para “Chim Chim Cher-ee”, assinada pelos irmãos Sherman para Mary Poppins, e “The Shadow Of Your Smile”, escrita por Johnny Mandel e Paul Francis Webster para The Sandpiper, e que com os anos se consolidou como um standard de jazz.  

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3. "Por um Punhado de Dólares" (1966)

Banda sonora original
Autor: Ennio Morricone
Filme: Por um Punhado de Dólares, de Sergio Leone

As composições de Ennio Morricone para os western spaghetti de Sergio Leone estabeleceram o cânone do género e mudaram para sempre o nosso imaginário do velho Oeste americano. Sobre uma base orquestral, ouvem-se chicotes e tiros de revólver, assobios e gemidos de harmónica com melodias sinistras que não saem do ouvido. Ainda assim, não houve qualquer nomeação para nenhuma das suas composições para cinema de finais da década de 60, onde se inclui toda a trilogia do Homem Sem Nome  (Por um Punhado de Dólares, de 1964; Por Uns Dólares Mais, de 1965; e este O Bom, o Mau e o Vilão), além de Era Uma Vez no Oeste (1968). No ano em que a Academia não ouviu O Bom o Mau e o Vilão, o Óscar de Melhor Banda Sonora Original foi para o trabalho banal de John Barry em Born Free (Uma Leoa Chamada Elsa).

4. "Mrs. Robinson" (1967)

Canção original
Autor: Paul Simon
Filme: The Graduate (A Primeira Noite), de Mike Nichols

A canção começou a ser trabalhada com o título Mrs. Roosevelt (numa evocação de Eleanor Roosevelt), foi composta por encomenda do realizador Mike Nichols, e acabou rebaptizada como “Mrs. Robinson" para coincidir com o nome da personagem interpretada por Anne Bancroft. “The Graduate” teve sete merecidas nomeações (uma delas para Melhor Actor, para o jovem Dustin Hoffman) e Nichols venceu mesmo o Óscar de Melhor Realização. Mas supõe-se que a Academia terá visto o filme legendado e sem som. É uma explicação possível para “Mrs. Robinson” não ter sequer sido nomeada, numa edição em que triunfou a cançoneta “Talk to the Animals”, escrita pelo britânico Leslie Bricusse para Dr Doolitle. De resto, perante o vencedor, há pelo menos um nomeado que pode também reclamar injustiça: “The Look of Love”, canção de Burt Bacharach interpretada por Dusty Springfield em Casino Royale, a super paródia aos filmes de James Bond. Quanto a “Mrs. Robinson”, logo em 1968 foi incluída em Bookends, quarto álbum de Simon & Garfunkel, venceu dois Grammys e acampou três semanas no nº1 do top de singles dos Estados Unidos.

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5. “Knockin' On Heaven's Door” (1973)

Canção original
Autor: Bob Dylan
Filme: Pat Garrett and Billy The Kid (Duelo na Poeira), de Sam Peckinpah 

É uma das grandes baladas de Dylan na década de 70 e muita gente nem saberá que foi composta expressamente para uma banda sonora (incluindo a rapaziada que cresceu a achar que estes quatro acordes pertenciam aos Guns N’ Roses). Consta que o realizador Sam Peckinpah também não fazia ideia de quem fosse Bob Dylan, quando Kris Kristofferson o sugeriu para este western. Dylan desempenha o papel de Alias, um associado de Billy the Kid, e assina toda a banda sonora do filme.
Nesse ano, o Óscar de melhor canção foi para “The Way We Were”, de Barbra Streisand, que protagonizava o filme homónimo com Robert Redford e acabou a liderar a Billboard (foi o single mais vendido nos Estados Unidos em 1974). Mas já que falamos nisso, diga-se que a estatueta teria ficado melhor entregue a “Live and Let Die” que, apesar de ter sido nomeada, tem pelo menos três pontos em comum com “Knockin' On Heaven's Door”: também foi composta para cinema em 1973; também ficou à sombra de Barbra Streisand; e sim, também há por aí quem julgue que pertence aos Gun N’Roses. É uma das melhores criações de Paul McCartney a solo, tem o dedo mágico de George Martin nos arranjos, e permanece como uma das melhores entradas na luxuosa colectânea de James Bond. Quanto a Dylan, o Óscar acabaria por vir bater à sua porta em 2000, pela canção “Things Have Changed”, composta para o Wonder Boys, de Curtis Hanson.

6. "New York, New York" (1977)

Canção original
Autores: Fred Ebb e John Kander 
Filme: New York, New York, de Martin Scorsese

Os membros do júri da Academia são bem capazes de ter sido os únicos que não atenderam ao pedido “start spreading the news…” Escrita especificamente para o filme homónimo de Martin Scorsese, e originalmente interpretada por Liza Minelli, “New York, New York” haveria de crescer em popularidade na voz de Frank Sinatra e, eventualmente, de se tornar, simultaneamente, num hino da cidade e num cântico de resiliência (agora que falamos nisso, cabia perfeitamente nesta lista de canções inspiracionais). Ouvida na fulgurante interpretação de Minelli, torna-se ainda mais estranho que "New York, New York" tenha sido preterida em favor do azeite virgem extra de “You Light Up My Life”, canção composta por Joseph Brooks para o filme homónimo que ele mesmo realizou. De resto, entre os nomeados desse ano, apenas se compreenderia uma menção honrosa para “Nobody Does It Better”, que Carly Simon cantou para 007 - Espião Irresistível (The Spy Who Loved Me, no original). Mas mesmo assim, o Óscar só poderia ter ido para a canção escrita por Fred Ebb e composta por John Kander.
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7. "O Piano" (1993)

Banda sonora original.
Autor: Michael Nyman
Filme: O Piano, de Jane Campion

É outro mistério. A obra que Michael Nyman compôs para o filme de Jane Campion é mais do que uma banda sonora - é uma personagem central do filme. A Academia reconheceu o argumento original com um Óscar (Campion), bafejou a magnífica Holly Hunter com o Óscar de Melhor Actriz e a estreante Anna Paquin com o Óscar Melhor Actriz Secundária. Mas pura e simplesmente negligenciou o trabalho glorioso do minimalista britânico, que conseguiu realmente transformar o piano na pedra angular de todo o filme. Nessa edição, o Oscar foi para John Williams, pela banda sonora de A Lista de Schindler (foi a quinta estatueta de uma carreira que acumula já 52 nomeações). Mas nem essa composição está tão presente no imaginário cinéfilo como “The Heart Asks Pleasure First”.

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