Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Sete obras-primas da canção francesa
Música, Compositores, Canções, Guillaume Dufay e Gilles Binchois (1451)
©Martin le Franc Guillaume Dufay e Gilles Binchois (1451)

Sete obras-primas da canção francesa

A chanson não começou com Yves Montand ou Édith Piaf: é cultivada desde o século XIV e combina música sublime com letras maliciosas

Por José Carlos Fernandes
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As origens da chanson no sentido que aqui nos interessa remontam à Idade Média, primeiro com Guillaume de Machaut (1300-1377), e, no início do século XV, com Guillaume Dufay e Gilles Binchois. Na viragem dos séculos XV-XVI a chanson voltou a despertar a atenção dos compositores e atingiu o seu apogeu em 1530-1560, com compositores como Clément Janequin, Claudin de Sermisy e Pierre Certon.

A canção polifónica deste período de ouro é por vezes designada por “canção parisiense”, por vários dos seus mestres terem exercido actividade na capital francesa e por esta ser também a sede dos editores de música Pierre Attaingnant, Nicolas Du Chemin e Adrian Le Roy & Robert Ballard, que promoveram activamente a sua difusão por toda a Europa. Nem todos os grandes nomes da chanson francesa eram franceses no sentido estrito do termo (afinal de contas, também Jacques Brel era belga e Charles Aznavour, arménio): muito deles provinham do Norte da França e a Bélgica, território que, nos séculos XV e XVI foi um formidável viveiro de cantores e compositores a que, por comodidade, se dá o nome de “franco-flamengos” e que dominaram a vida musical europeia.

Quem ouça distraidamente canções polifónicas francesas do século XVI, com os seus complexos jogos de vozes, poderá ser levado a crer que elas se pautam sempre pela elevação e solenidade. Porém, quem preste atenção às letras de algumas delas e seja capaz de decifrar o francês arcaico, descobrirá um universo de malícia, brejeirice e zombaria.

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Sete obras-primas da canção francesa

“La Chasse”

Compositor: Clément Janequin (1485-1558)

Nasceu em Châtellerault, perto de Potiers e desempenhou cargos musicais nas catedrais de Auch e Angers, até assentar em Paris, por volta de 1549. Na década de 1550 foi cantor da capela real e ascendeu a “compositeur ordinaire du roi”.

Ao contrário do que era usual nos compositores da Renascença, que se dedicavam por igual ao repertório sacro e profano, Janequin quase só escreveu canções – cerca de 250 – entre as quais se devem destacar peças programáticas e narrativas como “Le Chant des Oiseaux”, “Le Caquet des Femmes”, “L’Alouette”, “La Chasse”, “Les Cris de Paris”, “La Guerre” (ou “La Bataille de Marignan”), que recorrem abundantemente a onomatopeias. As suas chansons baseiam-se em fórmulas musicais curtas e simples, que se conjugam para criar um mosaico; por vezes, são harmonicamente estáticas, estando a sua riqueza no ritmo e nas sobreposições insólitas.

“La Chasse” é um esplêndido fresco sonoro representando uma caçada real, com o tropel de cavalos, latidos de cães, gritos de incitação dos caçadores e ressoar de trompas.

[Pelo Ensemble Clément Janequin e o Trio Musica Humana, ao vivo em 2018]

“Le Chant des Oyseaulx”

Compositor: Clément Janequin

Le Chant des Oiseaux é uma de três canções de Janequin de temática ornitológica – as outras são Le Chant de l’Alouette e Le Chant du Rossignol – e o seu texto abre com uma celebração da Primavera, estação propícia aos amores: “Despertai, corações adormecidos/ O deus do amor chama-vos/ Neste primeiro dia de Maio/ As aves farão maravilhas/ Se quereis tirar-vos de cuidados/ Abri os vossos ouvidos”. Não estamos, porém, perante uma cândida e sonolenta aguarela campestre e em breve a letra revela o seu lado zombeteiro, com alusões a aventuras extra-conjugais (sendo o “cuco” uma metáfora para o marido traído).

[Pelo Ensemble Clément Janequin, do álbum Le Chant des Oyseaulx (Harmonia Mundi)]
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“Doulce Mémoire”

Compositor: Pierre Sandrin, baptizado como Pierre Regnault (c.1490-c.1561)

Nasceu perto de Paris e foi menino de coro na capela real, antes de, em 1517, entrar ao serviço de Luísa de Sabóia, regressando à capela real em 1539. Na década de 1550 foi mestre de capela da família Este, em Siena (Itália). O resto da vida parece ter sido passado entre Paris e Roma, desconhecendo-se onde terá terminado os seus dias.

Compôs uma cinquentena de canções, quase sempre de temática amorosa, sendo a mais famosa “Doulce Mémoire”, que foi, no seu tempo, alvo de incontáveis versões, transcrições e apropriações. O poema, da autoria de Francisco I de França, evoca a “doce memória de um amor passado, “um tempo feliz de mútua compreensão”. Porém, esse tempo ficou para trás: “findou a alegria e deu, de súbito, lugar ao mal”. A culpa de tudo isto, está bem de ver, reside na “crueldade, malícia e inconstância/ Que tantas vezes vemos no desejo feminino”.

