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Peca ultima hora
Filipe FerreiraMiguel Guilherme sobe pela primeira vez ao palco da sala principal do teatro nacional

A luta pela sobrevivência do jornalismo é tão dramática que chegou ao teatro

Rui Cardoso Martins escreveu 'Última Hora', peça sobre os últimos dias de um diário que se estreia nesta quinta-feira no D. Maria II. Falámos com o escritor e com o encenador Gonçalo Amorim para entender o poder da anedota como valor universal.

Por Sebastião Almeida
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“(...) Eu admiro os tempos heróicos dos jornais, sabe Deus e sabe Marx o que se me rasga cá dentro quando vejo belas estagiárias… e, enfim, até estagiários… tão aparentemente promissoras-res, tão capazes de derrubar um ministro com um escândalo das contas do sobrinho, um canalha primeiro-ministro com amiguinhos ricos, capazes de escrever «lobby económico» sem gralhas, candidatos a grandes jornalistas um dia e… e já a beberem sumos frescos, a deitarem-se a horas, a serem fiéis aos namorados, a almoçarem bagas e sementes nas suas marmitas.” Esta frase poderia ter sido proferida numa conversa franca entre jornalistas de um outro tempo, ouvida numa qualquer redacção do país, mas quem a diz é Sousa Neves, directora-adjunta do Última Hora. O nome não lhe diz nada? Não estranhe: aqui, estamos no domínio da ficção – trata-se, pois, do jornal criado por Rui Cardoso Martins, no texto que faz nascer a peça com o mesmo nome, que se estreia a 8 de Outubro, no Teatro Nacional D. Maria II.

“[A peça] não é uma explicação sobre o mundo dos jornais. É uma imersão num mundo complexo, que trabalha 24 horas por dia. Quero que percebam a dimensão heróica e drástica de uma profissão de nobreza sempre posta em causa pelos inimigos da democracia”, diz à Time Out Rui Cardoso Martins, escritor, argumentista e antigo jornalista. Última Hora, com encenação de Gonçalo Amorim é, no fundo, uma comédia sobre os últimos dias de um diário que luta para sobreviver num tempo em que o jornalismo e quem o faz está desacreditado, em que as notícias falsas ecoam no léxico de todos, e em que ninguém paga para ter acesso à informação.

Miguel Guilherme dá vida a Santos Ferreira, o director do jornal, um inconformado idealista, caído em desgraça, que se recusa a aceitar o fado idêntico ao de outros tantos títulos – o fecho. Maria Rueff é Sousa Neves, a directora-adjunta que não entende a falta de irreverência da geração de estagiários bem-comportados que lhes chega à redacção, prontos a serem descartados passado um punhado de meses. Um dado curioso é que esta é a primeira vez que os dois actores sobem ao palco da sala principal do teatro nacional.

"Se as pessoas vêm ver [a peça] para saber como se faz uma redacção, não o vão encontrar”, avisa Cardoso Martins. O público irá deparar-se, sim, com “a loucura criativa de quem trabalha num jornal e com as dificuldades de gerir um em crise.”

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Filipe FerreiraJosé Neves é Ramires Sá Saraiva, o novo CEO do jornal, que promete torná-lo num negócio digital rentável

O luto do jornal é vivido de uma forma trágico-cómico, e numa “linguagem que não é jornalística”, explica o autor. A linguagem é profundamente literária, toldada por tristeza e sarcasmo. “Quando escrevo, tenho de escrever um pouco contra o jornalismo que há dentro de mim. Por isso é que a linguagem é tão complexa.”

Para Gonçalo Amorim, foi interessante pegar num trabalho finalizado e “perceber que o universo de ambos [actores e jornalistas] se cruza”. Há o lado boémio e noctívago, a precariedade e a fragilidade laboral. São tudo adversidades que ambas as profissões enfrentam. Profissões românticas, alimentadas pelos sonhos de quem chega ao ofício. Enquanto encenador, coube-lhe “conseguir não aligeirar usando a graça” e “criar um universo plástico noir”, inspirado na estética de Roy Andersson e de Wes Anderson, conferindo um cuidado cromático ao espectáculo que nos desliga da realidade e cria um tempo psicológico que só ali existe.

Tendo-se iniciado como jornalista, Cardoso Martins pôs muita da sua vivência e de outros camaradas de profissão na narrativa. Viviam-se outros tempos, dirão os mais novos. “Fomos afortunados, havia dinheiro, mas foi uma sorte conquistada com enorme sofrimento”, realça. “Só a distância dá a proximidade” e o texto, publicado também em formato de livro pela Tinta da China, está “construído nessa distância”, diz o autor.

Em tempos cada vez mais estranhos, com uma pandemia a mudar-nos os hábitos, uma onda crescente de populismo e um impasse no Brexit, o jornalismo continua a ser essencial ao funcionamento pleno de uma democracia. Para Rui Cardoso Martins, a solução para o problema da decadência da profissão poderá passar por uma responsabilização individual do cidadão, da presença de espírito crítico em cada um, que faça questionar. E por isso deixa o seu contributo: uma ficção literária sem intuitos pedagógicos, que faz uso da pequena anedota como valor universal. No fundo, “uma história humana de grande impacto” que, quem sabe, nos deixa a pensar.

Teatro Nacional D. Maria II (Rossio), 800 213 250, 8 Out-15 Nov, 9-16€.

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