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A Mercearia Criativa tem um espaço novo e mais produtos (mas a tradição de sempre)

A loja cresceu para a porta ao lado e passou a ter leitão e bolachas madeirenses. Está mais ampla e moderna, mas sempre com os detalhes da casa da avó.

Andreia Costa
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Andreia Costa
Mercearia Criativa
Rita Chantre | Mercearia Criativa
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Aos 16 anos, a Mercearia Criativa deu um pulo. Não foi um pulo repentino, durou quase um ano (o tempo das obras), mas traduz-se numa nova fase: a casa está maior, mais arrumada e arejada, mantendo o conforto e a memória que conquistou os clientes do bairro da Alameda ao longo dos anos.

O espaço estendeu-se para a loja do lado, que anteriormente era um café, e a reorganização trouxe mais desafogo e leveza a uma mercearia que, por vezes, podia ser claustrofóbica – sobretudo para Rita Ferreira, a proprietária que queria tanto oferecer mais produtos aos clientes, mas não tinha onde armazenar ou expor mais uma embalagem que fosse. “Nós gostávamos muito de como ela era, mas sentíamos muitas dificuldades em termos operacionais, em termos de trabalho e de logística. Não tínhamos espaço para pôr mais produtos, gostávamos às vezes de encomendar em quantidade, mas não tínhamos onde fazer stock”, explica Rita à Time Out.

Mercearia Criativa
Rita ChantreRita Ferreira, a proprietária da Mercearia Criativa, que sonhava com um espaço maior

Na porta ao lado, há dois anos que a vizinha que tomava conta do café manifestava a vontade de ir embora. “A senhoria era a mesma, o que facilitou muito o processo para chegarmos a acordo.” Abriu-se então uma porta entre as duas lojas e foi possível ampliar, remodelar e reorganizar. O acesso faz-se agora pelo lado direito, que em frente tem a vitrine dos queijos e enchidos. Há ainda legumes e fruta. Um degrau do lado esquerdo dá acesso à mercearia, com pão, bolo lêvedo, bolo do caco e bolachas a pedirem para serem acrescentadas só por gulodice à cesta de compras (há várias de palhinha, tal como as de antigamente). 

A antiga porta tem agora uma bancada que pode ser removida em dias de eventos ou se for preciso facilitar a mobilidade de alguém. “Faz lembrar a forma como estávamos à janela antigamente. Temos os produtos expostos, mas também podemos servir quem passa e a verdade é que já há pessoas a tirarem fotos aqui, acham instagramável”, diz Rita. Em cima dela há flores. Chegam frescas duas vezes por semana e estão finalmente à venda. “Tínhamos clientes que viam as flores que tínhamos a enfeitar o espaço e queriam comprar. Fizemos-lhes a vontade.” Do lado esquerdo, o armário até ao tecto foi recuperado e iluminado. Saltaram as antigas portas de vidro e exibem-se agora vinhos, azeites e bolachas. 

Mercearia Criativa
Rita ChantreMercearia Criativa
 Mercearia Criativa
Rita ChantreMercearia Criativa

As escadas que davam acesso à sala superior lá continuam, mas relevam agora uma sala que parece ter duplicado de tamanho e onde se instalaram mais mesas e uma zona de lazer. Mudou a iluminação, as vigas ficaram à mostra, o chão tem agora quadrados brancos e vermelhos. “Queríamos que parecesse uma casa porque queríamos mesmo que as pessoas se sentissem em casa”, explica Patrícia Duarte, do atelier Angorá, responsável pelo projecto de remodelação. 

Tal como em tudo por aqui, também esta parceria tem contornos pessoais. “Eu e a Rita estudámos juntas na escola António Arroio, dos 15 aos 17 anos. Depois, apesar de não termos tanta comunicação, nunca lhe perdi o rasto ao longo dos anos e vinha algumas vezes à Mercearia. A Rita também foi acompanhando o meu trabalho e, no ano passado, escreveu-me através do Facebook, nem sequer tínhamos os números uma da outra”, conta. Rita desafiou a antiga colega para re-imaginar a Mercearia Criativa e Patrícia percebeu logo o que tinha de fazer: dar um novo rosto ao espaço, sem desvirtuar a alma tradicional que tinha. Para colaborar com ela na parte da decoração, convidou Ana Oliveira.

