Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Uma história do prog rock em dez canções

Uma história do prog rock em dez canções

A vinda a Lisboa de Steven Wilson, a figura cimeira do prog rock nas últimas duas ou três décadas, é pretexto para recordar alguns momentos-chave de um género musical que costuma dividir as opiniões

Steven Wilson
©Hajo Muller Steven Wilson
Por José Carlos Fernandes |
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Época e local: Grã-Bretanha, de finais dos anos 60 até meados dos anos 70

Origem do nome: “prog” é uma contracção de “progressive”, o que pressupõe que o “rock progressivo” seria uma forma de rock mais sofisticada e avançada do que aquele que se ouvira até então. Sinónimos: symphonic rock (“rock sinfónico”) e art rock. A música pop-rock sempre sofrera de um complexo de inferioridade face à música clássica e ao jazz: vendia muito mais, mas faltava-lhe sofisticação e respeitabilidade. Os Beatles e os Beach Boys foram dos primeiros a recorrer a arranjos orquestrais elaborados e a tirar partido das vastas possibilidades de manipulação sonora que o estúdio oferecia, fazendo com que as sessões de gravação dos álbuns se fossem tornando cada vez mais longas e perfeccionistas.

Forma: o termo “canção” usado, por conveniência, no título acima, seria visto como inadequado por músicos e público. A maioria dos grupos de prog rock abandonou a canção convencional, com três minutos de duração e assente na alternância de estrofe e refrão e investiu em longas peças compostas por múltiplas partes, minuciosamente arranjadas, por vezes com longas digressões instrumentais ou declamações solenes entre as partes cantadas. O álbum como colecção de unidades musicais desirmanadas deu lugar ao “álbum conceptual”, com as várias “peças” sujeitas a um conceito unificador, que podia ou não envolver uma narrativa.

Instrumentário: a clássica trindade guitarra/baixo/bateria foi dilatada com a nova geração de teclados electrónicos, como o moog, o mellotron e, depois, um sem fim de sintetizadores (que faziam com que os teclistas ficassem ocultos do público por uma muralha de equipamento), e com instrumentos “exóticos”, das tradições africanas e asiáticas. Foi também uma época em que os kits de bateria, até aí muito simples, cresceram desmesuradamente, com a parafernália de pratos e tambores a poder ser complementada por sinos, triângulo, glockenspiel, timbales de orquestra e gongos, podendo estes ter dimensões colossais.

Keith Emerson à bulha com um dos seus teclados: alegoria de um género que ruiu sob o seu próprio peso?

Código de vestuário: alguns músicos – como os Pink Floyd – vestiam-se como quaisquer outros músicos rock da época, outros – como os Yes e Peter Gabriel, dos Genesis – davam preferência a túnicas, capas, botas e calças e coletes justos prateados que pareciam saídas do guarda-roupa de um filme de ficção científica de série B. Entre os fãs nunca se desenvolveu um código de vestuário específico.

Cabelo: a maior parte dos músicos usava-o comprido, até aos ombros.

Apresentação ao vivo: foi com o prog rock que os concertos começaram a ganhar cenários e jogos de luzes elaborados e a incluir projecção de imagens. Como a música era muito complexa, a maior parte dos músicos eram forçados a uma postura relativamente estática (a agitação frenética de Keith Emerson era uma excepção, tal como as actuações teatrais de Peter Gabriel).

Capas dos discos: predomínio de temas fantasiosos, ligados à ficção científica ou a mitologias, antigas ou inventadas. As paisagens fantásticas do ilustrador Roger Dean (que também foi o cenógrafo dos extravagantes espectáculos dos Yes) são a imagem de marca do género. As capas que se desdobravam em várias laudas tornaram-se comuns. Todo este aparato gráfico acabaria por perder-se com o advento do CD, cujas minúsculas dimensões são incapazes de fazer justiça a grafismos idealizados para os 31 x 31 cm de cartão dos LPs.

