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Música, Cantor, Compositor, Sérgio Godinho
©Mariana Valle LimaSérgio Godinho

Sérgio Godinho: “A liberdade tem de ser preenchida com conteúdo”

Sérgio Godinho sobe ao palco do Campo Pequeno, esta quarta-feira, com duas mãos cheias de convidados. É o início do programa Abril em Lisboa. Falámos com ele.

Escrito por
João Pedro Oliveira
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O taxista mirou-o pelo retrovisor. “Sabe, há uma canção sua em que penso muito. Aquela de estar à espera do comboio na paragem do autocarro. Senti-me muitas vezes assim na vida.” Sérgio Godinho conta o episódio, sensibilizado. É a primeira coisa que faz, mal se abeira de nós, junto ao Museu do Aljube, vindo do lado de lá da rua, onde o táxi o apeou. Diz-se feliz por ser abordado assim, por haver quem lhe diga coisas simpáticas sobre ele e as suas canções, e a partir daí vai encadeando conversa, primeiro aqui fora, depois lá dentro, na casa que guarda a memória da Resistência e da Liberdade. A própria entrevista começa já em andamento, recordando uma outra, pesando o tempo que passou, mesmo se Godinho, no desassossego dos 75 anos, continue mais interessado em tirar as medidas ao tempo que aí vem. O pretexto é o espectáculo marcado para 23 de Março, véspera da data em que a democracia vai celebrar tantos dias de vida quantos a ditadura levou para morrer. Mas a conversa segue felizmente à deriva, umas coisas a propósito de outras, todas elas ancoradas em canções. E toda a gente sabe que haverá poucas situações da vida que não encontrem ressonância numa canção de Godinho. Mesmo que seja um taxista à espera do comboio na paragem do autocarro.

A última vez que falámos foi sobre o disco Nação Valente [2018]...
Foi ali em baixo, junto ao rio...

Exacto.
Tenho boa memória.

Já passou algum tempo.
Já não sei o que é o tempo. O tempo é tão subjectivo. Cada vez noto mais as pessoas dizerem “foi para aí há três anos”, sobre coisas que, vamos a ver, foram há seis. Inclusive eu. Temos pouca noção do tempo real, em termos de datação. Talvez seja bom que seja assim.

É uma defesa contra a mortalidade?
Acho que é natural. Não temos de ser aqueles maníaco-organizados que sabem tudo o que aconteceu naquela data em concreto, há quanto tempo foi. Sobretudo não temos de estar sempre a olhar para trás.

Com o tempo pensa-se mais no tempo que se tem pela frente?
Ah, pois, eu tenho que pensar no tempo. Com a idade que tenho, o tempo está necessariamente a encurtar. Já sei que é para todos nós, escusam de lembrar, mas eu sinto mais com a idade que tenho [riso]. Quanto ao tempo que passou, pode ser um cliché, mas não me arrependo do que fiz. Posso arrepender-me de uma ou outra atitude, mas isso é uma coisa pessoal, que nem sequer viria para entrevistas, muitas vezes nem para os outros, que fica para mim. Mas, de um modo geral, não me arrependo.

Dizia que olha mais para o tempo que ainda vem...
Sim. Penso sobretudo no tempo, em relação ao tempo que tenho. Em relação ao futuro próximo e ao que ainda posso concretizar nesse futuro. Ainda por cima, ganhei uma nova valência há uns anos, que foi a escrita de ficção. E não só, saiu agora um livro de poemas e fotografias minhas, o Palavras São Imagens São Palavras. Tenho um livro de contos e dois romances que foram escritos praticamente um a seguir ao outro...

O Coração Mais que Perfeito, 2017, e o Estocolmo, em 2019.
Estás a ver? Sabes mais datas que eu [riso].

Mas eu fiz batota, preparei-me. E tem um terceiro romance na gaveta.
Até já está escrito. Claro que acabará por levar umas correcções, até já levou algumas.

Tem data?
Não. Talvez este ano ainda. Tenho de falar sobre isso com a editora. Talvez até haja alguma coisa dentro da música... eu tenho vontade de compor um pouco mais neste momento...

