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Dino Alves - Hospital da Roupa
Dino Alves

Dino Alves resgata peças guardadas no baú e interna-as no Hospital da Roupa

O projecto não é novo, mas o designer de moda decidiu dar-lhe agora outra atenção. O serviço está disponível no seu ateliê.

Por
Francisca Dias Real
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Não é novo, mas nunca foi tão actual. Nunca foi tão necessário. Para o criador de moda Dino Alves há muito que é urgente olhar para o ambiente e para o impacto que as nossas escolhas de modelitos podem ter nele. Há 20 anos fez nascer o Hospital da Roupa, e hoje quer voltar a acordá-lo com o intuito de transformar peças antigas e desactualizadas em novas peças – em peças de autor.

É no seu ateliê, em Lisboa, que recebe estas emergências têxteis, que não são arranjos simples que uma costureira resolveria. A ideia deste hospital é prolongar a vida da roupa recuperando peças antigas e fazendo delas uma nova criação, mas com mão de designer. É, no fundo, uma reciclagem, também conhecida como upcycing. A peça que entra não será a mesma que sai, porque sai transformada em algo que o cliente só saberá quando for recolher – sai com a etiqueta SOS (Serviços Operação Surpresa). 

Quando há quase vinte anos lançou o serviço Hospital da Roupa a surpresa foi muita, havia um factor novidade grande, mesmo no meio da moda. “Hoje em dia o upcycling está na ordem do dia, assim como a personalização, e o valor que se dá agora é um valor de consciência ambiental que eu já na altura tinha”, conta. “Agora quis dar-lhe um novo impulso. Tinha umas peças ali de uns clientes e voltou o entusiasmo de as transformar, serviu também para perceber que isto sempre fez sentido, mas agora mais ainda.”

O serviço existe como um complemento a tudo o que Dino Alves faz no seu ateliê, das encomendas privadas aos figurinos e, claro, às colecções que apresenta sazonalmente na ModaLisboa. Todos os trabalhos se sobrepunham e o Hospital ia sendo esquecido. Mas foi precisamente assim que o designer começou a fazer moda – a transformar o que já existia. 

Dino Alves - Hospital da Roupa
Dino Alves

“Eu comecei por agarrar em peças que já existiam e acrescentava coisas e juntava tecidos, e os meus desfiles do início eram assim – comecei a interessar-me por moda e por roupa desta maneira”, recorda. “Fazia estas transformações a peças minhas e dos meus amigos, e até foram eles que impulsionaram o projecto, que passou a ter uma dimensão mais pública, que passou a ser um apêndice do ateliê.” 

Dino Alves conta que ia à Feira da Ladra e comprava peças antigas e conseguia ver nelas aquilo em que se podiam transformar. Teve dificuldades até em “conquistar as pessoas”, que não percebiam onde o encaixar numa indústria ainda muito canonizada. “Desenhar não é com as mãos, é com a cabeça – e quando olho para uma peça e consigo ver o que ela pode ser, isso é ser designer.” 

A roupa, no fundo, tem uma vida longa e é quase sempre possível prolongá-la de alguma maneira – umas calças podem virar um vestido, uma camisa transforma-se em saia, um casaco passa a colete. “Ter uma peça de roupa que já não se usa, ou porque não serve, ou porque está estragada, ou porque tem nódoa, ou porque é uma peça especial que herdámos, são algumas das razões pelas quais as pessoas recorrem ao Hospital da Roupa”, diz. 

Quem tiver o armário recheado de peças que não usa ou algo especial a que queira dar uma nova vida, a intervenção cirúrgica começa aqui. O primeiro contacto é estabelecido por telefone ou por e-mail e depois é marcado um dia para o atendimento – que pode ser online – e para posterior internamento. É preenchida uma ficha que identifica a peça (ou peças) e o cliente não sabe em que é que se vai transformar o que deixou no ateliê. “Gosto de falar com as pessoas para as poder ler. O factor surpresa de todo o serviço é interessante, porque é um desafio grande para mim, mas também tenho de perceber como é a pessoa, para não errar”, descreve.

Dino Alves - Hospital da Roupa
©susana bento martinsUm dos últimos casacos que transformou, da cliente Susana Bento Martins, ficou completamente diferente do original.

Depois, o cliente recebe um orçamento e a magia começa. O orçamento tem uma margem de erro de 10€ para possíveis detalhes e materiais que não estão previstos de início. “O serviço não se prende com uma coisa direccionada para um baixo nível económico, não está relacionado com isso. Está sim relacionado com a mentalidade ambiental e como podemos ter roupa nova sem recorrer a produções em massa”, explica o criador. No fim do processo, o cliente é contactado para ser surpreendido com uma nova criação com a mão de Dino Alves. 

“Haverá sempre consumismo, claro, mas não deitar fora é realmente o futuro da moda. A pandemia ajudou-nos a pensar um bocadinho nesse sentido, em pensarmos no que compramos, em reaproveitarmos o que temos”, remata o criador.

www.dinoalves.eu 

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