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Cabra Cega: fine dining descontraído, ao balcão do novo restaurante do Restelo

Zé Costa e Tiago Brito partilham técnica e rigor, mas também todas as histórias (e sabores) que foram coleccionando pelo mundo.

Andreia Costa
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Andreia Costa
Cabra Cega
Joana Freitas | Zé Costa e Tiago Brito, os chefs do Cabra Cega
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Primeiro chegou um vídeo. Depois, uma mensagem atrás da outra: “Preciso que acordes agora”, pedia Zé Costa a Tiago Brito. O primeiro estava em Lisboa; o segundo, na Austrália – e só responderia à ânsia do amigo horas mais tarde devido à diferença horária. A pressa devia-se ao facto de Zé ter encontrado aquele que considerou ser o lugar perfeito para concretizar o sonho que os dois tinham há muito tempo: abrir um restaurante.

“O Zé disse-me: ‘Está na hora, já chega de viajar’”, recorda Tiago à Time Out. Sem qualquer resistência, em Outubro de 2025 fez as malas para regressar a Portugal. Seguiram-se longos meses (mais do que esperavam) de obras. Um amigo arquitecto fez o projecto de renovação e eles, para verem as coisas a acontecer (e para pouparem no orçamento), puseram as mãos na massa. Fizeram tudo, desde partir paredes a trocar tubos de canalização, passando por mudar cabos de electricidade e visitar lojas de decoração para escolher candeeiros e espelhos. As portas do Cabra Cega abriram em Maio com o objectivo de ser um espaço onde os dois chefs podem ser criativos e partilhar as respectivas identidades com os clientes, cozinhando à vista de todos. “Servir pessoas é algo que nos deixa muito satisfeitos”, diz Zé.  

Para já, aqui só se servem jantares – mas há duas experiências à escolha. O menu pé de cabra (50€) – uma referência à ferramenta que mais usaram durante as obras – divide-se em sete momentos e é uma espécie de introdução ao mundo de ambos, repleto de viagens e sabores diferentes. O menu cabra cega (70€) tem todos os pratos do menu anterior e mais três sugestões (uma entrada, um prato principal e uma sobremesa). A ideia é que as pessoas cheguem às cegas (a referência também está no nome): confiar nos chefs faz parte da experiência. Também por isso, não vamos revelar tudo o que provámos (e foi muita coisa), mas deixamos o suficiente para criar água na boca. 

Cabra Cega
Joana FreitasCabra Cega

Tiago passou a última década a viajar por Espanha, pela América Latina e pela Austrália, enquanto Zé nasceu no Brasil e nos últimos dois anos antes de se instalar em Portugal trabalhou em Miami (EUA). Os pratos do Cabra Cega inspiram-se nessas culturas e costumes. Ainda assim, o ponto de partida é Portugal e, por isso, a refeição começa com um creme de azeitonas verdes que se faz acompanhar por tremoços que são descascados, queimados e demolhados em cerveja durante duas semanas. Por fim, uma espuma transporta-nos para os sabores da beira-mar. Não é preciso comer tudo de uma vez — se ficarem na mesa, combinam perfeitamente com qualquer um dos pratos que se seguem.

Nas entradas há um prato que tem como estrela a beterraba, um ingrediente mal amado cuja percepção os chefs querem mudar. Uma espuma de cor intensa esconde, no meio, uma ostra do Sado e, no topo, está uma folha de ostra, que cresce nas praias. Parece uma folha, é uma folha, mas sabe a mar. 

Cabra Cega
Joana FreitasA surpreendente entrada de beterraba do Cabra Cega

O pão, um brioche de cenoura assada com manteiga de laranja e mel, não chega no início para evitar que os estômagos fiquem logo cheios, mas sim agora — apresenta-se morno e fofo e é muito difícil resistir-lhe. 