Declínio: o prog rock impôs-se na primeira metade dos anos 70, mas na segunda metade da década o público começou a ficar farto de música grandiloquente, faixas de vinte minutos de duração, álbuns conceptuais, letras esotéricas e herméticas e virtuosismo instrumental esfuziante. A ascensão do punk, da no wave e outras correntes musicais, geralmente despojadas e cruas, em reacção à imponência barroca do prog rock, acabaram por atirá-lo para o caixote de lixo da história. As bandas de referência do género dissolveram-se, ou persistiram em discos cada vez mais desinspirados e ignorados fora do círculo de fiéis, ou tentaram acompanhar as mudanças de gosto com concessões pontuais (quase sempre ridículas), ou mudaram radicalmente de sonoridade, abraçando a mais banal pop comercial. Na entrada dos anos 80, o prog rock e os seus excessos já eram assunto de troça entre a crítica e o público – e é verdade que poucos géneros se puseram tão a jeito para serem ridicularizados.

Uma história do prog rock em 10 canções

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“A Whiter Shade of Pale”, Procol Harum

Ano: 1967

É muito provável que esta seja a única canção dos londrinos Procol Harum que a maior parte das pessoas conhece. O grupo formara-se em Abril de 1967 e o single foi lançado em Maio e instalou-se no primeiro lugar do top britânico – acabaria por vender um total de 10 milhões de exemplares em todo o mundo. O sucesso do single pressionou o grupo e a editora a fazê-lo seguir, rapidamente, por um álbum, que surgiu em Setembro (intitulado Procol Harum e que não continha, na edição original, o êxito “A Whiter Shade of Pale”), mas os Procol Harum não voltaram a averbar um sucesso comparável.

“A Whiter Shade of Pale” dá papel de destaque à voz de Gary Brooker e ao órgão Hammond de Matthew Fisher, cuja melodia segue de perto a “Air” da Suíte para orquestra n.º 3 de Bach – a apropriação ou namoro com peças clássicas seria um fenómeno recorrente do prog rock. Em Procol Harum e nos álbuns subsequentes a banda recorreu amiúde a orquestras, nem sempre com resultados felizes, como atesta, por exemplo, “Conquistador”, do álbum de estreia, que soa como uma versão grandiloquente da concorrente espanhola ao Festival da Eurovisão circa 1970.

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“Nights in White Satin”, The Moody Blues

Ano: 1967

The Magnificent Moodies, o álbum de estreia, em 1965, da banda de Birmingham The Moody Blues, não deixava adivinhar o que viria a seguir: era uma colecção de despretensiosas e olvidáveis cançonetas rhythm’n’blues. Para o segundo álbum, Days of Future Passed (1967), o grupo, que entretanto sofrera substanciais alterações na sua formação, reinventou completamente o seu som. Os teclados de Mike Pinder – e, mais especificamente, o mellotron, um proto-sampler capaz de emular o som de uma orquestra de cordas – e os arranjos orquestrais – tocados pela London Festival Orchestra – tornaram-se dominantes e o grupo abriu-se a influências psicadélicas. O álbum tinha também a novidade do conceito unificador: pretendia retratar um dia na vida de um homem comum.

O resultado pode soar hoje demasiado acetinado e mole, mas foi um passo pioneiro do prog rock.

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“The Court of the Crimson King”, King Crimson

Ano: 1969

É raro uma banda estrear-se com um álbum tão inovador, ousado e maduro como In the Court of the Crimson King. Se os Procol Harum e os Moody Blues ainda andavam a tactear o terreno, os King Crimson, cujo primeiro ensaio tivera lugar em Londres em Janeiro de 1969, sabiam bem o que estavam a fazer – e tão bem o sabiam que, após um segundo álbum nos mesmos moldes, In the Wake of Poseidon (1970), entenderam que o assunto estava encerrado e rumaram a novas paragens, numa demanda incessante que prossegue até aos nossos dias e que tem como único elemento fixo o guitarrista Robert Fripp (o que não quer dizer que a forma de operar da banda não seja cooperativa).

In the Court of the Crimson King não se limita a oferecer modelos perfeitos de canções prog rock – como “I Talk to the Wind” ou “The Court of the Crimson King” – também prefigura o que seria o jazz metal do século XXI, com a abrasiva “21st Century Schizoid Man”.