[Pelos Choral Scholars do Choir of Royal Holloway, ao vivo em 2016]

“Ung Gay Bergier”

Compositor: Thomas Crequillon (c.1505-c.1557)

Sabe-se pouco de Thomas Crequillon, embora tenha feito parte da “capela flamenga” do imperador Carlos V, como cantor e, possivelmente, como mestre de capela, entre 1540 e 1545.

Deixou-nos cerca de 200 canções, sendo “Ung Gay Bergier” uma das mais famosas (e brejeiras). A sua temática bucólica nada tem de inocente: um pastor tenta seduzir uma pastora e esta repele-o, denunciando as suas intenções desonestas, mas acaba por perceber-se que o que realmente motiva a rejeição pela pastora são as modestas dimensões de uma parte da anatomia do pastor.

[Pelo Egidius Kwartet (Etcetera)]
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“Entre Vous, Filles de Quinze Ans”

Compositor: Jacob Clemens, dito Clemens non Papa (c.1510-1556)

Jacob Clemens nasceu algures no que é hoje a Bélgica e a Holanda e, ao contrário da maior parte dos seus colegas de renome, não desempenhou cargos em Itália ou no Império Habsburgo, tendo a sua carreira decorrido integralmente nos Países Baixos – em Bruges, ‘s-Hertogenbosch, Ypres, Leiden e (talvez) Dordrecht. Ignora-se a razão de, a partir de certa altura, ter passado ser conhecido como “Clemens non Papa”, uma vez que não havia risco de ser confundido com o papa Clemente VII (que ocupou o trono de S. Pedro em 1523-34). Compôs 15 missas, 230 motetos e 90 canções.

Da canção “Entre vous, filles de quinze ans” apenas se verterá em português o título – “Entre vós, raparigas de 15 anos” – por o decoro não aconselhar a tradução do texto, que aqui segue no original: “Entre vous, filles de quinze ans/ Ne venez plus à la fontaine/ Car trop avez les yeaux friants/ Tétin poignant/ Bouche riant/ Conin mouflant/ Le coeur plus gai qu’un mistaine”.

A canção teve larga difusão e, em 1581, o “divino” Orlando de Lassus teve a ousadia de usar o seu material melódico para compor uma missa, que deverá ter feito surgir um sorriso matreiro em quem, ao ouvi-la no ofício religioso, tenha reconhecido a canção de origem.

[Pelo Church of the Ascension and Saint Agnes, com direcção de Haig Mardirosian (Centaur)]

“La, La, La, Je Ne l’Ose Dire”

Compositor: Pierre Certon (c.1510/20-1572)

Pierre Certon nasceu possivelmente em Melun, no Norte de França, e o primeiro registo que dele se conhece data de 1527, altura em que fez parte da capela real. Na juventude, parece ter sido um espalha-brasas, pois foi admoestado por jogar à bola na Catedral de Nôtre-Dame e por se recusar a comparecer a ofícios religiosos. Em 1532, tornou-se cantor na Sainte-Chapelle, em Paris, ascendendo, quatro anos depois, ao cargo de mestre dos coristas, que ocupou até ao fim da vida. Deixou três missas, 60 motetos e cerca de 300 canções.

“La, La, La, Je Ne l’Ose Dire” é uma das suas canções mais zombeteiras: conta a história de um homem que tem ciúmes da mulher – e tem boas razões para tal. Até que, “Farto deste suplício/ O pobre homem se enforca/ Mas a mulher, por velhacaria,/ Até ao Inferno o segue/ A moral desta história/ É que, antes de casar,/ É preciso estar a par/ De que o faz para a Eternidade".

[Pelo Ensemble Clément Janequin, do álbum Une Fête Chez Rabelais (Harmonia Mundi)]

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“Mignonne, Allons Voir Si la Rose”

Compositor: Guillaume Costeley (c.1530-1606)

Não se sabe ao certo onde terá nascido Guillaume Costeley (Auvergne? Normandia?) e não há registos seus até chegar, em 1554, a Paris, onde, quatro anos depois, foi nomeado organista da capela real. Em 1570 publicou a colecção Musique de Guillaume Costeley, que reúne praticamente todas as obras que dele sobrevivem – incluindo uma centena de canções –, e foi um dos membros fundadores da Académie de Poésie et Musique, sob a liderança de Jean-Antoine de Baïf, instituição que foi pioneira na organização regular de concertos.

“Mignonne, Allons Voir Si la Rose” é (a par de “Allons, Gay Bergères”), a sua canção mais famosa. O texto, de Pierre Ronsard, foi espoletado pelo encontro deste, em 1545, num festejo na corte, com Cassandra Salviati, filha de um banqueiro italiano, que tinha à data 13 anos. Ronsard, que tinha 20, não voltou a vê-la, mas o fascínio nele exercido pela jovem italiana levou a que lhe consagrasse um poema. Esta obsessão de um adulto por uma miúda de 13 anos seria hoje vista como pedofilia, mas há que atender a que os padrões da sexualidade no século XVI (e, em particular, o conceito de “idade do consentimento”) eram bem diversos dos actuais.

[Pelo Ensemble Ludus Modalis, com direcção de Bruno Boterf (Ramée)]

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©DR

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O mais frequente na música orquestral é que só um galo cante na capoeira, ou seja, a maioria dos concertos destina-se a um único solista. Porém, no período barroco, era frequente que dois solistas partilhassem o protagonismo.

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