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Lisboa
Fotografia: Liam McKay/ Unsplash

Carta de Amor a Lisboa: Luís Naves

Desafiámos alfacinhas com jeito para as palavras a escrever a Lisboa, a cidade do nosso coração.

Por Editores da Time Out Lisboa
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Impressões de Lisboa

Em carta dedicada a Lisboa, nas Prosas Bárbaras, Eça de Queiroz falava de uma cidade preguiçosa e triste à noite, que servia para enterrar ideias. A beleza da capital vinha com o esplendor do dia, mas o problema era a vida lenta e a resignação de não ter uma alma verdadeiramente criadora. Olhamos hoje para essa tua face antiga através do grão espesso de velhas fotografias e mal te reconhecemos nas camadas do tempo que se acumularam. Ainda tens o mesmo extenso labirinto de ruas estreitas, o mesmo rendilhado fino de uma colcha de casas a roçar o contorno meigo das colinas, a mesma frescura da brisa ao fim da tarde, quando reaparece aquela luz cansada que transforma a tua pele em ouro. E, no entanto, já não é bem o fado aquilo que cantas, a tua tristeza ficou menos fatalista. Agora, tens um toque de modernice, às vezes exagerado, e sonhas em pertencer à família das «grandes cidades paradas nos cafés», como Álvaro de Campos percebeu na Ode Triunfal. Desejas o tumulto disciplinado das multidões e da gente que passa. Queres ser europeia, ter alma renovada e limpa, de maneira a que ninguém possa dizer que nada crias. No fundo, contraditória, continuas a ter a mesma sensual disposição, a bocejar de tédio, sempre contemplativa, deitada à beira de um rio manso. Serena Lisboa, sabes que tens muito tempo, não tenhas pressa, resiste um pouco mais à tua época e não percas a tranquilidade dos momentos saboreados, a graça das pequenas coisas belas, a risonha melancolia que te faz ser única entre as cidades. Não vá a beleza em excesso fazer-te demasiado vaidosa ou, pior, a tornar-te igual às outras.

- Luís Naves, Escritor

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