Em “The Court of the Crimson King” pode ouvir-se claramente o mellotron, instrumento que se tornaria numa marca distintiva do som dos King Crimson e que é aqui tocado por Ian McDonald – os King Crimson muito raramente recorreram a orquestras, usando os recursos da banda para produzir um som “sinfónico”.

[Primeira parte de “The Court of the Crimson King”]

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“Afterwards”, Van Der Graaf Generator

Ano: 1969

Outra banda de prog rock que se estreou com um álbum de perfeita maturidade foram os Van Der Graaf Generator, formados em Manchester em 1967 por Peter Hammill e Chris Judge Smith. Os primeiros tempos foram extraordinariamente instáveis, com inúmeras contrariedades (incluindo o furto da carrinha com o equipamento da banda), quezílias contratuais e constantes mudanças de formação, entre as quais houve a registar a saída de Smith. No início de 1969, Hammill viu-se abandonado pelos restantes músicos e dispôs-se a gravar The Aerosol Grey Machine como um álbum a solo, mas entretanto o álbum acabou por contar com membros do que viria a ser o núcleo central dos Van Der Graaf Generator (Hugh Banton e Guy Evans, que, quase 50 anos depois, continuam ao lado de Hammill), sendo lançado sob o nome da banda em Setembro desse ano. A instabilidade não diminuiu e a banda continuou, nos anos seguintes a ter uma carreira intermitente, atormentada por dificuldades financeiras e sucessivas alterações na formação.

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“Atom Heart Mother”, Pink Floyd

Ano: 1970

Em 1970, os londrinos Pink Floyd já tinham atrás de si quatro álbuns de originais, que atestam apreciáveis mudanças no som da banda. Já ia longe o psicadelismo tresloucado de The Piper at the Gates of Dawn, nascido do génio inflamado de Syd Barrett, cujo comportamento errático o tinha tornado completamente incapaz de trabalho em grupo, e, pouco a pouco, sem renegar as influências psicadélicas, a banda tinha vindo a criar uma sonoridade mais elaborada. Após os experimentalismos de Ummagumma (1969), a banda aliou-se ao compositor, orquestrador e manipulador sonoro Ron Geesin para criar a suíte “Atom Heart Mother”, que preenche todo o lado A do álbum homónimo e que nada deve ao formato canção: é uma peça instrumental de 23 minutos, em seis partes, em que a banda é complementada pelo John Alldis Choir e por elementos da EMI Pops Orchestra.

Stanley Kubrick, um melómano atento e informado, reconheceu de imediato as qualidades desta bizarra suíte e tentou utilizá-la na banda sonora de Laranja Mecânica (1971), mas a banda rejeitou o pedido.

[“Father’s Shout”, I parte da suíte “Atom Heart Mother”]

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“The Hut of Baba Yaga”, Emerson, Lake & Palmer

Ano: 1971

Emerson, Lake & Palmer soa a nome de firma de advogados, mas foi um dos primeiros super-grupos da história, reunindo o teclista Keith Emerson (proveniente dos Nice), o vocalista, baixista e guitarrista Greg Lake (vindo dos King Crimson) e Carl Palmer (dos Atomic Rooster e, antes, de The Crazy World Of Arthur Brown). Os Emerson, Lake & Palmer foram o grupo de prog rock que mais recorreu ao repertório erudito: o primeiro álbum, homónimo, de 1970, adaptava excertos da Sinfonietta de Janácek e da Suíte Francesa n.º 1 de Bach; o terceiro álbum, Pictures at an Exhibition, assimilou para a exuberante linguagem prog rock/jazz de fusão do trio o ciclo de peças para piano Quadros de uma Exposição (1874), do compositor russo Modest Mussorgsky – o álbum documenta o concerto ao vivo no City Hall de Newcastle a 26 de Março de 1971 e deixa Mussorgsky bastante maltratado, mas a verdade é que a faceta pirotécnica dos Emerson, Lake & Palmer fez deles um dos mais populares grupos de prog rock, vendendo um total de 48 milhões de discos. Em abono da verdade deverá realçar-se que a vertente mais espalhafatosa da banda convivia com delicadas baladas acústicas de Greg Lake.

