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Orgia
Raquel Balsa

Em ‘Orgia’, o palco da Culturgest vira “altar sacrificial” de Pasolini

Beatriz Batarda e Albano Jerónimo chafurdam no universo soturno e violento de Pasolini. A ‘Orgia’ de Nuno M. Cardoso estreia-se esta quinta-feira na Culturgest.

Escrito por
Joana Moreira
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No ano em que se comemora o centenário do nascimento de Pier Paolo Pasolini (1922-1975), figura polémica da cultura italiana, a sua obra continua bem viva. Em Lisboa, há filmes para ver na Festa do Cinema Italiano e textos e material de arquivo para descobrir numa exposição na Sociedade Nacional de Belas Artes. Na Culturgest, de 7 a 9 de Abril, sobe a palco Orgia, tragédia sobre os impulsos obscuros do ser humano em que um casal habita um território enlameado que mistura violência, culpa e obsessão. 

“O Pasolini foi o primeiro a encenar esta peça. Ele escreveu-a e encenou-a imediatamente a seguir, em Turim. Ele traz uma cenografia um pouco mais realista”, diz Nuno M. Cardoso, encenador que há vários anos ambicionava trabalhar com o texto de Pasolini. Fá-lo agora recorrendo a um cenário que se afasta do realismo e se aproxima do campo poético, colocando Albano Jerónimo, Beatriz Batarda e Marina Leonardo perante um “altar sacrificial”, um palco coberto de argila fresca e cinzas onde os actores se misturam com a própria matéria – uma instalação da artista Ivana Sehic. “O que é que fica quando o corpo desaparece, o que fica quando o ser humano desaparece?”, teoriza o encenador após um pequeno ensaio. 

Orgia
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Durante uma hora e meia, Albano Jerónimo e Beatriz Batarda na lama lutam, sem fúria – ou assim sugere a velocidade contida dos movimentos – mas com um texto que fere. É o “delírio de um casal, uma orgia sangrenta de palavras”, lê-se na nota que acompanha o espectáculo. “É uma metáfora de muitas imagens”, afirma Nuno M. Cardoso, crente de que “os materiais são potenciadores da violência, da expressão física e da expressão da linguagem do corpo e da carne.” O encenador fugiu à leitura convencional de um casal em confronto, pois, a seu ver, “iria destruir muito as possibilidades mais amplas que o texto traz, fecharia a leitura”.

Do figurino negro à luz (de Rui Monteiro), tudo parece adensar o percurso nocturno até ao coração da peça de Pasolini, que, de acordo com o encenador português, se relaciona com o controverso filme Salò, ou Os 120 Dias de Sodoma (1975): “[Há] esta ideia do poder e da violência, e da violência sobre o indivíduo. Aquela violência da ascensão de um poder e da manutenção de um poder fascista é colossal. Aqui a relação violenta que este casal traz é uma relação violenta de expressão quase como se a sociedade os obrigasse a procurar uma terceira linguagem. Essa terceira linguagem passa pelo corpo deles e transforma-se em violência e na auto-destruição. Este confronto entre Eros e Thanatos que [Pasolini] coloca aqui é realmente uma premissa que depois no Saló ele traz, e possivelmente no que poderia fazer a seguir se não tivesse sido assassinado…”

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Uma efeméride ocasional

A peça presta homenagem a Pier Paolo Pasolini, mas não foi a ocasião do centenário a motivar Nuno M. Cardoso a encenar este texto. Este era, na verdade, um projecto continuamente adiado até que se encontrasse um alinhamento de disponibilidades da equipa com quem o criador “queria realmente fazer isto”. “Foi uma coincidência a efemeridade do centenário”, confessa, exaltando o carácter “mais do que actual, intemporal”, de Orgia

Pasolini é tido como profeta por muitos, e M. Cardoso partilha desse entendimento. “Há aqui uma espécie de profecia, ou de previsão, de que a aceleração do progresso irá destruir valores que eram se calhar os mais humanos”, refere. A contemporaneidade hoje e esta velocidade, a industrialização, o capitalismo, o consumismo fazem-nos esquecer completamente aquilo que é mais primordial e sagrado, não no sentido religioso, mas no sentido do que damos verdadeira importância”, acrescenta. “Não é inocentemente” que toda a acção de Orgia acontece no domingo de Páscoa. “Há este percurso do sofrimento para que haja uma transformação.”

Depois das três récitas na capital, no Grande Auditório da Culturgest, a peça segue para Matosinhos, em Maio, e Almada, em Novembro. 

Culturgest (Lisboa). 7-9 Abr. Qui-Sex 21.00, Sáb 19.00. 14€.

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