E como é que isso está a correr?
Quando falo de actividade de compositor tanto pode ser letras como músicas, falo das duas coisas, ou pode ser só uma delas... Como sabes, no Nação Valente houve muitas parcerias, mais do que havia dantes. Mas foi também um caminho de apropriação de outras linguagens musicais.

Na altura falava até de um certo canibalismo da sua parte.
É verdade. Aliás, foi muito engraçado, porque no Nação de Valente, uma coisa que me disseram, a certa altura, é “isto parece uma canção do Sérgio Godinho”, e as músicas, na sua maioria, não eram minhas, apenas as letras.

Lembro-me de lhe perguntar se não era ao contrário, músicas feitas para textos seus, por estarem tão bem coladas...
Mas não. Entregaram-me as músicas e eu escrevi para elas. Mas sempre trabalhei mais ou menos assim, mesmo em canções minhas, mesmo quando faço sozinho, geralmente começo pela música e só depois é que o texto, vá lá, se vem deitar numa cama musical. E é também talvez um bocadinho esse o segredo, entre aspas, de uma musicalidade na frase. Porque ela já nasce com a música ligada. Uma vez em conversa com o Chico Buarque ele confessou-me que faz também muitas vezes assim. Mesmo a canção que nós fizemos em conjunto, foi assim.

Nem a propósito, “Um Tempo que Passou”.
Realmente. Eu dei-lhe uma música e ele fez um texto. Porque eu queria ter uma canção com letra do Chico Buarque, que admiro imenso. Nesse disco, o Coincidências [1983], todas as parcerias eram letra minha e música de outros. No caso do Chico quis que fosse ao contrário.

Agora que falamos nisso, parece estar a fazer um movimento semelhante ao do Chico Buarque, a aproximar-se cada vez mais da literatura, que inevitavelmente rouba algum espaço às canções.
Sim, é verdade... mas é diferente, o Chico não tem sempre vontade de actuar ao vivo. Não é algo que lhe esteja tanto no sangue. Eu tenho um lado performer que é importante. Há um lado do palco que é muito minha casa. E acho que o Chico não é tanto. Enfim, isto a propósito dessa música. Gosto muito dela. Cantei-a muito tempo ao vivo, depois deixei... mas isso acontece, quando já se tem um repertório grande, tenho de ir renovando. Tenho e sinto necessidade disso. E mais: os músicos que trabalham comigo também sentem necessidade disso. Embora desempoeirar esta canção que estava na prateleira a apanhar pó?

Vai acontecer isso neste concerto?
Sim, claro. O primeiro ensaio com toda a gente foi [no dia 14 de Março]. Estamos a reavivar o “Domingo no Mundo”, por exemplo, uma canção sobre o trabalho infantil. Um tema que não está tão extinto como isso. Uma canção em que não pegava há imenso tempo e que foi uma sugestão do Nuno Rafael, que é um pouco um líder da minha banda.

São dele os arranjos?
O nosso método é muito vário. Embora haja uma palavra de direcção do Nuno Rafael, o arranjo normalmente é feito na sala de ensaios com os outros músicos.

É mais colaborativo.
É muito trabalho de equipa. E conhecemo-nos muito bem. Conhecemo-nos bem musicalmente e ao mesmo tempo há sempre surpresas. Eu preciso desse tipo de estímulo, também. Claro que dá mais trabalho. Era mais fácil plasmar aquilo que está feito e não procurar outros caminhos, pensar “eh pá, isto podia ser de outra maneira”. Dar outra cor, outras pinceladas. Já agora: para mim é uma grande alegria poder voltar aos ensaios e aos concertos. Não tinha um ensaio com a minha banda desde Setembro.

Quanto é que lhe custou este tempo que passou, de confinamentos e restrições?
Esta inacção performativa não me agrada. Preciso do palco. Não é o aplauso e a glória, embora ninguém seja insensível a isso, mas acho que o mais importante numa canção é o momento em que ela é apresentada ao vivo, com público. A função da canção é ser cantada para alguém. Para mim, que faço canções, foi um corte brutal.

