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A homenagem e vingança das ‘Novas Cartas Portuguesas’ dá-se no palco do Teatro Nacional

‘Ainda Marianas’ estreia-se esta quinta-feira no Teatro Nacional D. Maria II. Falámos com as mulheres que querem vingar a obra das três Marias – e tirá-la do esquecimento.

Joana Moreira
Escrito por
Joana Moreira
Jornalista
Ainda Marianas
Ricardo Lopes
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“Como é que é possivel que, ao longo de toda a minha vida e toda a minha formação, nunca tenha ouvido falar deste livro?”, questiona-se Catarina Rôlo Salgueiro, 30 anos, enquanto descreve a memória do seu primeiro encontro com Novas Cartas Portuguesas. Ela que até fez Humanidades e chegou a estar um ano na licenciatura de Línguas, Literaturas e Culturas. “Conheci o livro através de um filme da [realizadora] Leonor Noivo que se chama Outras Cartas ou o Amor Inventado (disponível na Filmin). Há aqui uma falha qualquer: porque é que o livro foi votado a este esquecimento?", continua a encenadora, que se juntou a Leonor Buescu, 27, para criar uma peça a partir da obra conjunta de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.

O livro – um grito de libertação e emancipação feminina em resposta às Cartas Portuguesas atribuídas a Mariana Alcoforado e supostamente enviadas ao marquês de Chamilly, três séculos antes – foi escrito a seis mãos e publicado em 1972, em plena ditadura fascista. De imediato foi retirado de circulação por ser considerado uma ofensa à moral pública e depressa se tornou um símbolo político da luta contra a opressão e pela liberdade, a igualdade e os direitos da mulher. 

“É gritante o facto de o livro ter sido quase branqueado dos programas na escola. Um livro que foi tão importante e que teve tantas repercussões e ecos internacionalmente”, acusa Catarina. A ministra da Cultura, Graça Fonseca, assumiu, em Março, que a obra “devia ser mais conhecida”. “Se fosse apenas uma grande obra literária, provavelmente seria estudada nas escolas; se fosse apenas um grande texto político, provavelmente seria estudado nas escolas”, disse em declarações à Lusa, confessando que “várias vezes” se interrogou sobre essa ausência.

Em 2022, 50 anos volvidos, o texto sobe ao palco do Teatro Nacional D. Maria II, de 21 de Abril a 8 de Maio. Na sala de ensaios, dois meses antes da estreia de Ainda Marianas, encenadoras e actrizes descobrem o texto, alternando leituras. A peça tem lugar no tribunal da Boa Hora, em 1974, quando o julgamento das Três Marias, interpretadas por Ana Baptista, Teresa Coutinho e Rita Cabaço está finalmente a decorrer. Pela voz desta última escuta-se a dada altura: “O nosso julgamento foi considerado a primeira causa feminista a nível mundial e cá a única coisa que eles faziam era adiar constantemente o julgamento para ver se nós quebrávamos. A espera, a espera, sempre a espera”. 

As encenadoras passaram horas e horas no Campus de Justiça a consultar o processo e a transcrevê-lo. “Decidimos logo à partida que não era só o livro que nos interessava, mas também a componente documental e histórica”, explica Leonor. “Trazer [o livro] ao teatro nacional é uma espécie de homenagem e de vingança”, acrescenta Catarina, que espera que “muitas pessoas da idade [delas] e mais novas até venham ver o espectáculo e fiquem pelo menos com curiosidade de ler o livro".

Durante cerca de uma hora e meia, o trio de mulheres assume todas as personagens, das testemunhas de defesa às próprias Marias: Maria 1, Maria 2 e Maria 3. Isto porque, tal como no texto original, nenhuma se descose sobre quem é quem. A bem dizer, os mais atentos conseguirão decifrar qual das Marias é Rita Cabaço, qual é Teresa Coutinho e qual é Ana Baptista. “Algumas pessoas vão perceber, mas não era uma coisa que nos interessasse esmiuçar muito, precisamente por essa questão do anonimato, de não se saber quem é que escreveu o quê. É o tal trabalho de conjunto”, diz Catarina. As pistas encontram-se em pequenos detalhes nos episódios biográficos que pontuam a dramaturgia. 

Tal como a obra literária na época, poderá esta peça, em 2022, criar alguma resistência? “Se fosse há uns anos eu diria que não, mas hoje é tão surpreendente o que pode causar resistência”, suspira Teresa Coutinho. A actriz continua: “Acho que ainda muita gente provavelmente vai ver [a peça] e vai sentir ‘pois, aqui ela estava a pedi-las’. Eu ainda hoje ouço dizer ‘ela estava a pedi-las’. E está lá tudo. Continua a estar lá tudo. [É importante] poder haver esse debate, as pessoas poderem falar sobre isso, para ver se uma vez por todas, 50 anos depois, algumas destas ideias se dissipam de uma vez por todas”.

Teatro Nacional D. Maria II (Sala Estúdio). 21 Abr-8 Mai. Qua-Sáb 19.30 e Dom 16.30. 11€

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