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Banana Being
Sara Rafael

Com bananas, esta performance descasca obsessões

Depois dos talheres e da cera, Matthieu Ehrlacher encerra com ‘Banana Being’ a trilogia de performances em que junta um material à pele.

Escrito por
Joana Moreira
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Escorregar numa casca da banana é o princípio (e, muitas vezes, o fim) de momentos de humor físico. Matthieu Ehrlacher, 38 anos, tropeçou no fruto durante o programa de estudo, pesquisa e criação coreográfica do Fórum Dança, entre 2010 e 2012. O artista, que cresceu em França, mas vive em Portugal, prepara-se para cobrir todo o corpo de cachos de banana, sem elementos cómicos à mistura. De quinta-feira, 26, a sábado, 28, apresenta-se na Rua das Gaivotas 6, espaço gerido pelo Teatro Praga, em Lisboa, com Banana Being, espectáculo em que retoma a relação excessiva ou obsessiva do corpo com materiais específicos. 

Começou com À mesa há uma acumulação de emoções agarradas por um quotidiano de talheres (2015), o primeiro trabalho desta trilogia, em que Ehrlacher explorou o contacto da pele desnuda com os “objectos duros, frios, deformados, alinhados e brilhantes”. Com Cocoon (2017) foi um corpo à procura de liberdade, cobrindo-se de cera de velas para atingir o estado de casulo, com os movimentos condicionados pelo material cor-de-rosa e cinemático. “Vejo muito cinema, tenho uma ligação muito visual e plástica natural. Não estudei artes plásticas, mas tenho uma relação forte com o objecto, começo a entrar num imaginário qualquer que se transforma em imagens”, diz agora, compondo uma lista de inspirações cromáticas e sensoriais: “o metal, a cor amarela da banana, a cor da cera, o rosa, que não é bem carne, o brilho, o baço, a textura, a matéria”. 

Apesar de espaçadas no tempo, todas as obras foram pensadas em simultâneo. “Surgiram numa fase em que estava num pensamento de lógica de corpo sofredor, de segunda camada de corpo, de necessidade de libertação a vários níveis, e de trabalhar com material. Tive um fascínio pelos talheres, pela cera das velas, e um fascínio pelas bananas”. A inesquecível saia de Josephine Baker, bailarina, cantora, actriz e activista dos direitos humanos nos loucos anos 20 parisienses, foi o ponto de partida. 

E se Baker já exsudava sexualidade, a performance que Matthieu leva à Rua das Gaivotas 6 aproxima-se também desse universo – o espectáculo é, aliás, indicado para maiores de 18 anos. Num primeiro momento, que o artista compara a “um prólogo”, o público testemunha a preparação e instalação do ser Banana Being, com a ajuda e domínio de uma artista de shibari (prática que consiste em amarrar o corpo com cordas para efeitos de prazer). “Há um corpo sacrificado, que é o meu. Que vai ao chão para serem colocadas bananas. Estou com as cordas shibari e as bananas são colocadas na parte frontal do meu corpo”, conta. 40 quilos de bananas que Matthieu carregará durante as quase duas horas de performance. Só que o peso e a dor não são absolutamente performativas. 

“Gosto da sensação de não estar a ser actor, estou quase a ser condicionado por algo que não tenho de me esforçar, de representar, para sentir. Aquilo está mesmo a acontecer. Claro que sei que há público, mas as condicionantes estão mesmo a acontecer, de dor, de ter de aguentar. A exigência de performer agrada-me muito. Leva-me a sítios a que eu se calhar não iria sem esta matéria ou com esta aproximação”, diz. “A dor é uma mistura de prazer e eu trabalho nesses dois lados também”. O público aflito só respirará de alívio mais tarde, num segundo momento, quando, retiradas as cordas, a figura monstruosa se expande e se destrói. A leveza foi conquistada. E a liberdade? “Em todas as três peças da trilogia há uma libertação, mas acaba por nunca ser total. Quando nos libertamos achamos que é total, mas há sempre qualquer coisa que nos faz não libertar totalmente. Há sempre alguma coisa dentro da sociedade que nos puxa, que nos aprisiona.”

Entre a luz e a sombra – o desenho de luz é de Tiago Gandra – instala-se o DJ, o bartender aparece e os cocktails circulam pelo espaço. Tudo à base de bananas. O público é convidado, nesse último momento, a juntar-se à festa. “Em cena estarão todos os restos do meu corpo, do corpo do Banana Being, e essa é a terceira parte. É o convite do público na celebração em que irá beber o corpo desta forma”, diz Matthieu, que, não sendo religioso, crê que “quer queira quer não a religião católica está muito presente”. “Senti que as imagens me estavam a levar para estas conexões, umas mais óbvias outras menos óbvias, de simbolismo, de um corpo sofredor, de beber o corpo de Cristo. As bananas que vieram para cá só por capricho, a relação tabu sexual que está escondida através de uma segunda camada, a sensação de haver uma prisão e de nos querermos libertar do catolicismo, que de certa forma aprisiona necessidades”, divaga. E lança: “Onde é que andamos nós, na sociedade actual, presos?”

Rua das Gaivotas 6. Qui-Sáb 20.00. 8€.

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