A canção precisa disso para ganhar vida?
Para fazer prova de vida, para ver como se aguenta com público. E é também um assunto de partilha. Nós damos energia, mas também a recebemos do público. E os meus espectáculos têm toda essa energia, são feitos de maneira que haja um crescendo... A pessoa tem primeiro de instalar-se na casa, para nos irmos conhecendo...

Mas toda a gente já o conhece. Até nos táxis.
[Riso] Sim, mas é a ideia. Muitas canções minhas já são muito conhecidas. Mas não são todas. Arrisco muitas vezes canções que não são populares. Neste concerto também haverá disso, coisas mais e menos conhecidas. Guardemos surpresa.

Pronto, guardemos então. Falávamos dos confinamentos, de como isso mexeu consigo...
A determinada altura foi preciso desligar um pouco... No primeiro confinamento, ao fim de um mês, quando ninguém sabia o que era isto, nem os cientistas, os especialistas, estávamos de tal maneira saturados de informações, de palavras novas, de conceitos novos... quem é que sabia, na linguagem comum, o que era a co-morbilidade? [Riso] Sei lá, estou a dar um exemplo...

E sobre isso fez uma música, “O Novo Normal”.
Sim, resolvi pôr isso tudo numa espécie de vinhetas rápidas, que foi feita a partir de flashes rápidos, desta nova situação. “No novo normal/ Caem corpos à sorte/ Em valas comuns/ Num silêncio de morte”... isto acontecia. “Cortado somente por soluços distantes...” Uma pessoa não se podia sequer aproximar do morto, despedir-se. Etc. Essa canção era um bocadinho o retrato daquela época.

Em cima do acontecimento, o que não é o seu hábito.
Verdade. Não tenho o hábito de fazer canções em cima de um acontecimento.

Precisa de distância.
Preciso. Não sou um repórter imediato, percebes? Fiz uma canção sobre a guerra colonial muitos anos depois. Uma guerra na qual não estive, porque saí do país e era refractário. Mas as “Fotos do Fogo” é isso. Uma canção de que gosto muito até hoje. Uma canção que foi inspirada em massacres feitos em guerras, inclusivamente na nossa. Mas era também a altura da guerra dos Balcãs, e daquelas atrocidades todas, e senti que tinha de falar sobre isso, sobre o tema, imaginar o que é essa situação de um soldado, que tem 20 anos, suponhamos, e que se vai vendo envolvido num horror colectivo de que ele próprio é colaborador. Sem dar por isso, porque é o que está a acontecer.

Não sendo um cronista imediato, acha que o tempo que vivemos hoje o vai convocar mais tarde a escrever sobre ele?
Repara, depois desta pandemia, que não acabou aliás... continuarei a cantar o “Novo Normal” enquanto ela não acabar... Mas agora levámos em cima com esta guerra, é dia a dia, e a gente não sabe o que vai acontecer amanhã. Portanto, essa pergunta é um bocadinho prematura... isto ainda vai piorar antes de ficar melhor. O que eu acho é que temos de continuar a fazer o nosso trabalho independentemente do resto. Não quer dizer que não haja referências àquilo que está a acontecer, mas não nos podemos restringir só àquilo que de mais preocupante há em cada momento. É preciso enquadrar isso numa perspectiva mais vasta de vida.

E é por isso que precisa de ganhar distância?
Sim... mas não é para me distanciar da realidade. É porque acho que o trabalho de um criador é mais largo que isso. E a nossa resposta criativa tem de ser mais vasta. Porque senão estamos a restringir a criatividade a esse momento. Não quer dizer não falar dele. Mas enquadrá-lo. Há mais na vida. Nasce uma criança... eu fiz uma canção chamada “O Primeiro Gomo da Tangerina” sobre isso. As primeiras experiências de uma criança recém-nascida, o que fica para a vida. Tem uma moral, uma ética, vá. Não gosto de falar de mensagem...