Mercearia Criativa
Rita ChantreMercearia Criativa
Mercearia Criativa
Rita ChantreMercearia Criativa

A principal dificuldade foi unir dois espaços que nada tinham a ver um com o outro. Apostaram no chão como elo de ligação e fizeram questão que todos os materiais fossem de marcas portuguesas, “tal como os produtos que se vendem aqui.” O pavimento tem cortiça e vem do Alentejo, de onde é a família materna de Rita. As madeiras do tecto foram recuperadas e deixadas no tom natural. Do lado do antigo café, manteve-se o tecto, mas o tom carregado deu lugar ao branco. As novas casas de banho têm tons verde garrafa, “uma cor que é muito portuguesa.” 

As ripas no tecto vão permitir pendurar decorações, mas também produtos. Os cabazes de Natal (uma oferta personalizada que Rita adora fazer e que os clientes adoram comprar) vão agora ocupar as mesas da sala e ganhar protagonismo, com espaço para estarem expostos. Nesse mesmo canto há uma poltrona, que acrescenta conforto. “As pessoas podem sentar-se, ler um livro, ouvir uma música, tal como se estivessem na sala de sua casa”, diz Ana. Um espaço tranquilo, mas de convívio. “As pessoas precisam de conviver, de estar umas com as outras, e a Mercearia traz isso. Houve uma pequena inauguração para as pessoas que estiveram envolvidas no projecto e para as pessoas da rua. Ninguém arredou pé, estava tudo feliz e confortável.”

Do leitão às bolachas do Funchal, há novidades nas prateleiras

A caminho está uma parceria com a Roots & Meats, carnes de origem biológica. “Vendemos arroz, legumes, fruta e a carne é um complemento natural. Por isso, achamos que fazia falta ter aqui um bom bife”, explica Rita. Continuam a estar disponíveis as refeições das marcas São Bernardo e Cuca no Forno e a elas vai juntar-se o leitão, algo que havia sempre à mesa do avô paterno no Natal. “O meu pai nasceu no Porto, mas viveu na Figueira da Foz, e os meus avós eram da zona de Pombal, Ansião. O leitão é algo que quero trazer para aqui há muito tempo.”

Com mais espaço, é também possível ter agora bolachas da Fábrica Santo António do Funchal, na Madeira, que tem produção artesanal desde 1893. Juntam-se à spirulina da ilha da Graciosa, nos Açores, e aos enlatados, compotas e cafés que ocupam as prateleiras e um louceiro grande de madeira, de onde sobressaem as embalagens coloridas de chocolates biológicos e das garrafas de medronho. “Somos um bocadinho a dispensa dos clientes”, diz Rita, com orgulho.

Mercearia Criativa
Rita ChantreMercearia Criativa

Há espaço para 10 ou 12 pessoas, incluindo sentados à volta de uma mesa centenária de tampo de pedra e pernas de madeira pintadas de azul. É da casa da aldeia dos avós maternos que vem este e muitos outros adereços que tornam o espaço ainda mais único e revivalista: há ferros de engomar, torradeiras, latas de café e açúcar, funis e batedeiras manuais. Até o lavatório que está agora na casa de banho foi repescado do quintal da família. “Era a pia onde o gado bebia água.” 

Os workshops e provas vão regressar, depois de terem estado em pausa devido às obras. As provas de vinho podem agora migrar para o andar de cima, se o número de participantes for elevado. No andar de baixo, a garrafeira é o único espaço que se mantém igual e guarda religiosamente mais de 40 referências, do Algarve a Trás-os-Montes, passando pelas ilhas. 

