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Samuel Úria: "Não sonhava viver da música"

O EP "Marcha Atroz" leva Samuel Úria para uma espécie de residência artística em Benfica. E nós quisemos falar com ele

Samuel Úria
©Inês Félix Samuel Úria
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Samuel Úria foi um dos pioneiros da FlorCaveira e subiu a pulso do underground para o mainstream nacional. Entre quarta-feira e domingo, vai estar no Auditório Carlos Paredes, em Benfica, a tocar as canções do EP Marcha Atroz, lançado no ano passado. Sempre bem acompanhado pelos amigos Márcia (quarta), Gisela João (quinta), Tiago Guillul (sexta), Benjamim (sábado) e Joana Espadinha (domingo). Antes dos concertos, encontrámo-nos na Graça, onde viveu durante anos.

Vais dar cinco concertos em Lisboa nesta semana e ainda conseguias esgotar mais um ou dois dias se quisesses. Estavas à espera disto?
Para ser sincero, fomos para uma sala mais pequena mesmo para fazer esta espécie de residência em que conseguíssemos estar vários dias com a casa mais ou menos preenchida. De alguma forma, havia já esse planeamento.

Porque é que querias fazer uma coisa mais pequena?
Por um lado, queria fazer essa espécie de residência. É muito confortável para um músico fazer concertos seguidos, sem ter de montar os instrumentos todos os dias e sem ter de fazer som. E não conseguia fazer isso numa sala muito grande, porque não sou o André Rieu nem o [António] Zambujo. Por outro lado, tem a ver com o cariz do próprio EP que estamos a apresentar, gravado com o Miguel Ferreira, que vai estar comigo em palco.

O Marcha Atroz tem um som muito cru, parece pouco trabalhado. Eram canções que tinhas enfiadas numa gaveta e decidiste gravar só para ter qualquer coisa nova a acompanhar as reedições do ano passado?
As reedições acabaram por ser uma justificação para pegar numas quantas canções que estavam quase escritas e desenvolvê-las até ao seu formato final. E esse som cru foi mesmo de propósito. Pensámos a captação de cada instrumento, de cada canção, para que tivesse ruídos. Essa crueza, que muitas vezes parece quase resultado de um certo imediatismo, neste caso foi uma estética muito pensada.

Reeditaste os teus três álbuns mais conhecidos. Porque é que não aproveitaste para reeditar O Caminho Ferroviário Estreito, de 2003?
O Caminho Ferroviário Estreito continua a ter a piada de ser o disco obscuro. Às vezes toco algumas canções dessa altura nos concertos e fico estupefacto quando há gente que as conhece e que as canta e que me pergunta onde é que pode arranjar o disco. Porque há uns estilhaços pela internet, mas o disco em si não se encontra. Gosto de ver que um pedaço de carvão musical se transformou numa espécie de pérola para algumas pessoas. Nesse sentido, reeditá-lo seria quase matar uma certa identidade póstuma. Foi o primeiro disco da FlorCaveira que esgotou e é giro manter essa espécie de lenda em torno dele.

Estás a trabalhar nalgum disco novo?
Estou a pensar num disco, mas ainda não estou a trabalhar nele. Estou a recolher ideias e gostava de gravar ainda este ano. Não digo editar, porque isso já vai ser mais difícil, mas gravar. Até por uma questão de disciplina.

Há muito tempo que não fazes um disco de rock, como fazias com As Velhas Glórias. Não tens saudades?
Tenho saudades, mas não sei se tenho saúde [risos]. Havia concertos das Velhas Glórias em que eu chegava a meio de uma canção e tinha a certeza absoluta que não ia conseguir chegar ao fim porque ia morrer antes. De vez em quando isso acontecia. Se bem que estou em melhor forma física do que estava há dez anos, portanto se calhar era fixe tentar fazer uma coisa assim outra vez.

Há dez anos foi mais ou menos quando nos conhecemos. Ainda eras professor. Alguma vez davas por ti a pensar que hoje ias estar aqui? Com este sucesso, a viver da música?
Não só não pensava, como nem sequer sonhava. Não tinha mesmo essa ambição. Nessa altura já estava a dar aulas há quase dez anos e já tinha muitos e muitos anos de música feita de forma amadora, e embora estivéssemos a brincar aos profissionais, a fazer discos, a pautar mais ao menos os tempos em que as coisas eram lançadas...

Até estavam inscritos na SPA.
É verdade. Mas ainda assim era uma coisa que fazia por recreação, porque me dava muito prazer. E, se calhar, por um sentimento de culpa judaico-cristão em relação ao trabalho, eu não punha nos meus horizontes ter uma carreira ou uma profissão que fosse também uma fonte de prazer. Parecia-me uma coisa muito hedonista e egoísta.

Como é que lidas com o sucesso e o mediatismo que tens?
Lido bem. Até porque não tenho uma popularidade incómoda, nem sou muito assediado na rua. Imagino que quem tenha um bocadinho mais de sucesso tenha uma vida muito difícil, mas eu continuo a ter uma vida pacata.

Mesmo assim deve haver uma data de gente que mal conhece a tua música e ainda assim tem certos preconceitos em relação a ti. Isso preocupa-te?
Não me preocupa muito.

No outro dia estava a ler uma crónica tua, no Sapo, sobre o Mamadou Ba, sobre empatia e racismo, e a maior parte dos comentários era gente a chamar-te de “comuna” para cima. E tu dantes eras aquele gajo que dizia que “se fosse americano, seria republicano”. Isso não te faz confusão?
Isso era uma provocação. Havia aquela ideia de que um músico tem de ser do Bloco, que um gajo que não se penteie tem de ser do Bloco. Então, para provocar, gostava de efabular sobre mim próprio a ideia de que era um tacanho conservador. Só que isso não era completamente verdade, como agora se vê. E isso de que falas não acontece só por ser um texto a defender o Mamadou Ba. Basta teres uma opinião qualquer para seres trucidado pelo anonimato das caixas de comentários. Tu que escreves em imprensa há montes de anos sabes isso melhor do que eu.

Eu evito ler caixas de comentários.
Ok. Durante muitos anos fui como tu, mas agora dá-me um gozo tremendo ir lá ver quem é que está a escrever certas coisas, ver quem são essas pessoas. São quase sempre ou grandes parolões ou malta sem jeito nenhum do que faz nas redes sociais. E fico contente por estar a gerar ódios em pessoas cujas personalidades eu também odeio. É por isso que gosto de ler os comentários negativos. Se calhar até mais do que os elogios.

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