Estas referências a canções que vai semeando na conversa são pistas para este espectáculo?
[Silêncio.]

OK, pronto, guardemos surpresa. Dizia que não gosta de falar em mensagem na canção.
Não gosto mesmo. Lembro-me do Dylan, aqui há uns anos, que fazia canções tão políticas, perguntarem-lhe isso das mensagens. Perguntarem: “What are your songs about?”. E ele responder: “Oh, some are about two minutes, some about three. One is even twelve minutes” [riso], que era uma canção do Blonde on Blonde [“Sad-eyed Lady of the Lowlands”, 1966]. Mas pronto, ele respondia muito ao lado, derivava muito... enfim, onde é que nós íamos?

Íamos à deriva, na verdade. Mas pegando ainda nessa ideia de escrever sobre o acontecimento, há ali uma fase dos seus discos em que a sua música era mesmo sobre o acontecimento no momento...
O À Queima Roupa [1974], sim... oh pá, aí não havia como fugir. Eu sempre tive uma paleta bastante diversificada, sempre tive vários focos, digamos assim. Sempre tive muitas canções de interrogações, muitas canções vivenciais. Logo no primeiro disco tens o “Romance de Um Dia de Estrada” [Os Sobreviventes, 1972], que é uma canção vivencial, em que se fala daquilo que se aprende muitas vezes com aquilo que se julga saber. “E eu que falava de estradas/ E só conhecia atalhos/ E ela a mostrar-me caminhos.” É vivencial. Depois há canções que são mais de conteúdo social e, vá, para-político. Tenho isso desde esse primeiro disco, que começa com uma canção chamada “Que Força É Essa”, que fala da força de trabalho e como ela é utilizada, e acaba com o “Maré Alta”: “Aprende a nadar companheiro/ Que a maré se vai levantar/ Que a liberdade está a passar por aqui.” Ela, a liberdade, não tinha chegado, de facto. Mas era algo de afirmação. A canção política nem sempre se impôs. Por exemplo, no segundo disco, que tem “O Homem dos Sete Instrumentos’, o “Pode Alguém Ser Quem Não É”, etc., talvez a canção mais conhecida seja o “Noite Passada”, que não é uma canção política. E é uma canção que ficou e que eu canto com prazer, e que acho, aliás, cantarei sempre.

No momento do À Queima Roupa não era possível escrever sobre outra coisa que não o momento em curso.
É isso. O À Queima Roupa [1974] e o De Pequenino se Torce o Destino [1976] são discos que têm uma componente, vá, de observação política mais directa. Porque a realidade também era essa. Tem a ver com essa realidade, fala das comissões de moradores, das comissões de trabalhadores, etc., sempre de uma maneira que considero criativa e poética, no sentido amplo do termo. Mas depois continuei sempre com uma componente política misturada noutros universos... no segundo disco tenho o “Barnabé”, que é um personagem que vem trazer outra luz às pessoas, não sendo um missionário. “Quando Barnabé cá chegou/ toda a gente arribou”. Ou o Casimiro, que assume também um bocado esse papel no “Cuidado Com As Imitações” [Campolide, 1979], é alguém que olha para os males da sociedade e vai comentando de uma maneira crítica. Sempre misturei esses universos, não consigo restringir-me. Não tenho um género. Por isso nunca gostei muito desse termo “cantor de intervenção”.

Mas que não o larga.
Pois. Mas quer dizer o quê? E em quê? E de que maneira? E em que tipo de sensibilidade na cabeça das pessoas? O que é que tu atinges? Intervéns como? Enfim...

Teve sempre essa preocupação de não prender as canções ao tempo?
Não, quer dizer, algumas podem ficar e morrem de morte natural, não é? [Riso] Não faz mal. Quando, no À Queima Roupa, eu falo da independência das colónias, ou outras coisas, é evidente que são canções circunstanciais que morrem de morte natural.

