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“Chega de pastéis de nata”: a música de Branko é o som da nova Lisboa

Branko
©Maria Rita Branko

A música mudou, a cidade mudou, mas o "som de Lisboa" veio para ficar. Branko regressa aos discos a 1 de Março e nós fomos saber o que esperar de Nosso.

Não há poemas. Não há recados de amor eterno nem entrelinhas povoadas de existencialismo. Mas no segundo disco de Branko, Nosso, há algo que incendeia o corpo a cada batida: é o som da nova Lisboa, uma identidade musical colectiva que se vem construindo de dentro para fora há quase década e meia, sem grilhões nem género definido. Na música de João Barbosa, o produtor que ficámos todos a conhecer com os Buraka Som Sistema, não há lugar para chavões. “Chega de imagens da Ponte 25 de Abril ou de pastéis de nata para vender a cidade”.

Quatro anos depois de Atlas, este é o “primeiro disco verdadeiramente pós-Buraka” e Branko continua a adensar a contribuição para aquilo em que sempre acreditou. “Quando dizem o ‘som da Enchufada’, o ‘som de Lisboa’, a meu ver, é uma coisa que se anda a desenvolver há 12, 13 anos e que já cresceu. Quero que o trabalho que está a ser feito participe nisso”. Branko chamou para participar no disco, e dar diversidade ao seu som, nomes como Mallu Magalhães, Sango, Dino D’Santiago ou Pierre Kwanders. O título, Nosso, bebe precisamente do lugar de partilha: “é um disco que não é só meu, é de várias pessoas, é nosso”. “Para além disso, há uma expressão de que eu gosto que é o ‘nosso som’”.

A urgência na criação foi a premissa que o levou novamente ao estúdio. E assim prossegue a viagem, na intenção de trazer força a este conceito, transformando um paradigma que há muito ele tocou. “Quero uma evolução deste trajecto da música que fala em português e da ideia de poder haver no mundo um contingente de música portuguesa tão forte como a música latina.” Os Buraka Som Sistema foram o catalisador, foi com o colectivo electrónico que Branko bordou a sonoridade de uma Lisboa em profunda mudança.

Contudo, diz que a palavra transição não deve ser usada para definir o percurso que fez entre o grupo que partilhava com Riot e Conductor, e o seu trabalho a solo. Isto porque as incursões na produção em nome indivual sempre tiveram lugar – dos heterónimos J-Wow a Lil’ John –, convivendo numa carreira musical ininterrupta. “Buraka era um grupo e eu era um produtor que fazia parte dele, mas enquanto produtor sempre tive o meu trajecto paralelo. Com o passar do tempo, a parte do eu como artista – que ficou menos evidente durante os Buraka – começou a ter mais ambição de fazer música, de ter a sua voz”.

Hoje, o espaço cimentou-se e, no rescaldo do abalo, ficaram as mudanças. As sonoridades que se cruzam na cidade já não são subúrbio, como os Buraka o eram, a estranheza deu lugar a uma outra formulação, a de que tudo faz parte do todo. “Estão a acontecer várias coisas e, daquilo que está à minha volta, o que eu vejo é uma contaminação supersaudável da música criada em Lisboa por todas as influências de países que aqui se juntam”. Mas as alterações trazidas no som acabaram também a desaguar na forma como o percebemos. “Uma das coisas que acabou por acontecer foi eu ter ficado com a ideia de que existe cada vez mais música electrónica além daquela que é consumida entre as 2.00 e as 6.00 com um copo de vodka laranja na mão”, atira.

Para o músico, há uma questão sócio-cultural que afecta este tipo de som, que não é devidamente representado nos meios de comunicação, “da mesma forma que a música electrónica das 2.00 às 6.00 não era falada. Este tipo de música acontece, só. E uma das maiores mudanças de paradigma na minha vida foi começar a ter bookings já tarde e dizer-lhes ‘eu não quero tocar às quatro da manhã, quero tocar às dez, às onze, à meia noite.’”

“Não quero tocar para pessoas bêbedas”, recomeça, “quero fazê-lo para pessoas que ainda consigam perceber a viagem que estou a fazer em termos de coordenadas musicais”. Talvez seja essa a razão pela qual Branko nos transporta a um universo de estímulos visuais nas actuações ao vivo. Como um cicerone, por entre as batidas e snares, longe da indiferença que a crueza do som na madrugada lhe podia trazer. “No fundo, é essa a maior diferença de postura relativamente ao meu trabalho nos últimos anos, e isso está no disco. Acho importante a música começar a ser digerida de outra forma.”

É por isto que a electrónica o continua a entusiasmar, a mesma que, em miúdo, lhe estremeceu o corpo, muito além daquilo que o primeiro disco de Goldie ou as compilações de Jungle haviam feito. É por isto que Lisboa faz sentido. “Essa ideia de progresso, inovação, de encontrar coisas que estavam lá e que não são celebradas da forma certa”. O que o motiva é “a mistura, a procura de outros ícones para a cidade, e para o que ando a fazer, para a música que faço e para a cultura que celebramos juntos”. 

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