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Bloco das Águas Livres
©Lourenço Teixeira de Abreu

Bloco das Águas Livres: modernista e agora digital

O Bloco das Águas Livres, edifício modernista considerado Monumento de Interesse Público, tem agora um site do condomínio.

Por Renata Lima Lobo
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A Direcção Geral do Património Cultural (DGPC) chama-lhe "obra ímpar no panorama da arquitectura habitacional contemporânea portuguesa”, mas dezenas de pessoas chamam-lhe casa. Uma casa que têm mantido com várias obras ao longo dos anos, um processo que nunca termina, numa das pérolas arquitectónicas da cidade, classificada como Monumento de Interesse Público em 2012. Em Dezembro, a administração do condomínio lançou um site do Bloco das Águas Livres, feito para todos, mas principalmente para quem aqui vive ou trabalha.

É o mais conhecido exemplo em Portugal da arquitectura inspirada nas obras de Le Corbusier (1887-1965), arquitecto francês de origem suíça que após a II Guerra Mundial criou as chamadas Unités d'Habitation, edifícios de grande escala que promoviam um novo estilo de vida, por sua vez promovido por um também novo estilo de arquitectura que englobava espaço para serviços, convívio e lazer, promovendo a criação de uma pequena comunidade independente. Seguiam os princípios da "cidade radiosa" – uma utopia de Le Corbusier que inspirou em 1933 o manifesto Carta de Atenas.

O protótipo desta ideia, ainda hoje existente, é a Unidade de Habitação de Marselha, construída entre 1946-1952, onde moram mais de mil pessoas e que pode conhecer melhor no site oficial criado pela associação de moradores do edifício. Pode fazer o mesmo com outras cidades radiosas espalhadas um pouco por todo o mundo, como o famoso Barbican, inaugurado em 1982 em Londres; ou o alfacinha Bloco das Águas Livres, que em Dezembro passado ganhou morada online. Um canal de comunicação para os moradores, mas também uma casa que vai sendo recheada com informações, e quem sabe eventos, sobre este edifício único na cidade.

Bloco das Águas Livres
©Manuel V Botelho WikipediaO Bloco das Águas Livres em 2012


Modernidade rima com comunidade

Em 1953, foi inaugurado este projecto dos arquitectos Nuno Teotónio Pereira e Bartolomeu da Costa Cabral, encomendado pela então proprietária Companhia de Seguros Fidelidade e parte integrante do plano municipal de urbanização da zona da Praça das Águas Livres. Seguindo os princípios do Movimento Moderno e olhando em particular para os da Unidade de Habitação de Marselha, os arquitectos portugueses criaram um grande bloco de habitações, embora numa escala mais pequena, com apartamentos, escritórios, lavandarias comuns, garagens, salão de festas e também jardins desenhados pelo arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles. Caldeiras para a distribuição de água quente, recolha de lixo através de condutas verticais e um monta-cargas constituíam algumas das novidades utilitárias de um novo conceito de arquitectura. Mas também havia espaço para a expressão artística e ainda hoje se encontram, nas zonas comuns, painéis de mosaico vidrado de Almada Negreiros, baixos-relevos de Jorge Vieira e um painel de betão esgrafitado de José Escada. Um vitral de Manuel Cargaleiro, localizado no terraço, foi-se embora com a Companhia de Seguros Fidelidade, que no início do século vendeu o edifício aos moradores, que então se organizaram como associação para exercer o seu direito de preferência (excepto um apartamento e duas lojas que continuam a pertencer à associação). Histórias que nos contam os moradores, neste caso António e Carmo, membros da administração do condomínio que se quer lançar para o século XXI.

Digitalizar o prédio

“Eu já estava com esta ideia há algum tempo. Porque tenho uma amiga que vive nos arredores de Paris e também num bloco do arquitecto [Le Corbusier], que não é exactamente isto, mas é o mesmo estilo. Eles tinham organizado precisamente um site para facilitar a comunicação e digitalizar o prédio, que para nós seria o indicado. Depois andei à procura e encontrei o Barbican em Londres, um complexo brutal com sala de espectáculos que também tem uma associação e um site organizado. Foi um bocadinho onde nos quisemos basear”, explica Carmo, a grande mentora do novo site que, sublinha, é primeiro um canal de comunicação para os condóminos, que têm acesso a uma área reservada. É aí que encontram todas as informações de que precisam, dos documentos das assembleias a regras sobre a recolha de lixo e, futuramente, a inclusão de fichas de inscrição para as festas do salão na cobertura do edifício. Mas há mais: no site do Bloco das Águas Livres qualquer pessoa pode aceder a informação histórica sobre o complexo, à biografia dos arquitectos e a uma bonita colecção de fotografias. “Pedimos ao Daniel Malhão e a um jovem fotógrafo, o Lourenço Teixeira de Abreu, ambos fotógrafos de arquitectura, para virem tirar umas fotografias”, descreve Carmo, que, com a ajuda de um PowerPoint, ajudou um designer a construir o site e já sonha com outro tipo de iniciativas.

Bloco das Águas Livres
©Lourenço Teixeira de Abreu


O edifício é muito visitado por alunos de arquitectura, em visitas de estudo promovidas pelos professores, e a cobertura é regularmente alugada para filmagens de anúncios, televisão e cinema. Mas pensam em abrir o prédio para visitas guiadas em jeito de Open House (que o ano passado incluiu no roteiro um dos ateliês do Bloco). António conta que antes da pandemia organizaram aqui uma conferência sobre a relação do edifício com o Aqueduto das Águas Livres e, nessa altura, chegaram a aceitar inscrições para visitas. Uma ideia que ficou em banho-maria a aguardar por tempos mais seguros. Outras ideias passam pela criação de links para as inúmeras peças jornalísticas que já foram feitas sobre o Bloco ou ganhar uma área de Bibliografia, por haver muitas coisas escritas sobre esta obra.

Bloco das Águas Livres
©Time Out


O arquitecto Bartolomeu

O edifício encontra-se em bom estado de conservação e os trabalhos nunca se dão por terminados. As últimas obras de pintura de uma das fachadas terminaram em Outubro passado e estiveram sob escrutínio do arquitecto Bartolomeu da Costa Cabral, hoje com 91 anos, que nunca deixou de acompanhar todos os trabalhos de manutenção. António conta uma história engraçada sobre a escolha de um dos tons. “As cores foram todas escolhidas com provas dos vários tons. Estávamos com muitas dúvidas, depois lá chegámos a acordo. Aqui [nas grelhas junto às galerias, corredores comunitários com acesso aos estendais da roupa], a cor tinha de ser um bege e o arquitecto estava com um casaco bege e dissemos: ‘Sr. arquitecto, a cor do seu casaco é a cor ideal’ – e então foi isso que ficou decidido.” Na página oficial do Instagram até pode ver a fotografia que tiraram ao arquitecto para “mandar fazer uma amostra” de cor.

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