Do oceano chega um prato inspirado nos corais havaianos. Tem corvina cozinhada a vapor em cima de alga kombu e rabanetes (tradicional e de melancia), além de uma farofa que representa a areia da praia. É de avelã, com katsuobushi, cardamomo e malagueta. Tudo é acompanhado por molho de manteiga, alho francês e óleo de ervilha, além de algas, como uva do mar e chorão do mar. É um prato ligeiramente picante, mas muito fresco.

Dois portugueses em Marbella

Tiago, de 30 anos, e Zé, de 29, conheceram-se na cidade espanhola de Marbella, onde estavam a estudar hotelaria. O curso tinha apenas um semestre ligado à cozinha, mas a partir do momento em que os dois colegas transformados em amigos começaram a viver juntos, a casa de ambos passou a ser o ponto de encontro para jantaradas. Zé quis estudar hotelaria porque é a área do pai mas, na verdade, "até aos 17 anos não sabia fritar um ovo”. Porém, assim que experimentou cozinhar, algo nele despertou e o curso acabou por levá-lo a um estágio no Il Palagio (em Florença, Itália), restaurante com uma estrela Michelin. A experiência foi horrível, mas ele adorou. “Foi uma loucura, as pessoas tratavam-me mal, diziam-me que eu nunca seria um cozinheiro, mas isso foi a força que me guiou.”

Após quatro anos de curso, cada um foi à sua vida, mas durante a pandemia, Zé desafiou o amigo para irem até San Sebastián (Espanha) fazer um curso de cozinha. Se até ali Tiago tinha experimentado várias áreas (incluindo de bar e sala), nesse momento percebeu que era na cozinha que se sentia bem. Seguiu-se uma viagem pela América Latina e, no regresso a Portugal, foi parar ao Fogo, restaurante de Alexandre Silva, onde descobriu tudo o que era possível fazer, precisamente, com o fogo. Rumou depois a Sidney (Austrália), onde esteve no Firedoor, novamente a trabalhar com o fogo.

Cabra Cega
Joana FreitasAlgo da terra, tâmaras e pastinaca, Cabra Cega

É essa a sua especialidade – e está presente em inúmeros momentos do Cabra Cega, explica enquanto vai acrescentando carvão à grelha. É de lá que sai “algo da terra, tâmaras e pastinaca”, a definição que está no menu, alimentando propositadamente o mistério. É uma tira de bife black angus que não precisa mais do que uns segundos na chapa, conservando o sabor, os sucos e a suculência. A acompanhar estão puré de pastinaca e dois molhos, um de fermentação de tâmaras e um demi glace, uma redução de ossos de vaca com alho negro. Para terminar, uma couve italiana com vinagrete de anchovas e malagueta, que é ligeiramente tostada confere ainda mais um elemento ao prato, crocância.

A refeição faz-se de comida, mas também de conversa, um dos desejos que ambos manifestavam sempre que falavam do restaurante que um dia abririam juntos. “O Cabra Cega é um fine dining, a nossa comida é bastante séria, as nossas técnicas são sérias, mas a nossa maneira de servir é descontraída”, assegura Zé.

"Cabra cega, de onde vens?"

Demoraram meses a chegar ao nome certo, mas quando a expressão “cabra cega” veio à baila, tudo o resto deixou de fazer sentido. “Gostamos de brincar com as pessoas e com os sabores e isto remete-nos para o jogo da infância. E é um jogo que não jogas sozinho, tens os teus amigos e crias memórias. Também remete para a ideia de místico e de estar às escuras — nós gostamos de surpreender e queremos que as pessoas não tenham medo de experimentar às cegas”, diz Zé. 

O nome fica na cabeça, mas já gerou algumas confusões. “Já ligaram para cá a perguntar se fazemos massagens ou se isto é um restaurante mais privado. É que mesmo ao nosso lado há uma sex shop e às vezes as pessoas acham que estão relacionados”, conta Zé. 

