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‘A Very British Scandal’ narra a ascensão e queda de Jeremy Thorpe, o líder político que mandou matar o ex-namorado nos anos 1970. Alegadamente.

Há um século que o Partido Liberal – o velho e entretanto extinto Partido Liberal, outrora uma força de poder no Reino Unido – não tinha um líder tão novo, tão prometedor e tão popular. Jeremy Thorpe afirmou-se como uma estrela política ainda a década de 1950 não tinha terminado, sendo eleito deputado com apenas 30 anos e deixando imediatamente a sua marca em Westminster. Oito anos bastariam para ser entronizado como líder dos liberais e levar o partido num movimento ascendente, que culminou com as eleições de 1974, nas quais seis milhões de votos o deixaram à porta de um governo de coligação com os conservadores. Thorpe impôs as suas condições; os tories não aceitaram, e os liberais ficaram de fora. Mas ninguém esperaria o escândalo que se seguiu e que acabou por o afastar da vida pública: a história de uma homossexualidade escondida e de crime.
Hugh Grant é Jeremy Thorpe em A Very British Scandal, de Stephen Frears, que tal como em Quiz (2020) conta a história de ascensão e queda do protagonista em apenas três episódios. A minissérie estreou-se na BBC em 2018, sob o aplauso geral, e chegou aos EUA no ano seguinte, através da Amazon Prime. Agora é a HBO a trazê-la para os ecrãs portugueses, onde vamos encontrar como co-protagonista Ben Whishaw (o Q dos 007 com Daniel Craig), que interpreta Norman Scott, o inconveniente ex-namorado de Thorpe. Os dois conheceram-se no início dos anos 1960 e mantiveram uma relação amorosa ao longo da década. No entanto, depois de Inglaterra descriminalizar finalmente, mas só em parte, a homossexualidade, em 1967, Thorpe primeiro e Scott depois acabaram por casar (com mulheres, claro) e por ter filhos. O que ficou longe de ser o fim desta história escabrosa.
Os factos continuaram a desenrolar-se no lugar de sempre: nos bastidores. Scott era uma pedra no sapato de Thorpe, ameaçando revelar publicamente o caso, manobrando e extorquindo para conseguir colmatar as consequências da sua instabilidade, do recurso ao álcool, às drogas. Na série, Scott diz que quer ser ouvido, que quer ser visto. Mas sobressai o seu carácter chantagista. Thorpe não é melhor: apesar de hoje em dia ser celebrado pela defesa dos direitos humanos que promoveu e pelas suas posições anti-apartheid, é o rosto de como o establishment britânico operava, à margem, quando importunado no seu privilégio e posto em causa pelas classes tidas como inferiores. A revelação da sua homossexualidade escondida (embora documentada pelo MI5) ditaria o fim da sua carreira e o que se seguiu, face à ameaça, se não é verdade, é muito provável: o líder liberal foi acusado por Norman de ordenar o seu assassinato, em 1975, quando estalou o escândalo que chegaria a julgamento em 1979 e que deitou por terra as aspirações políticas de Thorpe.
A Very British Scandal cobre os acontecimentos de mais de década e meia, baseando-se no livro A Very English Scandal: Sex, Lies and a Murder Plot at the Heart of the Establishment, de John Preston. A adaptação é de Russell T Davies (Doctor Who) e valeu à minissérie um rol de nomeações aos Bafta, aos Emmy e aos Globos de Ouro – Ben Whishaw levou um de cada pela interpretação de Norman Scott (apesar de o próprio Norman já ter dito que não se revê na personagem; Thorpe morreu em 2014). Em 2021, haverá uma segunda temporada, focada no escândalo sexual que envolveu Margaret Campbell, duquesa de Argyll, em 1963.
HBO (T1). Qua.
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