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Bazarov: uma editora independente que quer ser deixada como herança

A Bazarov nasceu com fim à vista. Ricardo Costa conta que criou esta editora independente só para a deixar de herança ao filho.

Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Livros, Editora Independente, Bazarov
©DR
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Chama-se Bazarov, como a personagem de Pais e Filhos, de Ivan Turgueniev. E, se por um lado, é uma provocação ao sector editorial; por outro, é tão-só um presente. “Não tem qualquer ambição comercial e não vai durar muito tempo. Mas gostaria que o meu filho, que ainda é pequeno, um dia também retirasse prazer e inquietação da leitura. E que, quando quiser saber quem era o pai, o possa descobrir a partir dos livros que o pai gostava de ler”, diz Ricardo Costa. Este editor circunstancial propõe-se a fazer pouco mais do que publicar “coisas interessantíssimas”, textos que ainda não tinham sido traduzidos para português. Isso, e pagar acima da média a quem com ele trabalha: tradutores, revisores, designers...

Lançada em contra-corrente, no Verão de 2020, a editora foi uma ideia que veio e se foi várias vezes. Natural de Arrifana, em Santa Maria da Feira, Ricardo Costa está emigrado em Londres, mas visita Portugal com frequência. E sentia-se desiludido: salvo um número cada vez mais pequeno de projectos, quase todos independentes, dignos de admiração e até de inveja, publica-se muito mas com pouca qualidade. “Obviamente, os gostos não se discutem. Mas devia publicar-se mais literatura... não queria chamar-lhe erudita de forma alguma, nem literária, porque são tudo letras, mas livros mais de acordo com um gosto específico de pessoas como eu”, afirma. “Do ponto de vista financeiro, se calhar pensa-se ‘meu deus, isto é suicídio’. Mas é possível fazer, se houver bom gosto e dedicação.”

Em edições minimalistas, os livros da Bazarov começaram a ser publicados em Setembro do ano passado. Os preços variam entre 14,50€ e 23€. Foram 14 em menos de um ano, com capas pretas para ficção e brancas para ensaio. A ideia é cortar o ruído e dar primazia ao texto. Não há desenhos ou fotografias, só “os nervos da mensagem que o autor queria passar”. O design é de Andrew Howard, que Ricardo conhecia enquanto responsável pela identidade visual da extinta Ahab Edições; e a coordenação editorial é da Oficina Caixa Alta, de Guilherme Pires e Madalena Caramona. “De todos os livros já publicados, o meu favorito é Uma Coisa Elementar, de Eliot Weinberger, que descobri numa livraria em Londres. Um norte-americado judeu, de Nova Iorque, que escreve não ficção, muito difícil de classificar. Quase como entradas da Wikipédia em esteróides. Cheio de erudição, cultura e conhecimento.”

Entusiasmado, Ricardo não resiste e recomenda também As Redacções de Fritz Kocher, de Robert Walser, um dos poucos escritores que a Bazarov publica a título póstumo. Leitor ávido, conta que, de momento, gosta de “tudo o que for ao osso”, mas já passou por muitas outras fases. Durante a adolescência, era obcecado por literatura clássica russa (está explicado o Bazarov). Daqui a um ou dois anos, não sabe, nem se importa. Transversal, só o interesse por ensaios. “É um exercício de estilo muito bonito, quase como pintar um quadro.” Podia ficar horas a falar sobre isso, avisa. E retoma, prontamente, ao que interessa. A Bazarov e o futuro que a espera, pelo menos a curto prazo.

Para adicionar ao catálogo, estão previstas mais sete obras, entre as quais se destacam Espólio Literário em Vida, de Robert Musil, e a muito premiada Temporada de Furacões, de Fernanda Melchor. “Depois desses não sei se me vão apetecer mais.” Na verdade, este editor nem perde o sono a pensar como medir o sucesso do investimento – fica feliz quando recebe uma mensagem de Gonçalo M. Tavares, que adora, dos seus livreiros preferidos (Duarte Pereira e Rosa Azevedo, da Snob, em Lisboa, e Arnaldo Vila Pouca e Cátia Monteiro, da Flâneur, no Porto) ou de um leitor satisfeito. E alegra-se a imaginar que, daqui a 30 anos, poderá encontrar um livro da Bazarov, já amarelado, num alfarrabista, em casa de um amigo ou na sua, onde tenciona guardá-los como garrafas de vinho, para os ver amadurecer. “Muito honestamente, quem me interessa que os leia é o meu filho. É um bocado egoísta da minha parte, mas é só isso que eu quero.”

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