Cabra Cega
Joana FreitasO balcão em U do Cabra Cega tem a melhor vista
Cabra Cega
Joana FreitasNo Cabra Cega também há uma mesa para grupos e outras que se podem juntar

As últimas obras do espaço aconteceram em 1979 e a fachada verde com um formato oval revivalista foi um detalhe que ambos quiseram manter. Lá dentro foi preciso mudar quase tudo, incluindo a cozinha que passou a ser aberta e que tem agora um balcão em U, onde os lugares em bancos altos têm a melhor vista do restaurante, directamente para os tachos e as mãos dos chefs. À entrada do restaurante está uma mesa grande, ideal para um grupo, transformada de um único tronco. Outro deu origem às mesas de quatro lugares que se seguem na parede da esquerda. Se for preciso juntá-las, encaixam-se como se fosse um puzzle. 

O espaço é sóbrio, com cadeiras de madeira e tecido cinzento. Nas paredes da cozinha e do balcão há azulejos verdes escuros e uma pequena vitrine onde reluzem facas Shāpu (marca de Zé Costa dedicada a facas japonesas), mas é na parede por cima do acesso à casa de banho que a história se torna mais pessoal. As prateleiras estão repletas de memórias: garrafas, livros, potes de gengibre e limão fermentados e até uma prancha de skate que Zé trouxe do restaurante onde trabalhou em São Francisco assinada por toda a equipa.  

Na porta interior da casa de banho, a lenga lenga da cabra cega está ligeiramente adaptada e reza assim: “Caba cega, de onde vens? De onde ninguém vê. O que trazes? O melhor que já provaste. Dás-me um bocadinho? Não, tu mereces o prato todo!”

Cabra Cega
Joana FreitasSim, isto é uma sobremesa do Cabra Cega

Há por lá outro segredo escondido, mas esse já não podemos revelar onde está (só podemos dizer que é doce). E, por falar nisso, não terminamos o jogo sem as sobremesas. Uma delas saiu de um sonho. “Sonhei com ele [o prato], fi-lo e ganhei um prémio em Miami”, explica Zé — é, por isso, o único que não é inédito do Cabra Cega. Tem couve lombarda cristalizada, gelado de cogumelos shitake e chocolate branco caramelizado. Ou se adora, ou se odeia, mas se estivermos receptivos, a junção dos sabores faz sentido. 

A carta de vinhos “não foi feita por sommeliers. Foi feita por quem cozinha e por quem bebe”. O aviso está lá e revela mais uma vez que, apesar de o ambiente e de os pratos serem meticulosamente cuidados, a experiência deve ser descontraída. Há vinho a copo a partir de 9€ (Casa Canhotos Alvarinho nos brancos e Hugo Mendes nos tintos) e garrafas que começam nos 28€. Há sake (11€), infusões (7,50€) e as bebidas mais comuns. No final de tudo ainda tem de haver espaço para uma bolacha acabada de sair do forno, com chocolates branco, de leite e negro — e não, não vai conseguir levá-la para comer depois, porque o aroma produz uma espécie de hipnose.

Cabra Cega
Joana FreitasZé Costa e Tiago Brito quiseram manter a fachada original do edifício do Cabra Cega

Depois de tantas experiências pelo mundo, Zé e Tiago sempre souberam que o ponto onde voltariam a encontrar-se seria Lisboa. Por sorte, foi o Restelo, a zona onde Zé cresceu. Numa das pesquisas rotineiras que fazia online só “para sonhar” descobriu este espaço, a cinco minutos de onde mora agora. Assim que entrou, soube que era perfeito. “Perguntam-me muito porque quis voltar, mas eu sempre tive claro que este é o sítio onde quero estar”, garante Zé. Tiago concorda: “Sinto que não poderia ter aprendido o que sei se não tivesse passado pela Argentina ou pela Austrália, mas não era algo a longo prazo. Só aqui podemos ser realmente nós.”

Avenida Dom Vasco da Gama, 42B (Restelo). 918 300 450. Ter-Qui 19.00-00.00, Sex-Sáb 19.00-02.00

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