Como se espera que o “Novo Normal” morra?
Sim, esperemos que desapareça e a canção morra. Mas isso também é aquela coisa, pode fazer sentido noutro tempo, sei lá... No primeiro disco está “O Charlatão”, que fiz com o Zé Mário, e que ele, aliás, também gravou, e que é uma canção que fala daquele tempo, mas que não pode ficar desactualizada, porque haverá sempre charlatães e charlatonas, como diz a própria canção [riso]. Muitas vezes as coisas tomam novo significado. A liberdade, por exemplo. Na canção é “A paz, o pão, a habitação, saúde, educação”. Continuo a cantá-la, canto muitas vezes e cantarei com certeza no Campo Pequeno, porque ela vai sendo actual de maneiras diferentes. A liberdade precisa de ser preenchida com conteúdo. “Só há liberdade a sério quando houver...”

Neste tempo de novo normal houve discussão sobre o conteúdo da liberdade. Houve uma maioria que aceitou as regras que nos roubavam liberdade, que percebeu as razões. Mas houve quem não aceitasse, quem se sentisse espoliado dela.
Sim, e eu acho isso um bocado patetice. É claro que é preciso estar sempre vigilante relativamente às liberdades. Mas num caso destes, de tal maneira inédito, que hei-de dizer? Era preciso ponderar a liberdade dos outros, também.

Eram liberdades pouco solidárias?
Pois. Em Portugal, apesar de tudo, não houve muito esses movimentos, os anti-vacinas, os anti-máscaras, os anti-restrições. Claro que isto é terrível e todos tivemos de ir aprendendo, inclusivamente os governantes. E acho que, apesar de tudo, em Portugal, a coisa foi sendo bem gerida, com todos os defeitos de comunicação e tal. Mas de um modo geral as coisas foram sendo bem geridas e essa restrição da liberdade, que tinha sempre de ser por um prazo determinado, também foi necessária em nome da liberdade de todos, para deitar abaixo todo este contágio. Vivemos em sociedade e as liberdades individuais têm sempre de ser enquadradas. Por exemplo, as vacinas não são obrigatórias em Portugal, mas tens consequências, com certeza. Temos pena.

E agora a pergunta que se impõe: onde é que estava...
No 25 de Abril...

Ia dizer no 23 de Março.
Bem visto [riso]. Estava em Vancouver. Vivi nove anos fora de Portugal. Não saí clandestinamente, primeiro ainda estive a estudar na Suíça, em Genève, Psicologia, e fui adiado durante dois anos, como acontecia com os universitários cá em Portugal, para cumprir o serviço militar. Quando deixei os meus brilhantes estudos académicos – e este “brilhantes” merece umas grandes aspas – fui chamado e tornei-me refractário. Vivi cinco anos em Paris, em Amesterdão, no Brasil, onde fui preso a primeira vez, mas isso já é outra história, depois no Canadá, porque eu já não tinha papéis, estava a viver com a Sheila, canadiana, mãe da minha filha mais velha, e soubemos que eu podia ter papéis no Canadá e estatuto de residente se me casasse com ela. Portanto, no 23 de Março estava em Vancouver. É uma data charneira, a partir desse dia passamos a ter mais um dia de democracia do que de fascismo.

Já nos safámos?
[Riso] Quê, da ditadura? Nunca sabemos. A democracia, com todos os seus defeitos, e tem muitos – e estou a falar em concreto da portuguesa –, está consolidada. Depois há grandes injustiças, grandes desigualdades, e é importante olharmos para isso, sem esquecermos que somos uma democracia. Temos de nos convencer a nós próprios que isto tem de ser um país mais justo, mais solidário. Falo da justiça, da justiça de classe que ainda existe em Portugal, falo do tratamento das mulheres, desde logo na desigualdade no trabalho, uma coisa aberrante... tanta coisa por corrigir. Agora, que somos uma democracia, somos. Defeituosa, mas somos.