[“The Hut of Baba Yaga”]

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“And You and I”, Yes

Ano: 1972

Os Yes, formados em Londres em 1968, tinham três álbuns no curriculum e tinham vindo a fazer uma trajectória de crescente sofisticação, a que não foram estranhas as mudanças de formação, nomeadamente a entrada do guitarrista Steve Howe em 1970 e do teclista Rick Wakeman em 1971.

Close to the Edge, de 1972, é o primeiro álbum de plena maturidade – e uma das obras-primas do prog rock. Compõe-se de apenas três “canções”, com o lado A a ser tomado por “Close to the Edge” (em quatro partes) e o B a ser repartido por “And You and I” (em quatro partes) e “Siberian Kathru”. Tal como os King Crimson, os Yes não precisavam de orquestras para soarem “sinfónicos”, bastava-lhes o virtuosismo dos seus instrumentistas, a formidável parafernália de teclados de Wakeman e um meticuloso trabalho de composição, arranjo e gravação (que acabaria por exasperar o baterista Bill Bruford, levando-o a abandonar a banda mal o disco ficou terminado).

[“And You and I”]

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“Watcher of the Skies”, Genesis

Ano: 1972

Tal como os Yes, também os Genesis, fundados em 1967 em Godalming, no Surrey, tinham vindo a afastar-se das suas raízes pop e folk em direcção ao prog rock, inflexão que esteve associada às alterações na formação. A entrada, em 1970, do guitarrista Steve Hackett e do baterista Phil Collins foi decisiva para que Nursery Crime (1971), o terceiro álbum da banda, entrasse decididamente na esfera do prog rock, via que seria reafirmada no ainda mais refinado Foxtrot, de 1972, uma obra-prima do prog rock. A primeira faixa, “Watcher of the Skies”, cujo título Peter Gabriel pediu emprestado a um verso de John Keats (os letristas do prog rock eram well read), tem uma abertura de um dramatismo e imponência esmagadores, realizada apenas com os teclados de Tony Banks (mais uma vez o mellotron desempenha papel crucial).

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“On Reflection”, Gentle Giant

Ano: 1975

Os Gentle Giant tinham como programa “dilatar as fronteiras da música popular contemporânea mesmo correndo o risco de torná-la impopular”. A verdade é que a extrema complexidade da sua música – mesmo pelos padrões do prog rock – garantia que nunca teriam as hostes de fãs dos Emerson, Lake & Palmer. O grupo formou-se em Londres em 1970 e teve como núcleo os irmãos Shulman – Derek, Phil e Ray – e Gary Green e Kerry Minnear, todos eles exímios multi-instrumentistas, alguns deles com formação clássica.

Os Gentle Giant combinavam rock, jazz, folk, jazz e música medieval e renascentista – as influências “arcaicas” são bem audíveis na fuga de “On Reflection” – uma síntese talvez demasiado ecléctica e imprevisível mesmo para os fãs do prog rock. Free Hand (1975), o quinto álbum da banda e aquele em que é mais notório o esforço de produzir algo mais acessível, foi o maior sucesso dos Gentle Giant, embora mal tenha conseguido entrar no top 50 dos EUA.

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“Nowhere Now”, Steven Wilson

Ano: 2017

O britânico Steven Wilson (n.1967), foi frontman dos Porcupine Tree, tem estado envolvido numa mão cheia de projectos e tem colaborado, como músico, engenheiro de som e produtor, com inúmeras bandas (incluindo velhas glórias do prog rock). Os Porcupine Tree, nascidos em 1987, foram o seu “filho favorito”, até ao 10.º álbum, The Incident (2009), mas no início de 2010, Wilson anunciou que iria concentrar-se no seu trabalho a solo, cujo primeiro CD, Insurgentes, surgira em 2008. Desde então lançou mais quatro, sendo o mais recente, To the Bone (2017), que inclui esta “Nowhere Now”.

Embora Wilson fosse o compositor e mentor dos Porcupine Tree, os discos em nome próprio registam mudanças apreciáveis de sonoridade, com os laivos metálicos e agressivos a dar lugar a formatos mais pop e mainstream, tendência que se acentuou em To the Bone.

A To the Bone Tour passa pela Altice Arena, na terça-feira 15, às 21.00, bilhetes a 25€.

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