Sete concertos de Mozart que precisa de ouvir

O pianista Paul Lewis, uma autoridade no classicismo vienense, traz ao Teatro Nacional de S. Carlos o Concerto para piano n.º 25 de Mozart. Aproveitamos o ensejo para recomendar outras amostras da produção concertística de Mozart

© Jack Liebeck

Mozart por Paul Lewis

O repertório do pianista britânico Paul Lewis, que grava em exclusivo para a Harmonia Mundi, centra-se no classicismo vienense e no romantismo germânico: gravou na íntegra as 32 sonatas para piano de Beethoven – um empreendimento muito bem recebido pela crítica e que lhe valeu um Gramophone Award – e as Variações Diabelli e já lançou dois volumes com sonatas de Schubert. Outra integral que recebeu críticas entusiásticas foi a dos concertos para piano de Beethoven, com o maestro Jirí Belohlávek. Antes de assinar contrato com a Harmonia Mundi, gravou vários discos de música de câmara para a Hyperion, entre as quais estão dois quartetos com piano de Mozart, com o Leopold String Trio.

A Lisboa traz o Concerto para piano n.º 25 de Mozart, num programa complementado por duas outras obras do compositor de Salzburgo: a Sinfonia n.º 35 Haffner K.385, composta em 1782, e as Danças Alemãs K.509, compostas em 1787, durante uma estadia de Mozart em Praga. A Orquestra Sinfónia Portuguesa tem direcção de Pedro Neves.

Teatro Nacional de S. Carlos (Salão Nobre), sexta-feira 9 de Março, 20.00, 20€.

Também recomendados:

10 versões do Requiem de Mozart
10 concertos para piano que precisa de ouvir
10 concertos para violoncelo que precisa de ouvir
10 concertos para oboé que precisa de ouvir

 

Sete concertos de Mozart que precisa de ouvir

Concerto para fagote K.191

Ano: 1774

Mozart tinha 18 anos quando compôs este concerto, possivelmente por encomenda de Thaddäus Freiherr von Dürnitz, um nobre que tocava fagote como hobby e para quem compôs no ano seguinte mais três concertos que se perderam. A parte solista requer um executante com desenvoltura, mas não põe exigências extraordinárias.

[I andamento (Allegro), por Voltan Agli (fagote) e Orquestra do Teatro Olimpico di Vicenza, com direcção de Giovanni Battista Rigon, no Teatro Olimpico di Vicenza, 2004]

Concerto para violino n.º 5 K.219

Ano: 1775

A fama de Mozart como pianista tem mantido na sombra as suas qualidades como violinista. Não faltam, porém, indícios de que terá sido, na juventude, um excelente executante do instrumento de corda. É verdade que teve o privilégio de ter como professor, desde os seis anos de idade, um dos maiores virtuosos e pedagogos do violino: o seu pai, Leopold Mozart, autor do Tratado sobre os fundamentos da técnica do violino (Versuch einer Gründlichen Violinschule), publicado no ano do nascimento de Wolfgang e que se converteu numa obra de referência para os estudantes de violino de então.

Sendo Leopold exigente e rigoroso, quer como pai, quer como pedagogo, não é provável que exista exagero suscitado pelo amor paternal neste trecho de uma carta enviada a Wolfgang: “Não tendes consciência de quão bem tocais o violino [...] Quando o fazeis com energia e empenhando o coração e a alma, sois o violinista n.º 1 de toda a Europa”. Foi como violinista que Mozart trabalhou na orquestra da corte de Salzburgo, até que o detestável Arcebispo Hieronymus Colloredo o despediu, em 1781. Talvez por associar o violino aos anos sob o jugo de Colloredo, Mozart não voltou a tocar o instrumento nem a compor para ele como solista. Os seus cinco concertos para violino foram compostos em 1775 (com provável excepção do n.º 1, para o qual se aventa a data de 1773). O n.º 5, terminado a 20 de Dezembro de 1775, é o mais elaborado e extenso dos cinco – e também o mais tocado.

[II andamento (Adagio), por Gidon Kremer (violino) e a Filarmónica de Viena, com direcção de Nikolaus Harnoncourt]

Publicidade

Concerto para flauta n.º 1 K.313

Ano: 1778

Se a relação de Mozart com o violino foi ambígua, já quanto à flauta, exprimiu claramente o seu desagrado pelo instrumento numa carta ao pai de 14 de Fevereiro de 1778. Mozart recebera do flautista holandês Ferdinand de Jean a encomenda de três concertos para flauta, mas apenas compôs um na íntegra (o K.313), sendo o outro (K.314) uma mera adaptação do concerto para oboé K.271 (ver 10 concertos para oboé que precisa de ouvir) e nunca tendo trabalhado no terceiro – na dita carta ao pai, Wolfgang apresenta várias desculpas para o incumprimento do acordado, uma das quais é que “como sabeis, o meu espírito rapidamente fica entorpecido quando tenho de compor para um instrumento que não suporto”.

