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Música, Compositor, Dmitri Shostakovich
©Deutsche Fotothek/Flickr Dmitri Shostakovich, 1950

Sete obras de câmara da primeira metade do século XX

A partir de dada altura abriu-se uma clivagem entre compositores e público, mas nem toda música clássica do século XX é inacessível

Por José Carlos Fernandes
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Durante a maior parte da história, a música que se ouvia em cada época era, essencialmente, a que era escrita por compositores que estavam vivos e a música de eras passadas tendia a deixar de ser tocada, embora alguns compositores não deixassem de estar informados sobre o que tinham feito os seus antecessores e de copiar e estudar as suas partituras. A música ia evoluindo, claro, mas fazia-o lentamente e sem atritos de maior e o público foi mostrando-se capaz de assimilar as novidades que iam sendo introduzidas.

No início do século XX esta situação começou a mudar, pois alguns compositores, talvez por estarem mais conscientes da sua identidade como artistas, começaram a produzir obras radicalmente inovadoras e que não levavam em conta o gosto dominante do público. Este reagiu às novidades com indignação ou com indiferença e a maioria dos compositores reagiu afirmando ainda mais veementemente o seu direito a escrever música que não fizesse concessões ao gosto das massas. Foi o princípio de um afastamento que não tem cessado de agravar-se. É verdade que alguma da música do século XX não se conforma aos ideais de beleza mais convencionais e pode requerer uma escuta mais atenta, mas tal não significa que seja inacessível.

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Sete obras de câmara da primeira metade do século XX

Noite Transfigurada, de Schoenberg

Ano de estreia: 1902

A composição foi terminada em Dezembro de 1899, mas estreou apenas a 18 de Março de 1902, em Viena. Do ponto de vista estético pode também dizer-se que está suspensa entre duas épocas: é uma das primeiras obras – o op.4 – de Arnold Schoenberg (1874-1951), então com 25 anos, e leva ao limite a exploração da linguagem do Romantismo tardio, tendo por influências mais fortes Richard Strauss e Gustav Mahler. Pouco depois, Schoenberg concluiria que esta via estava esgotada e abandonaria o vínculo à tonalidade, num processo que culminou com o desenvolvimento de um novo paradigma, o dodecafonismo, que moldaria quase todas as suas grandes obras. Noite Transfigurada é, com o poema sinfónico Pelleas und Melisande (1903), a única representante da fase “tardo-romântica” de Schoenberg que é regularmente tocada e gravada, ainda que costume surgir não na versão original para sexteto de cordas mas no arranjo para orquestra de cordas que o compositor preparou em 1917 (e reviu em 1943).

A peça inspira-se num poema de Richard Dehmel que reproduz um diálogo nocturno, durante um passeio pelos bosques, em que uma mulher confessa ao amante que a criança que tem no ventre é de outro homem.

[Início, por Christian Tetzlaff e Daniel Sepec (violinos) Siegfried Rivinius e Wilken Ranck (violas) Gustav Rivinius e Reinhard Latzko (violoncelo)]

Trio com piano, de Ravel

Ano de estreia: 1915

A mãe de Maurice Ravel (1875-1937) era basca e o compositor nasceu em Ciboure, junto à fronteira com Espanha, no País Basco Francês. O trio com piano foi composto entre Abril e Agosto de 1914 em Saint-Jean de Luz, povoação fronteira a Ciboure, do outro lado do rio Nivelle, e os musicólogos identificaram nele algumas marcas de folclore basco, sobretudo nos ritmos do IV andamento. Outros eram os ritmos que tomavam conta da Europa por esta altura: a I Guerra Mundial estalara no final de Julho, o que pressionou Ravel a terminar a composição do trio, pois queria alistar-se. Sendo baixo e de compleição frágil, julgou que poderia ser aceite como piloto, mas foi rejeitado: o seu coração era fraco e, bem vistas as coisas, já tinha 39 anos. Acabou por ser aceite como motorista de camião.

[IV andamento (Vif et agité), pelo Beaux Arts Trio – Isidore Cohen (violino), Bernard Greenhouse (violoncelo) e Menahem Pressler (piano – ao vivo na Universidade de Indiana, década de 1970]
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Sonata para violoncelo e piano, de Debussy

Ano de estreia: 1916

Claude Debussy (1862-1918) compôs em apenas alguns dias de Julho e Agosto de 1915 a primeira das suas sonatas de câmara – a n.º 2 destina-se a flauta, viola e harpa, a n.º 3 a violino e piano. O seu plano era compor seis sonatas em homenagem aos mestres do Barroco francês, mas quando compôs a n.º 3, em 1917, o seu estado de saúde estava já seriamente debilitado. A sonata para violoncelo e piano chegou a ter o título “Pierrot zangado com a Lua”, que depois o compositor descartaria, mas que reflecte a mescla de melancolia e ironia que o permeia.