Mudar de localização, nem pensar

Ao longo dos anos, Rita foi visitando outros espaços. Alguns tinham o tamanho ideal e até localizações mais centrais, mas nunca tinham o detalhe mais importante. “Ia aos sítios e não sentia nenhuma ligação de afecto. Se os turistas vierem, são muito bem-vindos, mas a verdade é que somos uma mercearia de bairro, damos mesmo muita resposta a quem vive e trabalha aqui. Somos o ponto de encontro de muitas gerações, vêm aqui avós, pais, netos. Sair seria desvirtuar isso.”

Rita juntou-se ao projecto em 2012, como funcionária em part-time. Apaixonou-se pelo espaço, pela dinâmica e, sobretudo, porque tudo lhe fazia lembrar a mercearia da terra dos pais. “A mercearia aonde ia comprar os rebuçados, fazer o furo dos chocolates da Regina, comprar pão quando saía da escola. Tudo isto, para mim, era como estar em casa.” Passou a sócia e, em 2016, com a vontade de Carlos [Moura-Carvalho, o fundador] dedicar-se a outros projectos, Rita ficou com a totalidade da Mercearia Criativa, juntando-se ao próprio pai. “Tanto o meu pai, como a minha mãe, vivem muito isto. De vez em quando ainda me trazem formas que a minha mãe tinha para fazer rissóis, colheres de pau, garrafões antigos que se usavam porque o meu avô fazia vinho.”

Mercearia Criativa
Rita ChantreMercearia Criativa

Há produtores com os quais trabalham desde 2010 e outros novos. Em comum têm todos uma vontade constante de inovar. “Temos produtores a quem lançamos desafios todos os anos. ‘E se agora fizéssemos um produto deste sabor, desta maneira’? Eles aceitam, acham interessante. E depois vamos à procura de marcas novas, com produtos igualmente bons. É isso que vai criando aqui alguma novidade.”

Novidade é também a esplanada, que aumentou significativamente e senta agora 40 pessoas. Exemplo do sentimento de comunidade que se sente é o facto de alguns clientes se terem juntado para oferecer aquecedores de Inverno para a zona exterior, que terá também uma cobertura. “Nós gostamos de sentir a casa ocupada e não precisa de ser sempre para servir cafés ou refeições. Muita gente vem para aqui com o computador para trabalhar, queremos que seja um espaço onde as pessoas possam ficar, tanto dentro como fora.”

Para comer há prego em bolo do caco e hambúrguer em bolo lêvedo, por exemplo. “Tudo é feito de combinações dos nossos produtos. Nós vendemos as alfaces, vendemos o queijo fresco. Então, servimos uma salada de queijo fresco. Fazemos casamentos felizes."

Mercearia Criativa
Rita ChantreMercearia Criativa
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Rita ChantreMercearia Criativa

Abrir uma segunda Mercearia Criativa já foi um sonho mais persistente, mas depois Rita percebeu que era mais importante manter a qualidade e a consistência. Se um dia acontecer, o sítio já está escolhido: Porto. “O meu pai nasceu lá, tenho família lá, acho que me sentiria em casa. Para já, a ideia é aumentar a equipa (actualmente são três pessoas), até porque há muita procura no serviço de catering. “Recebíamos aqui muitas vezes os clientes que vinham petiscar, que vinham provar os nossos enchidos, os nossos vinhos. Às vezes traziam um grupo de sete pessoas, outras vezes de 12, e perguntavam: ‘Se eu quiser fazer uma coisa destas, mas para 30 pessoas, é possível’? Então começámos a ir a casa das pessoas.”

O serviço chama-se A Mercearia Vai a Casa, e tanto pode incluir apenas empratamentos e mise en place, como a equipa ficar para fazer o serviço. Entretanto, no número 4A da Avenida Guerra Junqueiro, voam as tartes Dona Isabel, com pevide, e os pratos takeaway de bacalhau espiritual ou arroz de pato. Mas a Mercearia Criativa será sempre, em primeiro lugar, uma mercearia de bairro. “Posso dizer que aquilo que sai mais no dia-a-dia é pão, legumes e frutas, que são efetivamente os produtos que nós queremos ter sempre.”

Av. Guerra Junqueiro 4A (Alameda). 218 485 198. Seg-Sex 10.00-20.00, Sáb 10.00-17.00

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