[I andmento (Allegro maestoso), por Emmanuel Pahud e Haydn Ensemble Berlin, com direcção de Hansjörg Schellenberger, no Mozarteum de Salzburgo, 2000]

Concerto para flauta e harpa K.299

Ano: 1778

O jovem Wolfgang andou durante parte da juventude em viagem pela Europa, primeiro como criança-prodígio, depois em busca de um cargo e de encomendas à altura das suas qualidades. Em 1778 passou sete meses em Paris, na companhia da mãe, e entre os alunos que tomou a seu cargo nesse período esteve a jovem harpista Marie-Louise Philippe, filha do duque de Guînes. Sendo este um flautista amador (muito dotado, na avaliação de Mozart), encomendou ao compositor um concerto para tocar com a filha – assim se explica a insólita combinação de solistas, que nenhum outro compositor de primeira grandeza ensaiou.

[I andamento (Allegro), por Lisa Beznosiuk (flauta), Francis Kelly (harpa) e Academy of Ancient Music, com direcção de Christopher Hogwood, em instrumentos de época (L’Oiseau-Lyre/Decca)]

Publicidade

Concerto para piano n.º 25 K.503

Ano: 1786

1786 foi um ano de extraordinária produtividade, mesmo para os padrões de Mozart: terminou a ópera Le Nozze di Figaro, reviu a ópera Idomeneo, despachou a ópera cómica em um acto Der Schauspieldirektor e compôs uma sinfonia e três concertos para piano geniais. Entre estes últimos está o n.º 25 K.503, terminado a 4 de Dezembro, em Viena, quase ao mesmo tempo que a Sinfonia n.º 39 Praga K.504. Ambas as obras se destinavam a Praga, onde a popularidade de Mozart estava em alta, contrastando com o declínio do apreço pelo compositor em Viena. As duas obras têm a particularidade de não incluir clarinetes, talvez por Mozart não estar certo de a orquestra de Praga dispor de tais instrumentos. Não é a falta de clarinetes que retira brilho ao concerto, que é dos mais afirmativos e exuberantes do compositor.

[Por Paul Lewis (piano) e a Mahler Chamber Orchestra, com direcção de Daniel Harding, nos Proms de 2013, no Royal Albert Hall, em Londres)]

Concerto para trompa n.º 1 K.412 + 514

Ano: 1791

Os quatro concertos para trompa compostos por Mozart tiveram como destinatário o seu amigo Joseph Leutgeb, um trompista virtuoso. Mozart semeou a partitura de desafios ao solista, acompanhados de comentários trocistas, piadas e incitamentos, que atestam a proximidade entre eles e o espírito zombeteiro de Mozart.

O n.º 1 foi o último dos quatro a ser composto e compõe-se apenas de dois andamentos, não sendo certo que tenham sido concebidos originalmente para fazer parte do mesmo concerto. Há indícios de que o II andamento terá sido completado por Franz Xaver Süssmayr, assistente de Mozart, após a morte deste – o catálogo Koechel atribui mesmo números separados aos andamentos (K.412 e K.514).

[Por Teunis van der Zwart (trompa) e a Orquestra Barroca de Freiburg, com direcção de Petra Müllejans, em instrumentos de época (Harmonia Mundi)]

Publicidade

Concerto para clarinete K.622

Ano: 1791

1791 foi outro “ano prodigioso” na carreira de Mozart, que viu surgir o Concerto para piano n.º 27, o Quinteto de cordas K 608, o moteto Ave Verum Corpus K.618, as óperas La Clemenza di Tito e A Flauta Mágica, o Requiem (inacabado) e o Concerto para clarinete. Este último foi composto para Anton Stadler, um clarinetista virtuoso, que Mozart conhecia (pelo menos) desde 1784 e era, como ele, membro de uma loja maçónica (e que foi seu parceiro em muitas noites de farra e jogatana). Stadler também tocava corno di bassetto, um instrumento da família do clarinete, de tonalidade mais grave e timbre mais escuro e é possível que o concerto tenha sido destinado originalmente a este instrumento – é difícil apurá-lo, pois a partitura original do concerto perdeu-se.

[II andamento (Adagio), por Sabine Meyer (clarinete) e Orquestra Filarmónica de Berlim, com direcção de Claudio Abbado]

Mais música

10 versões do Requiem de Mozart

O Requiem de Mozart está envolto numa névoa de lendas e rumores, parte dela resultante de haver quem julgue que o filme Amadeus, de Milos Forman, é uma biografia rigorosa e não uma ficção a partir de uma peça de Peter Shaffer, que, por sua vez, se inspirou uma peça de Aleksandr Pushkin.

Ler mais
Por José Carlos Fernandes

10 obras de Brahms que precisa de ouvir

Compositores como Mozart ou Vivaldi tinham a fama de compor de um jacto, vertendo directamente para o papel obras acabadas e despendendo pouco ou nenhum tempo com revisões. Mas Brahms não só viveu num tempo em que os compositores possuíam uma consciência mais aguda do seu estatuto como artistas e preocupavam-se com a forma como o seu tempo e a posteridade iriam julgar a sua obra, como a sua própria personalidade o predispunha a ser muito exigente consigo mesmo. 

Ler mais
Por José Carlos Fernandes
Publicidade

Comentários

0 comments