Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Bárbara Paz “driblou” a morte do cineasta Hector Babenco
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Bárbara Paz “driblou” a morte do cineasta Hector Babenco

Bárbara Paz
Fotografia: Inês Félix A actriz e realizadora esteve em Portugal para apresentar o seu livro em Óbidos

Alguém tem de ouvir o coração e dizer: Parou venceu o prémio de melhor documentário em Veneza e é um poema sobre memória e despedida. Bárbara Paz filmou Hector Babenco, seu marido e cineasta, que morreu em 2016, e reuniu em livro as suas conversas sobre a vida, a morte, o amor e o cinema.

“Conheci ele em 2007 na Feira de [Flip] lá em Paraty. Ele contando histórias numa roda sobre o tempo que esteve preso, de quando foi figurante nos anos 1960, todo orgulhoso”. Bárbara Paz, actriz e realizadora brasileira, sabia quem era Hector Babenco, um dos grandes nomes do cinema brasileiro dos anos 1980, mas não sabia que se viria a apaixonar por esse homem tempestuoso como muitos o descreviam. Passados 13 anos, é ela que à mesa de um hotel no Príncipe Real, em Lisboa, nos conta as histórias do cineasta que morreu em 2016 e que estão agora eternizadas num filme e num livro lançados este ano.

Alguém tem de ouvir o coração e dizer: Parou valeu a Bárbara Paz o prémio de melhor documentário no Festival de Veneza. “É muito louco eu estar aqui contando as histórias dele num filme e num livro sobre como conheci ele”, comenta. O documentário que em Veneza não deixou o júri indiferente é um filme sobre memória. “Ele estava muito fraco já e queria deixar registadas algumas coisas antes de partir”. Babenco descobriu que estava doente aos 38 anos, altura que coincide com a sua época de maior reconhecimento. Morreu com 70. Desde então lutou contra um cancro mas nunca parou de fazer filmes.

“Foi o cinema que manteve ele vivo. Só quis ficar vivo para ficar fazendo filmes”, acredita. A viúva do cineasta recorda a forma como ele dirigia tudo, os filmes, a doença. “Ele foi assim até ao fim. Ele morreu como viveu, filmando até ao fim”. “É essa beleza do leão lutando para sobreviver, esse amor pela vida, pelo cinema que eu queria registar. Esse homem, esse pensador”, explica sobre o filme.

Bárbara fez um filme “próximo, sobre despedida”. Tudo de acordo com a sua vontade. “O que você quer fazer?”, perguntava-lhe. Tiveram várias ideias, mas a certa altura Hector deixou de dizer o que queria fazer e simplesmente mandava ligar a câmara e o som. “Depois mostrei para ele um filme de Wim Wenders, Nick’s Movie – Um acto de amor [1980], um filme lindo sobre um amigo de Wenders que está a morrer e quer fazer um último filme”.

Em Veneza compararam o documentário à obra de Wenders. Foi nele que Bárbara se inspirou, mas o realizador nascido na Argentina era “muito bravo”, não queria muita gente em redor. A certa altura, a equipa de filmagens ficou fora de casa e é apenas Bárbara e Hector. Mas o realizador foi efabulando a morte, imaginando o que escreveriam nos seus obituários. “Ficou mais no livro, mas mostra muito o humor dele. Brincou e driblou a morte, então foi inventado e criando o que iria acontecer. Isso era o Hector e muito pouca gente conhecia esse humor dele”, nota.

No filme o realizador nunca morre. Está em todos os lugares, “porque é assim que ele queria perpetuar a sua memória”. Acaba por ser a sua lembrança, um inconsciente dele. “Você no documentário vai vendo ele ir, então a voz dele tem uma força grande. Você escuta, você vê a pessoa. O filme tem um lirismo que encontra na escrita o seu todo. Aqui tem um complemento de tudo”, observa a autora. É um retrato, um objecto visual com uma fotografia a preto e branco, pois Babenco dizia que a sua memória era a preto e branco, ainda que nunca tenha feito nenhum filme assim.

"O meu poema para ele"

O documentário tem passagem confirmada por Portugal no FESTin – Festival de Cinema Itinerante, em Abril de 2020. Chegaram também alguns convites para circuitos de festivais, mas ainda não foram confirmadas nenhumas datas.

Mr Babenco – Solilóquio a dois sem um, livro que a actriz brasileira apresentou em Outubro no festival de literatura Fólio, em Óbidos, é a outra metade do puzzle que permite compreender a verdadeira dimensão do realizador de Pixote (1980), Beijo da Mulher Aranha (1985) e Carandiru (2003). A princípio era para ser apenas um livro com poemas que Babenco guardava desde a adolescência. “Ninguém conhecia, era uma coisa meio escondida. Primeiro veio-lhe a palavra, depois a sala escura. E estas duas coisas eram um refúgio na vida dele”, conta.

O livro que será editado em Portugal e já pode ser comprado na Livraria da Travessa, em Lisboa, acaba por reunir transcrições integrais de conversas que foram acontecendo ao longo dos anos entre os dois. É um complemento ao filme, tornando Babenco numa obra de arte, classifica a realizadora. “É um depoimento em forma de conversa”.

“Este é o meu poema para ele. Era uma promessa que eu fiz para ele de terminar este filme que começámos juntos. Esse livro é uma despedida a querer deixar ele vivo”. Bárbara apresentou o livro na Flip de Paraty no dia em que se assinalavam três anos sobre a morte do marido. Foi também aí que descobriu que tinha sido seleccionada para Veneza. “Aí me deu vontade de falar com ele e dizer nossa, mas você vê que não tem a pessoa e é esse o vazio que dá”.

No fundo, reconhece, o que é mostrado ao público é uma história de amor e de como esse encontro com o realizador argentino modificou a sua vida. “Acho que o filme tem muito disso”. É uma história de amor que passa pelo cinema, pela literatura e pela poesia. “O mundo está precisando de mais amor. Este é um trabalho sobre a relação com a vida, comigo e com o cinema. Mas a base de tudo é o amor, então tocou as pessoas. Você não conhece Hector mas vai acabar ficando íntimo dele no filme. A minha loucura não estava errada”, conclui.

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