Estamos num museu que evoca a memória da ditadura e celebra o advento da liberdade. Teme que o 25 de Abril se torne apenas numa peça de museu, uma efeméride protocolar?
É evidente que um miúdo pequeno hoje, a não ser que tenha educação à sua volta, ignora isto. Já se torna numa data histórica, uma celebração ritual... acho que é importante referenciá-la sempre como data charneira. É a segunda vez que uso a palavra, bem sei. O 23 de Março é uma charneira temporal, que assinalamos agora pelo simbolismo. Mas é já o 25 de Abril que se comemora. É uma data central no século XX em Portugal, permitiu uma transformação, que pode até ser ineficiente, mas é essencial. Desde logo acabar uma guerra, um regime, trazer a liberdade, abolir a censura oficial. Depois há censuras encapotadas, bem sei, mas também nos compete a nós combatê-las. Isso já é uma questão... a certa altura há medos interiorizados nas pessoas, e há pressões exteriores de trabalho, de dependências várias.

O 25 de Abril pode servir para aquilo de que falava há pouco, para preencher a liberdade de conteúdos. Para se renovar com outros conteúdos de liberdade?
Sim, sempre. Não vale a pena dizer que não valeu a pena, porque, afinal de contas, íamos ter um país risonho...

Os amanhãs que eram para ter cantado.
Isso. O 25 de Abril foi um fenómeno único e curiosamente foi um fenómeno suscitado por militares. A guerra causou por um lado uma exaustão e, por outro, uma consciencialização de muitas pessoas que estiveram na guerra. Foi algo que nunca foi muito bem compreendido pelas pessoas que iam para lá. Não achavam que havia uma missão extraordinária de defender a pátria. Era algo que fazia parte, tínhamos de ir fazer a guerra. Mas depois começou a haver um grau de consciencialização. Pode ser que aconteça o mesmo hoje, com esta guerra, quem sabe? Mas este país era assim, havia um certo fatalismo por vocação. Aliás, umas das coisas que foi transformada pelo 25 de Abril foi o grau de alfabetização do povo português. Agora há muita iliteracia real, mas estou a falar de gente que nunca tinha tido acesso sequer à língua escrita, lida, era absolutamente assustador. Para mim, como é evidente, foi uma data charneira porque me permitiu regressar ao meu país. E depois ter terminado com uma guerra foi absolutamente histórico. E ter sido, mal ou bem, dada a independência aos países que a estavam a conquistar. Temos de pensar também nos outros povos e naquilo que eles sofreram.

Regressou a Portugal no início de Maio de 74...
Cheguei a 2 de Maio.

Segundo julgo saber, chegou e foi directo para uma sessão de Canto Livre.
Sim, uma primeira na Faculdade de Direito e logo a seguir, nessa noite ou na seguinte, no São Luiz. Foi o primeiro teatro onde eu toquei. Depois no Pavilhão dos Desportos, com outros companheiros de canções, um pouco sob a égide do Zeca Afonso. O Paredes também participou em muitas dessas sessões...

Já o ouvi dizer que foi com o Paredes que chorou pela primeira vez.
Foi a ouvir os “Verdes Anos”. Quando eu estava no palco e o Carlos Paredes faz aquele ataque aos “Verdes Anos”, aí desmoronei. No bom sentido, chorei. Até aí não tinha acontecido. Mas aquele momento, a pensar que aquilo tinha sido uma música da minha enorme devoção, tinha o disco pequeno, um EP, com os temas dos “Verdes Anos”, que são maravilhosos, e de eu ter conhecido aquilo nos meus verdes anos, de certa forma ainda serem os meus verdes anos, e estar ali agora, com o Paredes a tocar, finalmente livres, foi uma coisa que me tocou, no sentido mais profundo... [pausa]. Nós estamos a fazer uma entrevista muito pormenorizada. Isto assim conto a história da minha vida toda [riso].

Culpa minha, a conversa começou consigo a dizer que só quer olhar para a frente e eu a obrigá-lo a olhar para trás. Aproveitemos a boleia dessas sessões de Canto Livre: temos agora um espectáculo, a 23 de Março, de portas abertas e entrada livre...
Eu fico contente sobretudo se houver pessoas. Se elas pagam ou não, não é isso que me faz... o espectáculo, pago ou não, tem a mesma dignidade. Mas aqui faz sentido, a porta aberta e o convite, sobretudo em relação ao 25 de Abril. Acho isso bonito.

