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As anti-princesas estão de volta aos jardins de Lisboa

Sentámo-nos à conversa com Cláudia Gaiolas, que continua o ciclo de espectáculos, agora com heroínas portuguesas.

Por Raquel Dias da Silva
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Carolina Beatriz Ângelo, médica e sufragista, foi a primeira mulher a votar no país e em toda a Europa Central e do Sul, em 1911. Agora, é a primeira anti-princesa portuguesa a ser retratada por Cláudia Gaiolas, que volta a trazer heroínas da vida real para os jardins de Lisboa.

A premissa é a mesma – combater estereótipos de género junto dos miúdos – mas a nova temporada deste ciclo de espectáculos descola-se definitivamente da colecção de livros infantis de Nadia Fink, dedicada a personalidades latino-americanas, inspirando-se em vultos femininos da História de Portugal. As primeiras sessões arrancam já no sábado, na Estufa Fria, e prometem pôr as famílias com vontade de exercer a soberania popular – mesmo que seja só para decidir quem é que vai ser o próximo a levantar a mesa lá em casa.

“Vamos votar”, lê-se num cartaz empunhado pela protagonista. “A mulher pode ser o que ela quiser”, lê-se noutro. Entoando palavras de ordem, vestida à época, de pomposo chapéu com penas e flores, Carolina Beatriz Ângelo está a caminho das urnas num diciclo eléctrico. Este cruzamento entre passado e presente pode parecer estranho à primeira vista, mas a história desta anti-princesa é – como a de tantas outras revolucionárias – intemporal. 

“Tem a ver com o direito ao voto e o voto feminino em particular”, esclarece a encenadora e actriz, que destaca a importância da questão política. É que, agora, todos os cidadãos maiores de idade podem votar em Portugal, mas muitas vezes o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resulta na regressão de conquistas. “Só em 1976, passados 65 anos [do voto de Carolina para a Assembleia Constituinte da I República], é que as mulheres puderam votar livremente.”

Num exercício de memória, evoca-se esse passado, não tão distante quanto possa parecer, e listam-se as muitas coisas que as mulheres não podiam fazer, desde ter acesso a certas profissões, como a diplomacia e a magistratura judicial, até trabalhar ou viajar sem consentimento masculino. E lá pelo meio: votar. Mas, se as mulheres não podiam votar, como – e por que é que – Carolina votou? É uma longa história. E para a contar aos mais novos, Cláudia tenta torná-la “simples, mas muito concreta, sem perder a magia ou a surpresa”, revela. “Tentamos que seja fixe e desafiante.” 

Contextualizar ajuda, por isso recorda-se também a vida pessoal de Carolina: do sonho de ser médica-cirurgiã, que concretizou, até ao amor pelo marido Januário Barreto Duarte, médico e activista republicano, cuja morte lhe permitiu invocar em tribunal o direito a ser considerada “chefe de família”.

Aos factos históricos, junta-se música instrumental, caricaturas divertidas e o sempre surpreendente cenário ao ar livre. Por vezes ouvem-se os pássaros a cantar, conta Cláudia. “Eu lembro-me de fazer a Clarice [Lispector] na Mata de Alvalade e ouvir pela primeira vez na vida um pica-pau.” Na Estufa Fria, ainda não sabe qual será a banda sonora natural, mas a actriz gostava de estar bem acompanhada – pelo menos por pequenos e crescidos. “As crianças não podem vir sozinhas, mas os adultos podem”, brinca. 

Entre 12 e 27 de Setembro, há sessões todos os sábados e domingos, duas vezes por dia – primeiro às 11.00, depois às 16.00. A entrada é gratuita, mas devido às actuais limitações de lotação é necessário fazer pré-reserva do bilhete

Estufa Fria. Sáb-Dom 11.00 e 16.00. Grátis, mediante pré-reserva.

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