[Por Mischa Maisky (violoncelo) e Martha Argerich (piano)]

Quarteto de cordas n.º 2 Cartas Íntimas, de Janácek

Ano de estreia: 1928

O checo Leos Janácek (1854-1928) tinha 63 anos quando, em 1917, conheceu Kamila Stösslová, de 26 anos, e nem a diferença de idades nem o facto de ambos serem casados impediu que entre eles nascesse uma paixão ardente – ainda que mantida na esfera espiritual – que duraria até à morte de Janácek, 11 anos depois. Stösslová foi a musa que inspirou um renovado surto de criatividade no compositor, cujo derradeiro fruto, composto aos 74 anos, foi o Quarteto de cordas n.º 2, baptizado como “Lysti Duverné” (“Cartas Íntimas”), em alusão às 700 cartas que Janácek e Stösslová trocaram.

[II andamento (Adagio – Vivace), pelo Vlach Quartet Prague]
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Quarteto de cordas n.º 4, de Bartók

Ano de estreia: 1929

Os seis quartetos de cordas de Béla Bartók (1881-1945), compostos entre 1907 e 1940, são um dos monumentos da música de câmara do século XX e, sendo de qualidade consistentemente alta, qualquer deles poderia ter sido escolhido como amostra. O n.º 4 foi composto em Budapeste em 1928 e tem a particularidade de ter um II andamento tocado com surdinas e um IV andamento integralmente tocado em pizzicato – que, em certos trechos, Bartók requer que seja particularmente enérgico, o suficiente para fazer a corda ressaltar no braço dos instrumentos.

[IV andamento (Allegretto pizzicato), pelo Pacifica Quartet, no Auditório do Louvre, Paris, 2010]

Quarteto para o Fim do Tempo, de Messiaen

Ano de estreia: 1941

Ao estalar a II Guerra Mundial, o compositor francês Olivier Messiaen (1908-92) foi mobilizado como auxiliar médico (era demasiado pitosga para combater), mas a sua carreira militar foi breve e inglória, sendo feito prisioneiro pelas tropas alemãs em Junho de 1940. A sua companhia, onde se contava um clarinetista (Henri Akoka) e um violoncelista (Étienne Pasquier), foi internada num campo de prisioneiros de guerra na Silésia, o Stalag VIII-A, onde Messiaen travou conhecimento com o violinista Jean Le Boulaire. Pasquier, que fora nomeado cozinheiro, desviava comida extra para Messiaen e uma negociata com batatas e uma quotização entre os prisioneiros permitiu que Pasquier encomendasse um violoncelo a um luthier local. A invulgar instrumentação do Quarteto para o Fim do Tempo (Quatuor pour la Fin du Temps) – clarinete, violino, violoncelo e piano – resultou, tão só, dos músicos e instrumentos disponíveis no campo. A inspiração veio do Apocalipse de S.João e a estreia deu-se a 15 de Janeiro de 1941, perante os prisioneiros, os guardas e o comandante do campo, com Messiaen ao piano. Os instrumentos eram beras mas, ao contrário do que Messiaen difundiu depois, o violoncelo não tinha uma corda em falta. Após o concerto os carcereiros atribuíram a Messiaen e seus colegas o estatuto de músicos-soldados, o que fez com que fossem libertados em Maio.

[I andamento (Liturgie de Crystal), por Richard Stoltzman (clarinete), Ida Kavafian (violino), Fred Sherry (violoncelo) e Peter Serkin (piano)]
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Quarteto de cordas n.º 3 op.73, de Shostakovich

Ano de estreia: 1946

Dmitri Shostakovich (1906-1975) compôs 15 quartetos de cordas, um número invulgar para os padrões produtivos dos compositores do século XX. O Quarteto n.º 3 foi composto em 1946 e estreado em Dezembro desse ano em Moscovo pelo Quarteto Beethoven, grupo com que o compositor estabeleceu uma colaboração muito próxima e que estreou boa parte dos seus quartetos.

Em 1945, Shostakovich apresentara a Sinfonia n.º 9, que deveria servir para festejar a vitória da URSS sobre a Alemanha nazi e que Stalin esperava que fosse uma obra optimista e espalhafatosamente grandiosa – em vez disso ouviu-se uma obra desconcertante e zombeteira, que irritou Stalin e foi reprovada pela sua “debilidade ideológica” e por não “reflectir o verdadeiro espírito do povo soviético”. Porém, a atenção dos censores e ideólogos soviéticos concentrava-se nas grandes obras orquestrais e na música vocal, pelo que o Quarteto n.º 3 passou despercebido, embora estivesse longe de cumprir os preceitos do “realismo socialista”. Ainda assim, Shostakovich julgou prudente fingir que a obra se enquadrava nas directivas oficiais e inventou títulos para os andamentos que dão a ideia de se tratar de uma meditação sobre a Grande Guerra Patriótica (o nome dado na URSS à luta contra o invasor nazi na II Guerra Mundial). Por exemplo, o III andamento, que é marcado pela energia demoníaca e pela adstringência, recebeu o título “Desencadeiam-se as forças bélicas”.

[III andamento (Allegro non troppo), pelo David Oistrakh Quartet: Andrey Baranov e Rodion Petrov (violinos), Fedor Belugin (viola) e Alexey Zhilin (violoncelo)]

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Orquestra Metropolitana de Lisboa
©DR

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