O que é que se pode esperar deste concerto?
Desde logo, foi um convite muito bem-vindo, porque coincide com o regresso à actividade.

Outra celebração de liberdade.
Precisamente. Depois, também é um convite em que eu fui convidado a ter convidados. Ter convidados é o ensejo de mostrar uma coisa maior, de, à volta das minhas canções, se reorganizarem universos e eu entrar também um pouco no universo desses criadores. Vamos ter a Manuela Azevedo, a Capicua, o Samuel Úria, o Filipe Raposo e o Tó Trips. Para dizer a verdade, muitos são repetentes, excepto o Samuel Úria e o Tó Trips. E depois há a minha banda, Os Assessores, com quem tenho uma comunidade que é já afectiva, há muitos anos. Tocar as minhas canções com todos esses convidados é, desde logo, uma componente muito importante deste concerto. Será um concerto muito vário, que vai ter uma energia grande. A última vez que cantei num espectáculo no Campo Pequeno foi os Três Cantos, com o Fausto e o Zé Mário... [pausa] que já não poderá estar neste. Mas cuja memória será lembrada em canções.

Como?
Desde logo com o “Mariana Pais”, que tu sabes, está no Nação Valente, e que nós fizemos em conjunto. Mas não só.

Guardemos surpresa.
Exacto. Mas quando voltei a fazer concertos, depois da primeira fase da pandemia, foi quando não pude festejar o meu aniversário [75 anos feitos a 31 de Agosto], foi quando fizemos os concertos no Maria Matos.

Não o deixavam fazer uma festa, vingou-se a esgotar um teatro.
Seis vezes. Anunciamos um, mas aquilo esgotou num fósforo. Ao mesmo tempo, temos de pensar que aquilo era apenas com 50% da lotação. Mas não se sentia que a sala estava meia vazia, nem se sentia que estava com lugares livres. Porque as pessoas estavam com um grande entusiasmo, queriam muito aquilo, tinham mesmo uma sede imensa...

A sede de uma espera só se estanca na corrente.
Sim, é essa ideia. “Só quer a vida cheia quem teve a vida parada.” Portanto, mais fará sem essa limitação de lugares.

Tem expectativas altas para esta noite.
Pois claro que tenho [riso]. Só posso ter. E com toda esta gente, é uma alegria.

Campo Pequeno. Qua 21.30. Entrada gratuita, mas lotação esgotada.

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Pete Kember, mais conhecido por Sonic Boom, é um nome histórico do rock e da música experimental anglo-americana. Ainda não tínhamos falado com ele desde que veio viver para Portugal há meia dúzia de anos – a última conversa com a Time Out foi em 2014 – e aproveitámos uma actuação em Lisboa para dar dois dedos de conversa. Pete parece entusiasmado com um novo projecto, que define como uma espécie de clube social, e vai ocupar o espaço do Santo, um restaurante na Praia das Maçãs, duas vezes por mês.

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Com 15 anos, Mallu Magalhães começou a carreira com a pressão de ser a grande revelação da música brasileira. Entre o álbum Pitanga (2011) e Vem (2017), mudou-se para Lisboa, distanciou-se da folk e das fixações anglo-saxónicas, provou o sabor da saudade e redescobriu o colorido calor do samba e da bossa nova, ganhando mais confiança na sua poesia. Quase 15 anos depois de entrar no mundo da música, segue em elegante evolução e traz Esperança, um disco de essência escapista.

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Opus musical, literário e cinematográfico, ‘20.000 Éguas Submarinas’ é um mergulho no imaginário imenso de Rui Reininho, nas suas inquietações e deslumbramentos – e nas suas lutas. É um álbum como nenhum outro em que o tenhamos ouvido. Sentámos com o cantor numa mesa de Lisboa para falar do mar, de vibrações, viagens ao Nepal e, claro, também dos GNR. Uma conversa aberta em que até se desvenda a origem copiada de uns dos versos memoráveis de “Pronúncia do Norte”.

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