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Música, Instrumento, Clarinete
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Seis concertos para clarinete do século XVIII

O clarinete chegou relativamente tarde à orquestra, mas foi adoptado com entusiasmo pelos compositores do início do Classicismo

Por José Carlos Fernandes
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O clarinete teve por antepassado o chalumeau barroco e foi pela modificação de um destes instrumentos que Johann Christian Denner, um conhecido fabricante de flautas de bisel com oficina em Nuremberga, deu origem ao clarinete, na primeira década do século XVIII. O filho de Denner contribuiu com alguns melhoramentos, levando a que o instrumento, que, inicialmente, tinha apenas duas chaves, fosse, timidamente, dando entrada nas orquestras. Só no terceiro quartel do século XVIII, com o aumento do número de chaves até cinco e outros inovações é que ganhou a agilidade e consistência necessárias ao desempenho de um papel solista, ganhando rápida implantação no meio musical austro-germânico.

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Seis concertos para clarinete do século XVIII

Concerto para clarinete n.º 1 MWV VI/41, de Molter

Ano: c.1745

Durante muito tempo considerou-se que os primeiros concertos para clarinete teriam sido os de Johann Stamitz (1717-1757), mas a descoberta dos seis concertos para clarinete de Johann Melchior Molter (1696-1763) alterou essa perspectiva. Molter nasceu na mesma cidade que J.S. Bach, Eisenach, mas saiu cedo para trabalhar como violinista na orquestra da corte de Karlsruhe e estudar em Itália. Em 1722 regressou a Karlsruhe, agora como mestre de capela, ficando aí até 1733, quando assumiu posto similar na corte do Duque Wilhelm Heinrich de Saxe-Eisenach. Em 1742 regressou a Karlsruhe, onde permaneceria até à morte, servindo o Margrave Carl Friedrich de Baden-Durlach, filho do seu primeiro patrão.

Nas suas 600 obras predomina a componente orquestral, com 170 sinfonias e mais de 40 concertos, onde avultam dez para flauta e os já mencionados seis para clarinete, que foram destinados ao clarinete em ré, de tessitura mais aguda e hoje raramente usado, e que se filiam na estética barroca, embora outras obras suas sejam já pré-clássicas.

[Por Jean-Claude Veilhan (clarinete) e Académie de Sainte Cecilie, em instrumentos de época, com direcção de Philippe Couvert (Pierre Vérany)]

Concerto para clarinete, de J. Stamitz

Ano: c.1750-59

Jan Václav Antonín Stamic (1717-1757) nasceu em Deutschbrod, na Boémia (hoje Hávlickuv Brod, na República Checa) e aos 18 anos abandonou os estudos na Universidade de Praga para seguir carreira de violinista – pouco ou nada se sabe desta até que, em 1742, foi admitido na orquestra do príncipe-eleitor do Palatinado, Karl Theodor, cujos instrumentistas eram também compositores de talento. Stamic, que, entretanto germanizara o nome para Johann Wenzel Anton Stamitz, passou o resto da vida em Mannheim, onde ascendeu a Konzertmeister em 1745 e a responsável pela música instrumental em 1750, contribuindo decisivamente para cimentar a reputação da orquestra como a melhor da Europa. Só se ausentou de Mannheim para uma visita a Paris em 1754-55, para dirigir a orquestra privada do fermier général (cobrador de impostos) Le Riche de La Poupelinière, uma das melhores de França.

Entre as novidades da orquestra de Mannheim estava o papel de relevo concedido aos sopros e, entre os sopros, afirmava-se pela primeira vez o clarinete, para o qual Johann Stamitz compôs um dos primeiros concertos de que há conhecimento. A sua produção inclui dezenas de concertos – entre os quais estão 14 para o seu instrumento, o violino, e 11 para flauta – e 68 sinfonias.

Dois dos seus filhos, Anton e Carl, foram também compositores.

[III andamento (Poco presto), por Andreas Ottensamer (clarinete) e a Kammerakademie Potsdam (Decca)]

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Concerto para clarinete n.º 7, de C. Stamitz

Ano: c.1770-79

Carl Stamitz (1745-1810), filho do então Konzertmeister da orquestra de Mannheim, ingressou nesta como violinista aos 17 anos, embora também empreendesse tournées por sua conta. Em 1770 mudou-se para Paris, onde serviu o Duque de Noailles e apresentou obras no Concert Spirituel, mas sem deixar de empreender longas tournées que o levaram a São Petersburgo, Frankfurt, Dresden , Praga, Berlim, Amesterdão e Londres.

Deixou produção copiosa: 50 sinfonias, 38 sinfonias concertantes e mais de 60 concertos, contemplando como solistas o violino, a viola, a viola d’amore, o violoncelo, a flauta e o fagote (a sós ou combinados). Porém, o seu favorito foi o clarinete, para o qual compôs 11 concertos, alguns dos quais resultaram da sua parceria com o maior virtuoso do clarinete daquele tempo, o boémio Joseph Beer (1744-1812), com o qual travara amizade em Paris.

[II andamento (Adagio), por Andreas Ottensamer (clarinete) e a Kammerakademie Potsdam (Decca)]

Concerto para clarinete n.º 1 Kaul III:55 (Murray C62), de Rosetti

O boémio Franz Anton Rösler (c.1750-1792), que a partir de 1773 adoptou o nome de Francesco Antonio Rosetti (no meio musical de então, ser-se italiano era uma mais-valia), foi um dos grandes compositores do classicismo que acabaram por ser ofuscados, aos olhos da posteridade, pelos seus contemporâneos Haydn e Mozart. Foi mestre de capela nas cortes de Öttingen-Wallerstein, em 1773-1789, e Mecklenburg-Schwerin, de 1789 até à morte (que ocorreu seis meses depois da de Mozart).

Rosetti foi extraordinariamente prolífico (sobretudo quando se atende a que faleceu com apenas 42 anos), deixando-nos 400 obras, entre as quais se contam 76 concertos, dos quais cinco são para clarinete (três deles perderam-se).

[Por Dieter Klöcker (clarinete) e a SWR-Sinfonieorchester Baden-Baden und Freiburg, com direcção de Holger Schröter-Seebeck (CPO)]
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Concerto para clarinete K.622, de Mozart

Ano: 1791

1791 foi um “ano prodigioso” na carreira de Mozart, que viu surgir o Concerto para piano n.º 27, o Quinteto de cordas K 608, o moteto Ave Verum Corpus K.618, as óperas La Clemenza di Tito e A Flauta Mágica, o Requiem (inacabado) e o Concerto para clarinete. Este último foi composto para Anton Stadler, um clarinetista virtuoso, que Mozart conhecia (pelo menos) desde 1784 e era, como ele, membro de uma loja maçónica (e que foi seu parceiro em muitas noites de farra e jogatana). Stadler também tocava corno di bassetto, um instrumento da família do clarinete, de tonalidade mais grave e timbre mais escuro e é possível que o concerto tenha sido destinado originalmente a este instrumento – é difícil apurá-lo, pois a partitura original perdeu-se.

[II andamento (Adagio), por Antony Pay (corno di bassetto) e The Academy of Ancient Music, em instrumentos de época, com direcção de Christopher Hogwood (Decca/L’Oiseau-Lyre)]

Concerto para clarinete de Eybler

Ano: 1798

É provável que Anton Stadler tenha sido também o destinatário do concerto para clarinete do austríaco Joseph Leopold Eybler (1765-1846), filho de um maestro de coro que era amigo de Joseph Haydn. Joseph Eybler foi aluno de Johann Georg Albrechtsberger, que foi também professor de Hummel, Moscheles, Beethoven e Reicha e que declarou que Eybler era o maior génio musical de Viena a seguir a Mozart – se o elogio é excessivo, também é imerecido o esquecimento a que Eybler foi votado desde a sua morte.

Eybler foi amigo de Mozart e trabalhou como seu assistente em ensaios e récitas de Così Fan Tutte e foi um dos compositores que a viúva de Mozart sondou (debalde) para terminar o célebre Requiem, escolha justificada pela larga experiência de Eybler no domínio da música sacra. Esta representa o grosso das 251 obras que nos deixou: entre elas estão 33 missas e um único concerto – o que destinou ao clarinete.

[I andamento (Allegro maestoso), por Dieter Klöcker (clarinete) e a English Chamber Orchestra, com direcção de Wolf-Dieter Hauschild (Novalis)]

Clássicos da clássica

Orquestra Metropolitana de Lisboa
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Música Clássica e ópera

O mais frequente na música orquestral é que só um galo cante na capoeira, ou seja, a maioria dos concertos destina-se a um único solista. Porém, no período barroco, era frequente que dois solistas partilhassem o protagonismo.

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